Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)
A Campanha da Fraternidade 2026 convida-nos a compreender a casa não como mera construção material, mas como realidade profundamente existencial. A moradia ultrapassa a função de abrigo físico: é espaço de interioridade, memória e sonho. Para aprofundar essa dimensão, a reflexão do filósofo francês Gaston Bachelard (1884–1962), especialmente em A Poética do Espaço, oferece contribuição significativa.
Bachelard afirma que a casa é “nosso canto do mundo”. Ela constitui o primeiro universo do ser humano, o lugar onde a vida íntima se enraíza e a imaginação encontra abrigo. Antes de ser objeto arquitetônico, a casa é realidade vivida. É nela que a memória se organiza, os afetos se sedimentam e os sonhos ganham forma. A moradia protege não apenas o corpo, mas também o sonhador.
O filósofo desenvolve uma verdadeira fenomenologia da intimidade. Cada espaço doméstico possui valor simbólico e dialoga com dimensões da vida interior: o sótão evoca clareza e racionalidade; o porão remete às profundezas do inconsciente; o quarto sugere recolhimento; cantos e armários simbolizam refúgio e proteção. A casa torna-se, assim, uma “topoanálise”, isto é, um espaço que revela as camadas mais profundas da pessoa e se converte em espelho da alma.
A moradia é também lugar privilegiado da memória. As lembranças mais marcantes da infância estão ligadas aos espaços habitados. Mesmo quando deixamos a casa de outrora, ela permanece viva em nós. Habitamos não apenas casas reais, mas também casas lembradas. Nesse vínculo entre espaço e memória, a identidade se consolida e a continuidade da própria história se mantém.
Por isso, a estabilidade proporcionada pela moradia favorece o enraizamento existencial. É no ambiente protegido do lar que a pessoa pode recolher-se, imaginar e projetar o futuro. Quando essa estabilidade falta, a experiência de viver torna-se fragmentada. A insegurança habitacional não compromete apenas as condições materiais; atinge a própria continuidade da vida interior. A carência de moradia digna não é somente questão econômica, mas também simbólica e existencial. Quem vive em constante precariedade perde mais do que proteção física: perde o espaço onde a interioridade se organiza e a esperança amadurece.
A exclusão habitacional representa a ruptura desse “canto do mundo”, isto é, do lugar onde se pode sonhar, recordar e projetar o futuro. A imaginação necessita de abrigo, e a vida interior exige estabilidade. Em situações de rua ou em moradias marcadas pela insegurança constante, a possibilidade de cultivar memórias duradouras e alimentar esperanças torna-se gravemente comprometida.
À luz de A Poética do Espaço, podemos afirmar: a casa é realidade existencial. Onde há moradia digna, abre-se a possibilidade de enraizamento, memória e esperança; onde ela falta, a própria experiência humana se fragiliza.
Essa reflexão encontra sua plenitude no mistério da Encarnação. Ao assumir a condição humana, Deus não assume apenas um corpo, mas também um espaço concreto de vida. Jesus cresce numa casa real, partilha a vida doméstica e aprende no interior de um lar. A casa de Nazaré torna-se sinal eloquente da dignidade do habitar humano. O cotidiano simples da vida doméstica integra o próprio desígnio da salvação.
Promover a moradia digna, portanto, é muito mais que oferecer abrigo físico. É garantir que cada pessoa e cada família disponham de um espaço onde a memória floresça, os sonhos amadureçam e a identidade se consolide. Proteger o direito à casa é proteger a própria vida interior.
A casa não é apenas construção; é intimidade estruturada. É lugar onde o ser humano encontra abrigo para o corpo e para a imaginação. Onde existe moradia digna, a esperança pode enraizar-se. Onde ela falta, a experiência humana torna-se vulnerável e fragmentada.
