Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Neste 2 de fevereiro de 2026, a Igreja celebra a Festa da Apresentação do Senhor. Olhamos para o Altar e contemplamos o Menino Deus nos braços de Maria e José. Ali, Ele cumpre a Lei e se revela como a “Luz para iluminar as nações”. É mergulhados nesta claridade que celebramos o XXX Dia Mundial da Vida Consagrada.
O Papa Leão XIV nos recorda que a vida consagrada não é um adorno institucional, mas o pulmão espiritual da Igreja. Ao ecoar a mensagem do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica para este ano, percebemos um convite urgente: ser “profecia da presença”. No Brasil de hoje, essa profecia exige mais do que discursos. Ela precisa de encarnação nas encruzilhadas da nossa história, que ainda guarda avanços e profundas feridas sociais.
O Dicastério afirma que os consagrados possuem a missão de ser sementes de paz. Mas o que significa ser semente em 2026? Vivemos em uma era de saturação digital e o Brasil se destaca como uma das nações mais conectadas do planeta. No entanto, essa hiperconectividade nem sempre gera comunhão, pois muitas vezes alimenta o isolamento.
Leão XIV insiste no conceito de “Presença Eucarística Social”. Para o nosso Pontífice, o consagrado retira a força da adoração silenciosa para se tornar um tabernáculo itinerante. A vida religiosa deve atuar como um “laboratório de futuro”, experimentando formas de vida comunitária que superem o individualismo. A vida comum, com seus desafios e alegrias, representa o maior contra-discurso que podemos oferecer a um mundo que prega o sucesso solitário.
Um dos pontos mais sensíveis que o Dicastério nos provoca a refletir neste ano é a necessidade de passarmos de uma “vida de serviços” para uma “vida de presença”. A vida consagrada brasileira deve ser, antes de tudo, um exercício de hospitalidade do coração. Em uma sociedade onde todos falam, mas poucos ouvem, o consagrado oferece o seu tempo como o primeiro ato de caridade.
Não acolhemos apenas o pobre em nossas casas, mas acolhemos a dor do outro em nossa própria alma. A escuta profunda, aquela que dispensa a pressa e o julgamento, manifesta a forma mais pura de hospitalidade. Como nos recorda a tradição monástica, receber o hóspede é receber o próprio Cristo. Hoje, o hóspede que bate à nossa porta é aquele que sofre a solidão em meio às multidões digitais. O silêncio do religioso não significa vazio, mas espaço para o outro.
O Brasil de 2026 atravessa um momento de reconstrução ética. Após anos de intensas polarizações, ainda buscamos o caminho do diálogo fraterno. As feridas da desigualdade ainda sangram em nossas favelas e comunidades rurais. A vida consagrada, que historicamente fundou hospitais, escolas e obras de caridade, recebe agora o chamado para a “Mística da Reconciliação”.
O Dicastério nos adverte que não existe paz sem justiça. Leão XIV apontou que o Brasil exerce um papel profético no Hemisfério Sul. Nossos religiosos, ao optarem pela pobreza evangélica, conquistam a liberdade para denunciar as estruturas de pecado e anunciar a economia da gratuidade. Onde houver um conflito, que o consagrado seja a ponte. Onde houver ódio, que ele seja a escuta que desarma o agressor.
Em 2026, o desafio da vida religiosa é estar no mundo sem pertencer a ele, agindo como um oásis de silêncio. A mensagem do Dicastério enfatiza que a nossa profecia nasce da contemplação. Se o Brasil vive um ritmo frenético de informações, o consagrado oferece o contra-ritmo, garantindo a pausa que permite o discernimento.
A escuta não é passiva, mas uma força ativa. Quando um religioso para para ouvir um jovem angustiado ou um idoso esquecido, ele exerce uma hospitalidade espiritual que cura feridas que a medicina muitas vezes não alcança. É a mística da porta aberta, que Leão XIV tanto nos pede, aplicada ao campo dos afetos. Um coração hospitalar é aquele que se deixa “perder tempo” com o próximo para que este encontre o sentido da eternidade.
Outro ponto crucial da mensagem vaticana para este 2 de fevereiro é o cuidado com a “Casa Comum”. Em 2026, os efeitos das mudanças climáticas são realidades palpáveis em nosso território. A vida consagrada, especialmente na Pan-Amazônia e no Cerrado, exerce o papel de sentinela.
Ser semente de paz é também promover a paz com a criação. Leão XIV pede que as casas de formação sejam exemplos de ecologia integral. O consagrado é o guardião por excelência do que pertence a todos. No Rio de Janeiro, vemos os consagrados atuando na pastoral urbana, onde a ecologia se funde com a dignidade humana. Ali, o silêncio da oração se transforma em mãos que constroem a paz onde o Estado, por vezes, se faz ausente.
O Dicastério nos recorda que a vida consagrada é uma memória viva do modo de Jesus. Leão XIV nos alerta contra o “museologismo espiritual”. A tradição é uma raiz que nutre os frutos do amanhã e não uma peça estática.
Enfrentamos o desafio do decréscimo vocacional e do envelhecimento, mas a força não reside nos números, e sim na intensidade do amor. Estamos redescobrindo o valor do fermento na massa. A redução de estruturas pesadas permite que as congregações voltem ao essencial: a itinerância e a proximidade com o povo. O Papa encoraja as “comunidades de fronteira”, onde religiosos de diferentes carismas trabalham juntos, mostrando que a unidade é maior que a sigla institucional.
Em uma sociedade brasileira que, em 2026, ainda luta contra altos índices de ansiedade, o testemunho da alegria de um consagrado é revolucionário. O mundo é rápido e cruel com os mais lentos. A vida religiosa oferece um ritmo alternativo baseado na paciência histórica.
Um consagrado triste é um contra-testemunho. A alegria do Evangelho deve transbordar nas salas de aula e nos leitos de hospitais. A mensagem do Dicastério reforça que a vida consagrada deve ser exultação. Essa alegria deve ser pascal, atravessando a cruz para encontrar a luz. É a alegria de quem sabe que, na escuta do irmão, encontrou o próprio Deus.
Simeão e Ana são os nossos modelos. Eles são idosos na idade, mas jovens na esperança, reconhecendo o Salvador no cotidiano. Que neste Dia Mundial da Vida Consagrada, cada irmão e irmã sinta o abraço da Igreja. O Brasil de 2026 precisa do seu sim.
Leão XIV conta com vocês para serem as sentinelas que anunciam a aurora. Que a Virgem Maria, a primeira Consagrada e Mãe da Hospitalidade, proteja nossos institutos e faça florescer novas vocações. Que sejamos profecia da presença, oásis de escuta e sementes de uma paz que o mundo não pode dar, mas que nós temos a honra de testemunhar.
