Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)
A moradia digna é o ponto fundamental, o objetivo central a ser alcançado pela Campanha da Fraternidade sendo esta uma alusão para ser promovida a partir da Boa Nova do Reino de Deus e também no espírito de conversão quaresmal, ser um direito e prioridade para todas as pessoas. No entanto como a moradia se tornou uma mercadoria especial, cara, é preciso rezar e trabalhar para que se formulem políticas públicas dos governos para que ajudem a todas as pessoas com a moradia, voltadas, sobretudo para as classes sociais mais necessitadas. A Igreja no Brasil estimula a reflexão sobre a moradia para que as pessoas vivam na paz e no amor através de suas casas, locais de convivência humana e espiritual. “Ele veio morar entre nós”(Jo 1,14): É o lema que norteia a CF 2026. Nós veremos a seguir a visão dos padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos em relação à moradia.
A criação unânime
A CF 2026 ressalta muito a casa como local de profundas relações para todas as pessoas. São João Crisóstomo, Bispo de Constantinopla nos séculos IV e V afirmou a criação de Deus em relação ao ser humano feita de uma forma unânime, em conjunto. O Senhor quis que tudo permanecesse na múltipla concórdia e boa ordem entre o homem e a mulher. Ao criar Deus o homem e depois a mulher disse que Ele iria dar-lhe uma ajudante (cfr. Gn 2,18), afirmando com isso que ela estava ao lado do homem para ajudá-lo e ele ser ajudado por ela, unindo desta forma ele e ela num profundo amor1. As duas pessoas fazem parte da criação unânime de Deus Criador de todas as coisas.
As relações se alargam com a constituição da família
A CF 2026 concebe um ponto fundamental que a vida humana prossegue com a família tendo presente que Jesus veio morar entre nós (Jo 1,14). Ele nasceu dentro de uma família, com os pais adotivos, José e Maria. O Bispo de Constantinopla ainda ressaltou que as relações na família vão se alargando com a graça de Deus, o fato de que a pessoa ser da mesma substância faz o amor entre o homem e a mulher conduzir a criação de filhos e de filhas. Eles derivam de um e de outro. Disso nascem os múltiplos contatos de afeto na qual a família humana é convidada a amar o pai, o avô, e também a mãe, a avó, os netos e as netas como irmãos e irmãs. O Senhor também quis que as pessoas não se unissem com os próprios parentes, mas com pessoas estranhas, fora do contexto familiar (cfr. Lv 18,8.10) de modo que as relações familiares pudessem se alargar sempre mais e todos crescessem nos valores humanos e espirituais.
A criação da amizade
A moradia possibilita a vida fraterna, a amizade entre os seus membros, conforme a CF 2026. Nesta linha está também a visão de São João Crisóstomo que tinha presentes muitos elementos provenientes do Senhor concedidos ao ser humano para que fossem cultivados na família, numa moradia. Ele dispôs que nós tivéssemos necessidade de uns aos outros, tornando a unidade, valor fundamental na convivência humana e com Deus. A amizade é dada também quando uma pessoa familiar passa pelo sofrimento, pela cruz onde todos se unem para aliviar o sofrimento da pessoa3. No caso nosso quando a pessoa necessita de uma casa digna é preciso a unidade de todos os membros da família para ajudar a quem mais necessita.
Os cristãos unidos com outras pessoas
A CF 2026 alude à convivência fraterna para a moradia, sobretudo para com as pessoas que a tem na sua precariedade. A Carta a Diogneto, escrito do século II ilustrou que os cristãos viviam nas casas, moradias como quaisquer outras pessoas. Não se distinguiam dos outros seres humanos, nem por terra, nem por língua ou costumes. Eles não moravam em cidades próprias, nem falavam língua estranha, nem tinham nenhum modo especial de viver. Eles viviam em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar, quanto à roupa, ao alimento testemunhavam um modo de vida social muito importante, parodoxal4 no seguimento a Jesus Cristo e à sua Igreja.
A construção da casa
A CF 2026 alude às pessoas para fazerem obras que enalteçam o corpo de Cristo. Muitas pessoas perdem tudo por causa das enchentes ou por viverem em locais de risco para as suas vidas e de seus familiares. Santo Agostinho, bispo de Hipona dos séculos IV e V afirmou a unidade entre os seus membros que podem se ajudar mesmo estando de formas longíquas umas com as outras, mas todas junto à Cabeça que é o Cristo Jesus. Se de fato habitássemos numa única casa, tornar-nos-emos de estar juntos quanto mais formamos a unidade pelo único corpo do Senhor. A verdade em Pessoa que é Jesus Cristo na Igreja, corpo de Cristo diz ao mesmo modo que a Igreja é casa de Deus (cfr. 1 Tm 3,15)5.
Casa eterna
O bispo de Hipona também disse que as pessoas vão se encaminhando para a casa da festa eterna, ressoando agora como uma harmonia agradável e doce aos ouvidos do coração. No entanto ele tem presente neste mundo a casa de passagem, como tenda aqui de baixo, que é o tempo de preparação em vista da eterna moradia6, alimentada pela alegria, pelo bem, pelo amor realizados junto aos irmãos e irmãs que mais necessitam de moradias, para ter uma vida digna.
A moradia na Campanha da Fraternidade 2026 alude a importância de que todas as pessoas tenham um local para viver, para rezar, para crescer nas relações com Deus com o próximo e consigo mesmo. As nossas comunidades fazem alguma coisa em vista do bem de nossos irmãos e irmãs. Os santos padres colocaram a importância em comunhão com a Palavra de Deus que a moradia é o local importante de vida e de amor ainda neste mundo e um dia na eternidade.
