Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba (MG)
A escuridão dificulta muita coisa, apesar de ser uma brecha significativa de claridade para aqueles que maquinam as ações desonestas, os roubos, assaltos etc. Aqui falamos da luz, que é Cristo no caminho, a Luz que brilha no interior e no exterior das pessoas que o aceitam. Quem está afastado da luz vive como cego e distante daquele que é capaz de brilhar no coração das pessoas.
Estamos na cultura das aparências, do mundo estético, de olhar para o aspecto externo e pouco para o interior do coração. Daí veem as crises existenciais, porque falta a luz como intervenção de Deus. A pessoa não se satisfaz por si mesma, apenas com a visão dos olhos e pouco com a do coração. O homem vê as aparências e Deus olha as riquezas contidas no interior das pessoas.
Os simples e mais fracos são invisíveis diante da sociedade, mas visíveis diante dos olhos de Deus. Deus escolhe a quem se considera como incapaz, como o que aconteceu com Davi, o filho menos robusto aos olhos do pai, Jessé, e é ungido para ser Rei de Israel (cf. ISm 16,11-12). Com esta atitude própria, o Senhor quebra os paradigmas construídos por uma sociedade discriminatória.
A palavra luz não é uma realidade vazia, sem consistência, porque torna-se impossível caminhar na escuridão da vida. A Palavra do apóstolo Paulo faz referência aos significativos frutos na prática de quem segue a via da luz, que são, a bondade, a justiça e a verdade (Ef 5,9). A meta principal, que deve ser atingida, é a construção daquilo que ilumina a vida, o Reino de Deus, a santidade.
Imaginemos bem uma pessoa cega de nascença. Não é uma indignidade, mas uma deficiência natural, falta de luz física. O interior da pessoa pode estar brilhando pela presença de Deus, que acolhe os deficientes de forma especial. Jesus encontrou diversos cegos vivendo na periferia da sociedade, aqueles que não eram vistos pelos transeuntes e os curou para que tivessem vida normal.
Ser luz na vida é ter cuidado e carinho com a dignidade dos outros, das pessoas mais pobres e sofredoras, na verdade, daqueles que querem realmente ver. Assim fica aberto o caminho que leva até a proximidade de Deus, justamente por aproximar do mais sofrido. A Quaresma é um convite de luz, de abertura para a mudança nas atitudes de fechamento, para o outro e para Deus.
