Dom João Santos Cardoso 
Arcebispo de Natal (RN)

 

A propósito da escrita, certa vez ouvi a reação de um poeta que, ao ler um texto que o havia tocado profundamente, exclamou, extasiado: “Isso foi escrito com sangue, com as artérias, com o miocárdio e tudo o que o coração tem direito, ou melhor, foi escrito com a alma!” A imagem permaneceu em mim. Fiquei a meditar sobre a força metafórica dessa expressão e sobre o poder da palavra pronunciada com autenticidade, com vida, com paixão. 

De algum modo, esse pensamento conduziu-me a Nietzsche, especialmente à afirmação inicial do capítulo “Do ler e do escrever”, de Assim falou Zaratustra (I): “De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito.” 

No referido capítulo, o filósofo, longe de fazer um elogio genérico da escrita, formula uma crítica severa à cultura livresca, à leitura passiva e à escrita que não nasce da vida. Seu alvo é o homem que lê demais e vive de menos, que acumula palavras, conceitos e doutrinas sem que nada disso tenha atravessado verdadeiramente a sua existência. Ao rejeitar a palavra sem vida e criticar a erudição vazia, Nietzsche defende a palavra como testemunho existencial e afirma a unidade entre pensamento e vida como exigência ética e espiritual da escrita. Assim, só merece ser lido aquilo que foi escrito com sangue, isto é, a partir de uma vida vivida intensamente; só merece ser escrito aquilo que compromete quem escreve; e só há espírito verdadeiro onde o pensamento foi atravessado pela carne da existência. 

“Escrever com sangue”, portanto, não é um convite ao exagero retórico nem à violência verbal, tão em voga em nossos dias, mas uma exigência radical de autenticidade existencial. Trata-se de uma das críticas mais incisivas à palavra vazia e à escrita descomprometida com a vida. Para Nietzsche, só merece o nome de palavra verdadeira aquela que nasce da própria carne da existência, do risco assumido, da dor atravessada e da alegria conquistada. 

O “sangue”, aqui, é metáfora da vida concreta. É o lugar onde pensamento e existência caminham juntos. Representa a rejeição ao discurso que permanece apenas no plano da abstração, da repetição erudita ou da neutralidade confortável. A palavra que não custa nada — que não compromete, não fere, não transforma — é espiritualmente estéril. Por isso Nietzsche afirma, de modo deliberadamente provocativo, que o sangue é espírito, isto é, não há verdadeiro espírito onde a vida não foi implicada. 

Essa intuição toca um ponto decisivo da condição humana: a verdade não é apenas algo que se pensa; é algo que se vive. A palavra só adquire densidade quando passa pelo crivo da experiência, quando é atravessada pela história pessoal, pelas perdas, pelas decisões difíceis e pelos encontros que nos transformam. Escrever com sangue é escrever a partir de dentro, não como espectador da vida, mas como alguém que foi por ela ferido e, apesar disso — ou justamente por isso — ousa falar. 

Nesse sentido, Nietzsche antecipa uma crítica que permanece atual. Vivemos cercados de discursos abundantes, rápidos e facilmente descartáveis, mas raramente encontramos palavras que tenham sido “pagas” com vida. Multiplicam-se opiniões, análises e juízos; escasseiam, porém, os testemunhos. Falta-nos, muitas vezes, a coragem de dizer apenas aquilo que foi verdadeiramente experimentado, discernido e assumido. 

Há também, na exigência de “escrever com sangue”, uma verdadeira ética da palavra. Quem escreve — ou fala — assume responsabilidade sobre aquilo que diz. Escrever com sangue implica aceitar que a palavra compromete quem a pronuncia. Ela deixa marcas, tanto em quem a recebe quanto em quem a oferece. Por isso, essa escrita não é ruidosa nem inflamada; ao contrário, costuma ser sóbria, densa, às vezes até silenciosa. Não nasce da pressa de convencer, mas da necessidade interior de ser fiel ao que foi vivido. 

Paradoxalmente, essa concepção aproxima Nietzsche de uma tradição muito mais ampla do que ele talvez admitisse: a tradição do testemunho. Em diferentes campos — filosófico, literário e espiritual — a palavra que permanece é aquela que carrega o peso da existência. O que atravessa o tempo não é o discurso perfeito, mas o discurso verdadeiro; não o mais elaborado, mas o mais encarnado. 

Escrever com sangue, portanto, não é escrever para impressionar. Ao contrário, é uma necessidade que nasce da exigência de responder à vida. É permitir que o pensamento seja ferido pela realidade e que a realidade, por sua vez, encontre voz no pensamento. Só assim a palavra deixa de ser ornamento e se torna caminho; deixa de ser ruído e se torna espírito. 

Num tempo em que tanto se escreve e tão pouco permanece, a provocação de Nietzsche continua a ecoar como um exame de consciência para todo aquele que faz uso da palavra: aquilo que digo nasceu da vida ou apenas da superfície das ideias? Se nasceu do sangue, então, talvez, seja espírito. 

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