Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)
A Carta Apostólica In unitate fidei, publicada pelo Papa Leão XIV no 1.700º aniversário do Concílio de Niceia, é de grande relevância teológica e pastoral, especialmente no contexto desse Ano Santo, dedicado a “Jesus Cristo, nossa esperança”. Em Niceia, os cristãos professaram de modo universal a divindade do Filho, verdade central expressa no Credo Niceno-Constantinopolitano, ainda hoje recitado por católicos, ortodoxos e por algumas. comunidades da Reforma.
A Carta não pretende apenas relembrar esse marco histórico, mas renovar o ardor da fé e fortalecer a esperança num tempo marcado por conflitos, polarização e mudanças culturais. O Papa convida a Igreja inteira a “renovar seu entusiasmo pela profissão de fé” (n. 01), retomando o núcleo do Credo de Niceia: Jesus Cristo, Filho de Deus, consubstancial ao Pai. Essa confissão — “da mesma substância que o Pai” — não é mera formulação doutrinal, mas fundamento da esperança cristã, pois o Filho eterno “desceu”, assumiu nossa humanidade e tornou-se solidário com nossas fragilidades (n. 07). Essa fé comum permanece fonte de luz num mundo ferido por guerras, desigualdades e incertezas.
Um dos eixos centrais da Carta é o ecumenismo. Para o Papa, o batismo comum e o Credo niceno constituem a base segura do caminho ecumênico contemporâneo. Ele esclarece que a unidade não significa retorno a um estado anterior às divisões, nem absorção de uma Igreja pela outra. Trata-se de avançar num processo de reconciliação, diálogo e intercâmbio de dons espirituais, abandonando controvérsias que perderam sentido histórico. O ecumenismo é, antes de tudo, caminho de conversão e abertura ao Espírito, que convida as comunidades cristãs a crescerem na compreensão mútua e no testemunho conjunto (n. 12).
A Carta destaca, ainda, o ecumenismo espiritual como sua alma e fundamento. A unidade nasce da oração comum, do louvor e da invocação do Espírito Santo, assim como ocorreu no próprio Concílio de Niceia. Um ecumenismo apenas sociológico ou diplomático não basta, é necessária uma espiritualidade de comunhão que derrote preconceitos e favoreça a caridade recíproca.
O documento reconhece os desafios atuais: fragmentações internas, divergências teológicas persistentes, polarizações políticas e a crescente secularização. Contudo, sublinha que nunca se avançou tanto quanto nas últimas décadas, especialmente no reconhecimento das demais tradições como Igrejas e Comunidades eclesiais e na redescoberta da fraternidade batismal.
No contexto brasileiro, marcado por grande pluralismo religioso, essa visão adquire ainda mais urgência. O rápido crescimento de diversas denominações evangélicas, a diversidade interna do cristianismo e a convivência com outras tradições religiosas tornam o ecumenismo não apenas uma dimensão teológica, mas uma necessidade pastoral e social. A colaboração entre cristãos contribui para a cultura da paz, combate ao ódio, defesa da dignidade humana e cuidado da criação. Além disso, amplia a credibilidade do testemunho cristão num país que anseia por esperança, unidade e coerência ética, sobretudo no serviço aos pobres, migrantes e vulneráveis.
In unitate fidei é mais que uma memória histórica, é uma convocação para transformar a fé comum em gestos concretos de comunhão. No Brasil plural, a unidade cristã, longe de anular diferenças, revela a caridade que integra tudo. O Credo niceno torna-se, portanto, fonte de identidade e ponto de partida para um ecumenismo voltado a um futuro de reconciliação, testemunho e esperança.
