Dom Itacir Brassiani
Arcebispo de Aracaju (SE)
“O Irã é um Estado pária, que massacra seu povo e financia o terror contra o Ocidente. Se o ataque derrubar esse regime criminoso, o mundo agradecerá. Ninguém, no mundo civilizado, vai chorar pelo Irã. Sejam quais forem as motivações da guerra, se esse for o seu resultado, será bom para o mundo inteiro…” (O Estado de São Paulo, 28/02/2026).
Este é o juízo implacável expresso no editorial do jornal. É uma forma de declarar que essa guerra é “justa” e “santa”. O que falta é apenas definir o preço que “a civilização ocidental” está disposta a pagar para “derrubar o regime” e implantar à força sua democracia vazia. Para eles, o assassinato de 165 meninas numa escola feminina é um custo aceitável.
Para os senhores da “imprensa hereditária”, a mesma que aplaudiu o início do Terceiro Reich de Hitler, “Israel tem pleno direito de se defender de uma ameaça existencial inequívoca”. Assumindo o papel de juiz, o jornalão diz que a agressão é justa, e os EUA têm o direito de impor o seu “modelo de democracia” e de controlar o petróleo iraniano.
“Se ninguém no mundo civilizado vai chorar pelo Irã”, eu me orgulho de não pertencer a esta “civilização”, que tem mais de violência do que de civilidade. Pertenço aos “povos bárbaros” que choram a morte de inocentes. “Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos, e não quer consolar-se porque os perdeu” (Mt 2,18).
Netanyahu não poderia esquecer o lamento dos seus antepassados: “Consomem-se em lágrimas os meus olhos, fervem as minhas entranhas; derrama-se por terra meu fel ante a ruína da filha do meu povo, quando meninos e crianças de peito desfalecem nas praças da cidade… Jazem por terra nas ruas meninos e velhos…” (Lamentações 2,11.21).
Não me conformo com o fato de que haja quem, proclamando-se cristão e católico, justifique e aplauda guerras, mesmo as mais nefastas e injustificáveis. Neles a indiferença se globalizou e arruinou a alma. Eles confundem o aplauso e a submissão aos vencedores e à rapina com reverência ao Deus da Vida e defesa dos verdadeiros valores humanos.
Recordemos, mais uma vez, a Doutrina Social da Igreja: A Comunidade Internacional se baseia na soberania de cada Estado, e nada pode negar ou limitar a sua independência. “Para resolver os conflitos que comprometem a segurança internacional é preciso renunciar definitivamente à ideia de buscar a justiça mediante o recurso à guerra (cf. §§ 434 e 438). Não há espaço para guerras declaradas diante de “ameaças existenciais”.
