Dom Genival Saraiva
Bispo Emérito de Palmares (PE) 

A paz é uma experiência inerente à condição do ser humano, individual, social e espiritualmente considerado. Viver e conviver é a melhor forma de alguém avaliar se está bem consigo, com seus semelhantes e com o universo. Cada pessoa afirma essa verdade, com conhecimento de causa. Com efeito, estar bem consigo é requisito para estar bem no seu relacionamento com seus semelhantes, de estar em harmonia com o mundo ao seu redor, próximo ou remoto, se visto sob o prisma geográfico. Assim, a paz individual precisa ser vivida, a fim de ser compartilhada socialmente. O povo, sabiamente, afirma que “ninguém dá o que não tem”. Na sua etimologia, eirene, palavra grega, tem “um significado profundo que vai além da ausência de conflito, abrangendo harmonia, bem-estar, segurança, plenitude e reconciliação”. Por isso, comumente, identifica-se a natureza da paz, como “paz interior e exterior”: “Paz interior é a tranquilidade mental e emocional, um estado de aceitação e contentamento consigo mesmo, independente das circunstâncias externas, enquanto a paz exterior se refere à harmonia com o ambiente e as pessoas, alcançada pela aceitação das diferenças e pela ação em prol do bem comum, sendo que uma não exclui a outra, e o autoconhecimento é chave para cultivar ambas.” Trata-se, portanto, de uma paz profunda, existencial, que não coexiste com artifícios, interesses escusos, superficialidades. Dado que o ser humano é social, por natureza, a paz interior observa os requisitos da autenticidade e a paz exterior se rege pelos parâmetros da verdade e da justiça. Não obstante essa constatação, compreenda-se, de passagem, que uma experiência marcante de paz também acontece na vida de indivíduos que optaram pela retirada para o deserto, como fizeram/fazem os eremitas, e. dessa maneira, se sentem em intensa comunhão com Deus e com seus semelhantes, por tê-los em seu coração e em sua oração. Para estes, por terem feito esta opção, o silêncio é a maneira de alimentar/realimentar essa relação enriquecedora. O problema do relacionamento entre pessoas, gerando conflitos de toda ordem, a luta de grupos antagônicos, por qualquer motivo, e o registro de estremecimentos na relação entre povos, cujo retrato mais doloroso é o das guerras, é um fato tão antigo quanto a humanidade. Especialmente no caso das guerras, inspirados no proverbio latino, muitos apelaram para o uso da força: “Se queres a paz, prepara a guerra”. Todavia, pensadores antigos, pessoas comuns de todos os tempos e estrategistas militares das diversas gerações sabem que a paz não é ausência de guerra, ausência de problema.  

A paz, o seu conteúdo e as suas lições se encontram na Sagrada Escritura, fartamente. No Antigo Testamento, o Profeta Isaías vê a paz na vida e na convivência humanas como fruto da virtude da justiça: “A obra da justiça será a paz” (Is 32,17) No Novo Testamento, ao anunciar aos pastores o nascimento do Messias, o anjo e a coorte celeste o apresentaram como causa de paz para a humanidade: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e na terra, paz todos por ele amados”. (Lc 2,14) Jesus, dom da paz, deixou a paz a paz aos seus discípulos: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz.” (Jo 14,27) Ao lado desse grande bem, tornou-os promotores da paz: “Bem-aventurados os que promovem a paz, pois eles serão chamados filhos de Deus.” (Mt 5,9) 

A Igreja, dos primórdios à realidade contemporânea, sempre proclamou a paz como valor universal a ser cultivado, corresponsavelmente. Apesar das resistências, sua “voz rouca” fala “de forma persistente, desgastada e, às vezes, até dolorida, sobre a necessidade de proclamar o evangelho (anunciar) e condenar injustiças ou pecados”. Ou, usando outra expressão conhecida, a humanidade faz “ouvido de mercador”, isto é, “fingir não ouvir, fazer-se de desentendido ou ignorar propositalmente algo que foi dito”.  

Os Papas e a paz 

São João XXIII. O tema da paz foi objeto de sua atenção pastoral, ao escrever a Encíclica “Pacem in terris: “apela à paz mundial baseada na verdade, justiça, caridade e liberdade, abordando direitos humanos, relações entre Estados e a necessidade de uma autoridade mundial (ONU) em um contexto de Guerra Fria e Crise dos Mísseis. Diferente de encíclicas anteriores, foi dirigida a “‘todas as pessoas de boa vontade’, não só católicos, e reconheceu a Declaração Universal dos Direitos Humanos, marcando um novo capítulo na Doutrina Social da Igreja.” 

Mensagens papais no Dia Mundial da Paz 

São Paulo VI. Entre as fecundas inciativas de seu magistério, instituiu o Dia Mundial da Paz, em 1967, a ser celebrado, anualmente, no dia 1º de janeiro, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Em sua última Mensagem, em 1978, escreveu: “Quem escolhe, em oposição à guerra e à violência, a Paz, escolhe por isso mesmo a Vida, escolhe o Homem com as suas exigências profundas e essenciais; e é este o sentido da presente mensagem, que uma vez ainda Nós enviamos, com humildade e ardente convicção, aos Responsáveis pela Paz sobre a terra e a todos os Irmãos do mundo.” Todos os Papas que o sucederam escreveram uma Mensagem com tema próprio em cada ano. 

São João Paulo II 

Na sua primeira Mensagem, em 1979, escreveu o Papa polonês: “A grande causa da paz entre os homens tem necessidade de todas as energias de paz que existem no coração do homem. Foi para as desencadear e para as cultivar – para as educar – que o meu predecessor Paulo VI, pouco antes da sua morte, quis que fosse consagrado o Dia Mundial de 1979: ‘Para alcançar a paz, educar para a paz’ […] A paz é obra nossa, que exige a nossa ação corajosa e solidária. Mas ela é inseparavelmente e primeiramente um dom de Deus: ela requer a nossa oração. […] A todos, cristãos, crentes em Deus e homens de boa vontade, eu digo: não tenhais medo de apostar na paz, de educar para a paz. A aspiração à paz não será desiludida para sempre. O trabalho em prol da paz, inspirado pela caridade que não passa, produzirá os seus frutos. A paz será a última palavra da História.”  

Bento XVI 

Em 2008, em sua primeira Mensagem, o Papa alemão escreveu: “Condição essencial para a paz nas famílias é que estas assentem sobre o alicerce firme de valores espirituais e éticos compartilhados. No entanto, é preciso acrescentar que a família experimenta autenticamente a paz quando a ninguém falta o necessário, e o património familiar – fruto do trabalho de alguns, da poupança de outros e da colaboração ativa de todos – é bem gerido na solidariedade, sem excessos nem desperdício. […] O mesmo se diga daquela grande família que é a humanidade no seu todo. De fato a família humana, que hoje aparece ainda mais interligada pelo fenômeno da globalização, além de um alicerce de valores compartilhados tem necessidade também de uma economia que corresponda verdadeiramente às exigências de um bem comum com dimensões planetárias.” 

Francisco 

Em sua leitura e em seu ensinamento, o Papa Francisco afirmou que o a humanidade está vivendo a “Terceira Guerra Mundial em pedaços”, porque há inúmeros pontos de conflito em diversos continentes. Por isso, em sua Mensagem de 2025, escreveu o Papa argentino: “Atrevo-me também a lançar um outro apelo às jovens gerações, recordando São Paulo VI e Bento XVI, neste tempo marcado pelas guerras: utilizemos pelo menos uma percentagem fixa do dinheiro gasto em armamento para a criação de um fundo mundial que elimine definitivamente a fome e facilite a realização de atividades educativas nos países mais pobres que promovam o desenvolvimento sustentável, lutando contra as alterações climáticas.” 

Leão XIV 

Ciente da sua importância, o Papa americano escreveu a LIX Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2026 – “Rumo a uma paz desarmada e desarmante”. “Desde a noite da minha eleição como Bispo de Roma, quis inserir a minha saudação neste anúncio coral. E desejo reiterá-lo: esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante. Ela provém de Deus, o Deus que nos ama a todos incondicionalmente.” No momento da sua prisão, quando um seguidor de cortou a orelha de um servo do sumo sacerdote, Jesus agiu com paz desarmada: “Guarda a tua espada!” “A paz de Jesus ressuscitado é desarmada, porque desarmada foi a sua luta, dentro de precisas circunstâncias históricas, políticas e sociais.” Há, porventura, alguém que não precise assimilar esse ensinamento e transformá-lo em atitude? Dada a sua natureza dinâmica, como escreve o Papa, a paz é desarmante: “A bondade é desarmante. Talvez por isso Deus se tenha feito criança. O mistério da Encarnação, que tem o seu ponto mais extremo de esvaziamento na descida aos infernos, começa no ventre de uma jovem mãe e manifesta-se na manjedoura de Belém.”  

Para quem crê, a espiritualidade, suporte da vivência individual e da edificação de sólida convivência social, é um pressuposto para o êxito de tudo que se faz em favor da paz, nos arredores de seu próprio mundo e na face grandemente alargada do planeta terra. 

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