A casa é o lugar onde o ser humano se torna ele mesmo 

Dom João Santos Cardoso 
Arcebispo de Natal (RN)

 

A Campanha da Fraternidade 2026, com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), convida-nos a olhar para a casa para além de sua dimensão material. A moradia não é apenas abrigo contra a chuva ou o calor; é o lugar onde o ser humano se constitui como pessoa, onde aprende a ser e a pertencer. 

Desde os primeiros anos de vida, é no espaço da casa que se aprende a falar, a confiar, a amar e a conviver. O lar constitui o primeiro ambiente de socialização, o primeiro lugar de proteção e o horizonte inicial de sentido. Ali se formam memórias que acompanham toda a existência. Não é por acaso que, ao recordar a infância, evocamos imagens da casa: a mesa, o quarto, o alpendre onde se relaxava, o quintal onde se brincava e se varria com a vovó usando vassouras improvisadas, o meu pé de laranja lima, os sons e os cheiros que marcaram nossa história. 

A casa é espaço de interioridade. Nela podemos retirar as máscaras sociais e simplesmente ser. No mundo público, muitas vezes desempenhamos papéis; no lar, reencontramos nossa identidade mais profunda. A moradia oferece repouso ao corpo e serenidade ao espírito. Sem essa possibilidade de recolhimento, a pessoa corre o risco de fragmentar-se, vivendo em permanente exposição, o que gera ansiedade, insegurança e desestruturação interior. 

A proteção oferecida pela casa é, portanto, integral: física, afetiva e espiritual. É no ambiente doméstico que se aprende a confiança fundamental na vida. Ali a criança cresce amparada por referências estáveis; ali o idoso encontra cuidado e respeito; ali a família constrói laços de solidariedade e pertença. O lar é o primeiro espaço educativo e a primeira escola de fraternidade. 

Por isso, quando milhões de pessoas vivem em moradias precárias, improvisadas ou instáveis, ou se encontram em situação de rua, não se trata apenas de carência material, mas de uma ferida que atinge a própria constituição da pessoa. A falta de um espaço digno compromete o desenvolvimento humano, fragiliza a vida familiar, enfraquece os vínculos e perpetua ciclos de exclusão. 

O objetivo geral da Campanha da Fraternidade propõe promover “a moradia digna como prioridade e direito”. Tal afirmação toca o coração da dignidade humana. A casa não pode ser reduzida a mercadoria ou privilégio de poucos; é condição essencial para que o ser humano realize sua vocação de sujeito, membro de uma família e cidadão de uma comunidade. 

No mistério da Encarnação, Deus assume a experiência concreta do habitar humano. Jesus cresce em uma casa, participa da vida doméstica, aprende relações no espaço do lar. O cotidiano da casa de Nazaré revela que a vida ordinária é lugar de santificação e de construção da identidade. 

Além disso, é na casa que se aprende a fraternidade. No convívio doméstico exercitam-se a partilha, o perdão, a responsabilidade e o cuidado mútuo. Uma sociedade que nega a muitos o direito à moradia compromete as bases da própria convivência social. 

Defender a moradia digna, portanto, é promover o desenvolvimento integral da pessoa. É reconhecer que o ser humano necessita de raízes, estabilidade e de um espaço onde possa crescer com segurança e esperança. 

A casa não é apenas um teto. É o lugar onde a vida floresce, onde a identidade se consolida e onde o ser humano encontra condições para se tornar plenamente ele mesmo. Onde falta moradia digna, falta também a possibilidade de realização humana. 

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