Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
A caminhada quaresmal nos propõe um itinerário seguro de conversão através do tripé clássico da piedade cristã: o jejum, a oração e a esmola. Gostaria de refletir com profundidade sobre esta última dimensão, muitas vezes mal compreendida e reduzida a um simples ato de dar moedas. A esmola, no sentido bíblico e eclesial, representa muito mais do que filantropia ou assistência social. A esmola toca o coração do Evangelho porque toca na realidade do amor ao próximo. O apóstolo nos questiona com dureza em sua carta: “Se alguém possuir bens deste mundo e vir o seu irmão passar necessidade, mas lhe fechar o coração, como pode o amor de Deus permanecer nele?”. A fé sem a caridade concreta corre o risco de se tornar uma ideologia vazia ou um ritualismo estéril.
Nós vivemos num tempo marcado pela desigualdade escandalosa. A nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro espelha essa realidade de forma dramática. Convivemos diariamente com a opulência e a miséria separadas, muitas vezes, apenas por uma rua ou um muro. O Papa Leão XIV tem denunciado vigorosamente o que ele chama de “globalização da indiferença”. Nós nos acostumamos com a dor do outro. Vemos a pessoa caída na calçada, o pai de família pedindo ajuda no sinal, a criança vendendo bala no trem ou no metrô, e o nosso olhar passa direto. Criamos uma carapaça de proteção para não sofrer. A prática da esmola surge como o remédio divino para quebrar essa casca e devolver a nossa humanidade.
A palavra “esmola” vem do grego eleemosyne, que significa misericórdia e compaixão. Portanto, dar esmola significa fazer um ato de misericórdia. Não se trata de dar o que sobra ou de dar para se livrar do incômodo de quem pede. Trata-se de partilhar a vida. Jesus elogiou a viúva pobre no Templo não porque ela deu muito dinheiro, mas porque ela deu tudo o que tinha para viver. Ela deu a sua própria segurança. A esmola cristã exige que eu tire algo de mim para dar ao outro. Se a minha doação não me custa nada, se eu dou apenas as migalhas do meu banquete, eu ainda não entendi o espírito da caridade de Cristo.
Precisamos superar a visão de que a esmola humilha quem recebe. Pelo contrário, a esmola feita com amor restaura a dignidade. O Papa nos ensina que a esmola deve ter dois movimentos: a mão que entrega o pão e o olhar que entrega o amor. O Santo Padre pergunta: “Quando você dá esmola, você toca na mão da pessoa? Você olha nos olhos dela?”. Se nós jogamos a moeda de longe, com medo de contaminação, nós não praticamos a caridade cristã, mas apenas exercitamos a nossa arrogância. O pobre é sacramento de Cristo. “Tive fome e me destes de comer”. A mão estendida do pobre é a mão de Jesus esperando a nossa resposta.
A esmola também possui uma função social de justiça e reparação. A Doutrina Social da Igreja afirma que sobre toda propriedade privada pesa uma hipoteca social. Deus criou os bens da terra para todos. Quando acumulamos demais enquanto o irmão carece do necessário, nós ferimos a ordem da criação. A esmola funciona como um mecanismo de redistribuição e de justiça. Os Padres da Igreja, como São João Crisóstomo, usavam palavras de fogo sobre isso. Eles diziam que não compartilhar os bens com os pobres significa roubar deles e tirar-lhes a vida. Os bens que possuímos não são nossos, mas deles. A esmola na Quaresma nos lembra que somos apenas administradores dos bens de Deus e que um dia prestaremos contas dessa administração.
Convido os fiéis cariocas a praticarem a esmola de forma criativa e generosa. A Campanha da Fraternidade deste ano, que fala sobre a moradia, e nos aponta caminhos concretos. A sua oferta pode ajudar a construir um teto para quem dorme na chuva. Mas a esmola vai além do dinheiro. Existe a esmola do tempo. Vivemos na correria e dizemos que “tempo é dinheiro”. Então, dar o seu tempo para escutar um idoso solitário, para visitar um doente no hospital ou para ensinar uma criança na catequese constitui uma esmola preciosíssima. Existe a esmola do perdão. Perdoar quem nos ofendeu é uma caridade imensa que liberta o outro e a nós mesmos. Existe a esmola do sorriso e da gentileza num mundo tão agressivo e violento.
Eu sei que muitos se perguntam sobre o destino da esmola dada na rua. “Será que ele vai usar para drogas? Será que existe uma máfia por trás?”. Essas perguntas são legítimas e exigem prudência. Mas o Papa nos dá um conselho de ouro: “Se tiver que errar, erre por excesso de bondade e não por excesso de desconfiança”. No entanto, a melhor forma de garantir que a sua ajuda transforme vidas é apoiar as obras sociais organizadas. A nossa Igreja no Rio de Janeiro sustenta centros sociais, distribuição de alimentos, orfanatos, asilos, casas de recuperação para dependentes químicos e projetos nas favelas e comunidades. Quando você colabora com o dízimo e com a Coleta da Solidariedade, você garante que a esmola se transforme em promoção humana, em educação e em saúde. A caridade organizada multiplica o pão e a eficácia do bem.
A esmola tem o poder de apagar a multidão dos pecados, como diz a Escritura. Ela purifica a nossa alma da ganância, que é a raiz de todos os males. O dinheiro promete segurança, mas é uma segurança falsa. Só Deus basta. Quando eu abro a mão para dar, eu declaro que a minha confiança está na Providência Divina e não na minha conta bancária. O ato de doar nos liberta da escravidão do ter para vivermos a liberdade do ser.
Nesta Quaresma, façam o exercício de rever o orçamento familiar. Vejam o que é supérfluo. Vejam onde existem gastos excessivos com luxo, desperdício ou vaidade. Cortem esses gastos e destinem esse valor aos pobres. Ensinem seus filhos a partilhar. A criança que aprende a dividir o brinquedo e o lanche hoje será o adulto solidário e justo de amanhã. Não privem as crianças da alegria de fazer o bem.
O Rio de Janeiro precisa desse testemunho de amor. A violência e o ódio não serão vencidos por mais armas, mas por mais fraternidade. Cada gesto de partilha acende uma luz na escuridão. Se cada católico desta cidade assumisse o compromisso real com a esmola e a caridade, nós não teríamos ninguém passando fome em nossas ruas. O milagre da multiplicação dos pães começou quando um menino teve a coragem de partilhar cinco pães e dois peixes. Jesus precisa do nosso pouco para fazer o muito.
Que Nossa Senhora, Mãe de Misericórdia, nos ensine a ter um coração sensível e mãos abertas. Que ela nos ajude a ver no rosto do pobre o rosto do seu Filho Jesus.
Uma santa Quaresma de caridade e partilha a todos.
