Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)
No início da Quaresma, a Igreja nos conduz ao deserto com Jesus. Ali, longe do barulho das multidões, Ele enfrenta as tentações que revelam não apenas os desafios do seu ministério, mas também as provações fundamentais da condição humana. O Evangelho nos mostra que Jesus não vence as tentações com gestos espetaculares, mas com fidelidade, confiança no Pai e escuta da Palavra. É nesse mesmo caminho de fidelidade que a Quaresma nos oferece três remédios simples e profundos: jejum, esmola e oração.
A primeira tentação é a do pão. Depois de jejuar quarenta dias, Jesus sente fome. O tentador lhe propõe transformar pedras em pão. À primeira vista, parece algo razoável: usar o poder para saciar uma necessidade legítima. Mas Jesus responde: “Não só de pão vive o homem”. Aqui está a tentação de reduzir a vida ao imediato, ao consumo, à satisfação rápida dos desejos. É a tentação de fazer da necessidade um absoluto, como se ela fosse o único critério das nossas escolas.
O jejum é o remédio quaresmal para essa tentação. Ao jejuar, aprendemos que nem tudo o que é possível é necessário. O jejum educa o desejo, liberta o coração da escravidão do excesso e nos recorda que a vida tem uma profundidade que o consumo não alcança. Jejuar não é desprezar o pão, mas recolocá-lo no seu lugar justo. É aprender a dizer “basta” para que Deus volte a ser o essencial.
Poder x esmola
A segunda tentação é a do poder. O tentador mostra a Jesus os reinos do mundo e promete tudo em troca de adoração. É a sedução do domínio, da glória fácil, do sucesso obtido à custa da consciência. Jesus rejeita essa lógica e afirma que só a Deus se deve adorar. Ele escolhe o caminho do serviço, não da imposição, da entrega e não da dominação.
A esmola é o remédio quaresmal contra essa tentação. Dar esmola não é apenas oferecer algo que sobra, mas descentrar-se de si mesmo, reconhecer o outro como irmão e não como ameaça ou instrumento. A esmola rompe a lógica do acúmulo e do poder, e nos insere na lógica do Reino, onde quem reparte cresce e quem serve se engrandece. Ela cura o coração da tentação de dominar e nos educa para a solidariedade, transformando a relação com o próximo.
Espetáculo religioso x oração
A terceira tentação é a do espetáculo religioso. O tentador convida Jesus a se lançar do alto do templo para obrigar Deus a intervir. É a tentação de usar Deus em benefício próprio, de transformar a fé em exibicionismo, de exigir sinais em vez de confiar. Jesus responde com firmeza: “Não tentarás o Senhor teu Deus”.
A oração é o remédio quaresmal para essa tentação. A verdadeira oração não busca manipular Deus, mas colocar-se diante d’Ele com humildade. Orar é escutar antes de falar, confiar antes de exigir, permanecer antes de agir. A oração nos liberta de uma fé superficial e nos conduz a uma relação filial, marcada pela confiança e pela entrega, sem cálculos nem encenações.
Caminho para a cura
As tentações de Jesus revelam que o mal nem sempre se apresenta como algo claramente errado. Muitas vezes, ele se disfarça de solução fácil, de atalho sedutor, de falsa urgência. Por isso, a Quaresma não é um tempo triste, mas um tempo terapêutico, um caminho de cura do coração.
Jejum, esmola e oração não são práticas isoladas, mas atitudes que nos reorientam interiormente. Elas nos ajudam a passar da lógica do “ter” para a do “ser”, da lógica do poder para a do serviço, da lógica do espetáculo para a da confiança. São remédios antigos, mas sempre novos, porque tocam o coração humano em todas as épocas.
Ao caminhar com Jesus no deserto, aprendemos que vencer as tentações não é um ato heroico isolado, mas um exercício diário de fidelidade. Que esta Quaresma nos ajude a reconhecer nossas tentações pessoais e sociais e a acolher, com simplicidade, os remédios que o Evangelho nos oferece.
Assim, purificados pelo jejum, abertos pela esmola e fortalecidos pela oração, poderemos chegar à Páscoa com o coração mais livre e mais disponível para Deus e para os irmãos.
