Dom Pedro Cipollini
Bispo de Santo André (SP)
O ditado muito usado na antiguidade, quando dominava o Império romano, dizia: si vis pacem para bellum, (se queres a paz prepare a guerra). Como se vê é um ditado, mais que realista, um modo de pensar pagão. Nele não há um Deus que, na sua bondade, quer que vivamos na terra como irmãos. Foi isto que nos ensinou Jesus Cristo: “Um só é vosso pai, e todos vós sois irmãos”(Mt 23,8-10).
Na visão cristã, não deve haver espaço para as guerras, não existe “guerra santa”. Se muitas vezes os cristãos se envolveram nelas foi um equívoco. Entrar em uma guerra, até para os sábios pagãos da antiguidade, era abdicar da ética, pois, numa guerra predomina a lei do mais forte, a lei da selva, que nada respeita nem poupa. E aqui falamos da ética como princípio universal que a razão percebe, não o instinto. Uma guerra leva o ser humano a viver dominado pelos seus instintos, orientando-os para o que tem de pior: a morte. Com a guerra ninguém ganha, todos perdem, sobretudo perdem em “humanidade”.
Refletindo o trecho do Evangelho da liturgia de hoje, quando escrevo este artigo, São Lucas, relata a expulsão de um demônio, operada por Jesus, era um “espírito mudo” que atormentava uma pessoa, impedindo-a de falar (cf. Lc 11,14-23). Este espírito mudo, é a serpente que lá no Paraíso, tirou da boca do ser humano a palavra “Pai”, impedindo-o de relacionar-se com Deus como um Pai amoroso. Em consequência, dominado pelo egoísmo, o homem não reconhece no outro um irmão. Acaba-se assim o compromisso com a solidariedade e o amor fraterno, os quais são os únicos caminhos para se construir um mundo de justiça que é fonte da paz.
O ditado acima citado, o do Império romano, deve ser corrigido para: “se queres a paz, prepare a paz”, ou seja eduque para a paz e para a fraternidade, eduque para o cuidado e o cuidar uns dos outros. Nesta perspectiva a única maneira de se construir a paz é trilhar o caminho do diálogo, da persuasão. As controvérsias entre os povos devem ser dirimidas com negociação e não com armas. Diante do extremo perigo que representam as armas atômicas e outros sofisticados artefatos bélicos, frutos da alta tecnologia existente hoje, não é possível pensar que a guerra seja um meio apto para ressarcir os direitos violados.
Em sua encíclica Pacem in Terris, o papa João XXIII escreveu: “Infelizmente reina entre os povos a lei do temor, que os induz a despender em armamentos fabulosas somas de dinheiro, não com o intento de agredir, como dizem, mas para conjurar eventuais perigos de agressão”. É a persistência do ditado citado acima, que impõe garantir a paz preparando-se para a guerra, ao invés de garantir a paz educando para a paz, com princípios éticos que fundamentam a humanidade como tal.
Aos poucos vamos tomando consciência que a violência e a guerra estão presentes em nossa sociedade brasileira. O mito da pretensa “cordialidade” brasileira só servia para encobrir nossa sociedade violenta, com feminicídios em alta, corrupção galopante (que é uma forma de violar regras), abuso de poder, alto índice de assassinatos, roubos e mortes no trânsito, etc. Podemos dizer com tristeza que, por detrás dos brilhantes desfiles de carnaval e dos estádios de futebol repletos, vivemos na realidade uma “guerra civil” disfarçada. Uma violência estruturada. E o pior, muitos acham isto normal, dado à normose, perigosa doença que atinge a sociedade na qual o deus é o dinheiro.
Neste tempo de quaresma é preciso ouvir a voz de Deus e da consciência que chama à conversão: se queres a paz, eduque para a paz, cultivando-a em seus relacionamentos. O Deus verdadeiro é Deus de paz e não de guerras, Ele vai acabar com elas e com os que as promovem, se não se converterem.
