Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
A liturgia do Terceiro Domingo do Tempo Comum desvela-nos o projeto de salvação e de vida plena que Deus tem para oferecer ao mundo e aos homens. Ele visita-nos, toma conhecimento das nossas dificuldades, cuida das nossas feridas, mostra-nos em que direção caminhar para chegarmos à vida, fica à nossa espera para nos acolher e abraçar no final do caminho. A sua salvação ilumina cada um dos nossos passos.
Na primeira leitura – Is 8,23–9,3 –, o profeta-poeta Isaías, que fala aos habitantes de Judá num tempo histórico marcado pelo imperialismo da Assíria, anuncia uma luz que Deus fará brilhar sobre as terras da Galileia e que porá fim às trevas que se abateram sobre aquela região. Talvez as intervenções de Deus não estejam sincronizadas com a nossa impaciência e pressa; mas Ele nunca deixa de vir em socorro dos seus filhos que caminham no mundo. Ao povo oprimido pelos inimigos, o profeta anuncia a restauração da independência e da liberdade. Sua missão é denunciar tudo o que oprime e empobrece as pessoas e anunciar o Deus libertador e Senhor da história, que jamais abandona o seu povo.
O Evangelho – Mt 4,12-23 – mostra-nos a concretização da promessa feita por Deus através do profeta Isaías: Jesus é a luz que começa a brilhar na Galileia para iluminar os caminhos e as vidas de todos aqueles que habitam “na sombria região da morte”. Ele anuncia a chegada de Deus para fazer nascer um mundo novo, mais justo, mais fraterno e mais humano. Jesus não está sozinho neste projeto: reúne à sua volta alguns discípulos e convida-os a colaborar com Ele na construção do Reino de Deus. Após a prisão de João Batista, Jesus entra em ação, apresentando-se como luz para o povo que vive na incerteza e anunciando a chegada do Reino, com sua proposta de vida digna para todos. Em seguida, chama pessoas generosas para dar continuidade ao seu projeto. Todos somos convidados a colaborar com o Reino de Deus.
Jesus continua a nos chamar à conversão. Ele conclama: “convertei-vos”, “arrependei-vos”. O motivo é a proximidade do Reino dos Céus. A chegada desse Reino significa que Deus vem ao mundo com a sua ação salvadora. Converter-se é reconhecer que a Luz surgiu num mundo de escuridão. Converter-se é escolher essa Luz, isto é, optar pelo Reinado resplandecente de Deus, em vez do domínio obscuro dos poderosos deste mundo, como aconteceu com Herodes Antipas, governante da Galileia, que mandara degolar João Batista.
Em segundo lugar, Jesus chama as pessoas para segui-lo, pois o Reinado de Deus cria na sociedade uma comunidade diferente: uma comunidade de pessoas unidas pelo mesmo Mestre, comprometidas com a mesma missão daquele que chama. É assim que duas duplas de irmãos de sangue se tornam irmãos na fé e na missão. O seguimento de Jesus exige coragem e prontidão para mudar de vida. No reinado da Luz, a nova família define-se pelos laços da fé, e o novo trabalho consiste em “pescar homens”, ou seja, promover a dignidade do ser humano.
Por fim, Jesus mostra que o Reinado de Deus é transformador. Num mundo dominado pelo poder de Roma, Ele vem afirmar a soberania do Reinado de Deus. E o faz ensinando a todos, proclamando que vivemos um tempo privilegiado, no qual Deus age para curar as doenças do corpo e da alma, para sanar os males pessoais e sociais. A ação de Jesus é a própria ação de Deus: o Reinado de Deus já acontece em nosso meio. A ação dos seguidores continua, hoje, esse mesmo Reinado nas comunidades atentas à Luz que persiste em brilhar em meio à escuridão. É sempre tempo de nos convertermos ao Deus dos pequenos e simples e de trabalhar para que a luz da bondade divina brilhe e torne o mundo mais humano.
Na segunda leitura – 1Cor 1,10-13.17 –, o apóstolo Paulo pede aos cristãos de Corinto que não se esqueçam do compromisso assumido ao decidirem seguir Jesus e acolher a Boa-Nova da salvação. Como membros do “Corpo de Cristo”, os cristãos não podem viver em meio a disputas, conflitos e divisões. Compete-lhes anunciar, com a própria vida, esse mundo novo de fraternidade, comunhão e paz que Cristo veio propor. São Paulo denuncia as divisões e discórdias presentes na comunidade e convida os coríntios a viverem na unidade e na harmonia. A comunidade não vive do carisma deste ou daquele pregador, mas do poder da cruz de Cristo. Jesus de Nazaré deve ser o centro da pregação de todo evangelizador.
O caminho para realizar-se esta passagem – “das trevas à luz” – é indicado pela pregação de Jesus: “convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4, 17b). O texto culmina no chamamento dos primeiros discípulos: o anúncio do Mestre, que ressoa em seus corações, implica, necessariamente, um movimento de disponibilidade – deixar tudo para seguir: “eles imediatamente deixaram a barca e o pai, e seguiram a Jesus” (Mt 4, 22).
