Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Muitas vezes, quando pensamos no Dia Mundial do Enfermo, celebrado hoje, 11 de fevereiro de 2026, a imagem que nos vem à mente é a do médico à beira do leito ou a do religioso em oração na Capela do Hospital. São imagens sagradas e verdadeiras. Mas hoje, gostaria de propor um olhar para os bastidores dessa cena: para as planilhas, os processos, a logística e a administração. Sim, existe uma teologia escondida na gestão hospitalar.
Vivemos um tempo novo na Igreja. As palavras do Papa Leão XIV em sua mensagem para este dia nos provocam a pensar no “Pacto de Cuidado”. O Santo Padre nos alerta que a técnica sem alma é fria, mas eu ousaria complementar, à luz da minha experiência atual: a alma sem técnica, na saúde, é ineficaz. O amor precisa ser organizado para chegar a quem precisa.
Neste primeiro ano sem a presença física do Papa Francisco, cuja memória saudosa honramos com carinho, recordamos o quanto ele insistiu no combate à “cultura do descarte”. Francisco nos ensinou o que fazer (não descartar ninguém); Leão XIV agora nos convida a refletir sobre como fazer (construir pactos duradouros). E é aqui que entra a missão vital da boa gestão.
À frente do Instituto de Cooperação para o Desenvolvimento da Saúde (ICDS), tenho testemunhado que “cooperar” é um verbo divino. A Santíssima Trindade é a primeira cooperativa de amor que existe. Quando trazemos essa cooperação para a saúde, entendemos que salvar uma vida não depende apenas do cirurgião brilhante, mas de uma cadeia imensa de “bons samaritanos” que garantem que o medicamento esteja na prateleira, que o equipamento esteja calibrado e que o hospital esteja limpo e acolhedor.
A missão do ICDS, de unir excelência em gestão e responsabilidade social para transformar vidas, é uma resposta concreta ao apelo de Leão XIV. O Papa diz em sua mensagem que “a sociedade se mede pelo cuidado com os vulneráveis”. Eu afirmo que a gestão é a ferramenta que torna esse cuidado sustentável. Não adianta termos compaixão se não tivermos competência para manter as portas abertas. O desperdício de recursos na saúde não é apenas um erro administrativo; é um erro moral, pois retira a oportunidade de cura de quem mais precisa.
A visão teológica que proponho é a da “Diaconia da Eficiência”. O gestor de saúde, ao otimizar processos para atender mais pacientes com qualidade, está multiplicando os pães. Não por milagre instantâneo, mas pelo milagre do trabalho honesto e inteligente.
Neste 11 de fevereiro, ao olharmos para os enfermos, rezemos por sua recuperação e conforto espiritual. Mas rezemos também para que nossas instituições de saúde sejam geridas com transparência, ética e humanidade. Que o ICDS e tantas outras iniciativas sérias continuem sendo braços operosos da Providência Divina. Pois, no fim das contas, organizar bem a saúde é uma das formas mais concretas de dizer ao irmão doente: “Eu me importo com você”.
