Jesus ilumina nossas vidas pelo seu Evangelho! 

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR) 

Homilia – 3º Domingo do Tempo Comum (Ano A) 

Jesus ilumina nossas vidas pelo seu Evangelho! 

 

Irmãos e irmãs, 

A liturgia deste Terceiro Domingo do Tempo Comum apresenta-nos o início da vida pública de Jesus e revela o núcleo essencial da sua missão: fazer brilhar a luz de Deus nas trevas da história humana e chamar homens e mulheres a participarem ativamente do Reino. A Palavra de Deus de hoje não fala de um projeto distante ou abstrato, mas de uma ação concreta de Deus que entra na história, visita o seu povo e transforma a vida daqueles que se deixam alcançar por Ele. 

Na primeira leitura – Is 8,23b-9,3 –, o profeta Isaías anuncia uma grande esperança ao povo oprimido: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para os que habitavam na região da sombra da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1). O contexto é de sofrimento, dominação estrangeira e perda de identidade. No entanto, Deus não abandona o seu povo. Quando tudo parece mergulhado na escuridão, Ele faz surgir a luz. Esta luz não é apenas consolo espiritual; é promessa de libertação, de justiça e de vida nova. Deus age na história, ainda que nem sempre segundo os nossos tempos e expectativas. 

O Evangelho – Mt 4,12-23 – retoma diretamente essa profecia e afirma que ela se cumpre em Jesus: “Desde então, Jesus começou a pregar, dizendo: ‘Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo’” (Mt 4,17). Mateus faz questão de situar o início da missão de Jesus na Galileia, terra marginalizada, considerada impura pelos centros religiosos. É ali, na periferia, que a luz começa a brilhar. Deus não escolhe os palácios nem os lugares de prestígio; escolhe os caminhos comuns da vida, onde o povo luta para sobreviver. 

A primeira palavra de Jesus é um apelo forte e exigente: conversão. Converter-se não é apenas mudar alguns comportamentos externos, mas mudar de direção, de mentalidade, de lógica de vida. É abandonar as trevas da autossuficiência, da injustiça, da indiferença, e acolher a luz do Reino de Deus. Converter-se é acreditar que Deus está agindo, aqui e agora, e que sua presença transforma a história. 

Logo em seguida, Jesus chama os primeiros discípulos: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mt 4,19). Pedro, André, Tiago e João deixam imediatamente as redes, o barco e o pai, e seguem Jesus (cf. Mt 4,20.22). Esse detalhe é fundamental: o seguimento exige decisão, ruptura e confiança. Eles deixam o que lhes garantia sustento e segurança para abraçar uma missão nova, cujo sentido só se compreende à luz da fé. 

Seguir Jesus é entrar numa nova forma de viver. O Reino de Deus não se constrói sozinho; ele se realiza através de pessoas chamadas, transformadas e enviadas. “Pescar homens” não significa dominar ou conquistar, mas resgatar vidas, devolver dignidade, tirar pessoas das águas da morte e da exclusão. É participar da missão libertadora de Cristo. 

A segunda leitura, da Primeira Carta aos Coríntios – 1Cor 1,10-13.17 –, ajuda-nos a compreender como esse seguimento deve se concretizar na vida da comunidade. São Paulo faz um apelo firme: “Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos estejais de acordo e que não haja divisões entre vós” (1Cor 1,10). A divisão contradiz o Evangelho. Uma comunidade marcada por disputas, rivalidades e personalismos obscurece a luz de Cristo. 

Paulo recorda que o centro da fé não é este ou aquele pregador, mas Cristo crucificado: “Acaso Cristo está dividido?” (1Cor 1,13). O Reino anunciado por Jesus gera comunhão, fraternidade e unidade. Onde há vaidade, busca de poder e fechamento, a luz se enfraquece e o testemunho perde força. 

Celebrar este domingo é reconhecer que também nós habitamos, muitas vezes, regiões de sombra: crises pessoais, conflitos familiares, injustiças sociais, violência, pobreza e tantas formas de sofrimento. A boa notícia é que a luz continua a brilhar. Cristo permanece caminhando pela Galileia de hoje, chamando-nos à conversão e ao seguimento. 

Que esta Eucaristia renove em nós a coragem de deixar as “redes” que nos prendem, de escolher a luz em vez das trevas e de assumir, como Igreja, a missão de anunciar e construir o Reino de Deus, com palavras e, sobretudo, com a vida. Como nos recorda o salmista: “O Senhor é minha luz e salvação; de quem terei medo?” (Sl 27,1). Amém. 

 

 

 

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