Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
A liturgia do trigésimo domingo comum propõe-nos uma reflexão sobre a forma como Deus exerce a Sua justiça. A justiça de Deus não ignora o sofrimento dos pobres, dos mais fracos, daqueles que nem sempre obtém justiça nos tribunais dos homens. A justiça de Deus concretiza-se essencialmente como amor e misericórdia. Todos os que estiverem disponíveis para acolher o amor misericordioso de Deus, encontrarão graça e salvação.
Na primeira leitura – Eclo 35,15-17.20-22 – um sábio judeu do séc. II a.C. lembra aos seus concidadãos – impressionados pela arrogância dos conquistadores gregos e pelo brilho da cultura helênica – que Deus não faz acepção de pessoas: Ele escuta as súplicas dos desprezados e faz justiça às vítimas dos poderosos. Talvez as vozes dos humildes não signifiquem nada para os grandes do mundo; mas elas atravessam as nuvens e vão diretas ao coração de Deus. O texto mostra a preferência de Deus pelos mais fragilizados: pobres, órfãos e viúvas. Deus é imparcial e, por isso, não pode ser corrompido com orações e ofertas dos ricos, mas escuta o clamor dos pobres.
No Evangelho – Lc 18,9-14 – Jesus, conta uma parábola “para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros”. Colocando frente a frente a figura de um fariseu de vida exemplar e de um publicano de vida mais do que duvidosa, Jesus tira uma conclusão desconcertante: de nada valem as “boas obras” do “justo” que, convencido dos seus méritos, se apresenta diante de Deus e dos irmãos com orgulho e arrogância; Deus prefere o pecador que, humildemente, reconhece a sua indignidade e se dispõe a abraçar a salvação que lhe é oferecida. Lucas, com maestria, narra a parábola do fariseu e do publicano para mostrar como deve ser nosso relacionamento com Deus. O fariseu, de estilo arrogante e cumpridor das obrigações religiosas – ora, jejua e dá o dízimo, – considera-se “homem de bem”, mas despreza os outros. O publicano – cobrador de impostos e pecador público – reconhece as próprias fraquezas e confia na misericórdia divina. Este foi ouvido por Deus, o outro não. Reconhecer nossas fraquezas nos torna mais compreensivos com as falhas dos outros.
A segunda leitura – 2Tm 4,6-8.16-18 – propõe-nos o testemunho do apóstolo Paulo na fase final da sua vida: apesar de todas as contrariedades e vicissitudes que teve de enfrentar por causa da sua fidelidade a Jesus e ao Evangelho, Paulo manteve-se fiel e coerente: combateu o bom combate e guardou a fé. Resta-lhe agora confiar em Deus e entregar-se nas suas mãos. O exemplo de Paulo aponta o caminho aos crentes de todas as épocas. São Paulo reconhece que seu destino está traçado e encara com serenidade o fim próximo. A exemplo de Timóteo, somos convidados a combater o bom combate e guardar a fé mesmo diante das adversidades e desafios. Como é importante saber viver cumprindo a missão e se preparar para o fim da vida com serenidade.
Neste domingo nós devemos ficar alertas: cuidado com aqueles que confiam em sua própria justiça e despreza aos outros. O fariseu – de ontem e de hoje – representa a auto-suficiência humana e religiosa. Ele está repleto de confiança em si mesmo. Sua oração é, na verdade, uma oportunidade para se vangloriar daquilo que ele mesmo acredita estar fazendo bem. Por outro lado, o publicano é a imagem do pecador arrependido, que é justificado por Deus. Sua oração é verdadeira e sincera, brota do coração e é consciente de sua pequenez e fragilidade. Jesus afirma que o publicano voltou justificado para casa, uma vez que a sua oração foi agradável ao Senhor. Deus escuta, sempre, a oração dos oprimidos. Jesus nos acolhe em nossas aflições e ouve a oração de quem reza com o coração sincero e humilde. Neste ano jubilar da esperança, ano da redenção, proponhamo-nos ser missionários da fé e da esperança entre os povos. Busquemos a Deus, com fé e piedade, porque assim Ele, o Onipotente e Misericordioso, nos justifica, salvando-nos em seu amor!
