Os secretários-gerais das Conferências Episcopais da América Latina e Caribe se reuniram dias 12 e 13 de março, em Bogotá (Colombia). A reunião foi convocada pelo do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho, o Celam.
À luz da conversa no espírito, os prelados discerniram “os sinais dos tempos” marcados, hoje, por violência, tráfico de drogas, extrativismo, crime organizado e migração forçada. Eles também viram com preocupação a situação geopolítica da região, influenciada pelo que descreveram como uma crise democrática, o surgimento do populismo e a influência de potências estrangeiras.
Observações que surgiram das análises dos secretári0s-gerais:
Corrupção e desigualdade
A região da América Central e México enfrenta uma grave crise de segurança marcada por violência estrutural e o crime organizado. Nesse sentido, o México ultrapassa 30.000 homicídios por ano e registra mais de 110.000 desaparecimentos.
Enquanto estava em El Salvador, a Igreja questionou o estado de emergência devido as detenções arbitrárias. A Guatemala denuncia a desnutrição infantil crônica e a discriminação indígena. O Panamá apresenta desigualdade extrema: 76% de pobreza nas regiões indígenas comparado a 4,8% nas áreas urbanas.
Quanto à crise política, eles identificaram que predomina uma profunda desconfiança institucional ligada à corrupção. No Panamá, por exemplo, a corrupção é o principal problema nacional (37%).
O México está enfrentando tensões devido ao enfraquecimento do equilíbrio de poderes e a uma reforma judicial por voto popular. Na Guatemala, o conflito entre redes corruptas e aqueles que buscam restaurar o Estado de Direito continua.
Os secretários apontaram que o crescimento econômico não se traduz em bem-estar à população devido à alta informalidade laboral. As remessas representam a principal renda no México (60 bilhões de dólares), superando até o investimento privado, e em Honduras sustentam a economia familiar.
As medidas restritivas dos Estados Unidos reduziram o fluxo migratório no Darien em 97%, gerando migração reversa para a América do Sul.
Em meio a todas essas vicissitudes, a Igreja mantém credibilidade, mas enfrenta desafios. Em Honduras, apenas 39% se declaram católicos. A jornada sinodal avança por meio da “conversa no espírito”.
Quanto à cultura de cuidado, o México possui um escritório nacional e 90% das dioceses com protocolos estabelecidos, enquanto o restante da região fortalece comissões após o III Congresso Latino-Americano no Panamá.
Diferente, mas igual
A região do Caribe, composta pela República Dominicana, Porto Rico, Haiti, Cuba e Pequenas Antilhas, é marcada pela resiliência cultural dos territórios insulares, diferentes uns dos outros, mas com problemas muito comuns.
Primeiro, o Caribe é altamente vulnerável às mudanças climáticas, com furacões mais intensos e erosão costeira. O alto custo de vida e a dívida pública predominam.
Na República Dominicana, o crescimento do turismo não alcança de forma equitativa os mais pobres. Os impactos da mineração e a crise dos serviços básicos em Cuba e Porto Rico são denunciados.
Em Cuba, há uma crise sistêmica com escassez de alimentos, remédios e apagões prolongados, enquanto Porto Rico enfrenta uma população envelhecida e uma queda histórica na taxa de natalidade. Nas Antilhas, o aumento dos homicídios é preocupante, enquanto a República Dominicana mantém relativa estabilidade social.
A Conferência Episcopal das Antilhas reiterou sua preocupação com a crescente presença militar dos Estados Unidos e seus efeitos na soberania regional. Em Porto Rico, a instabilidade política e a subordinação financeira ao Conselho de Supervisão Fiscal persistem.
Cuba mantém controle político e restrições à dissidência, enquanto a República Dominicana demonstra progresso institucional contra a corrupção.
Presença da Igreja
Em meio a essas agitações, a Igreja se caracteriza por sua proximidade com o povo. Em Cuba, ela se descreve como “pobre, pequena e frágil”, mas com fé viva na Virgem da Caridade.
As Antilhas enfrentam uma diminuição no número de fiéis e vocações; cada vez mais dependentes do clero estrangeiro. A jornada sinodal está avançando com equipes regionais e planos de formação (2025–2027).
A República Dominicana se destaca por seu Plano Pastoral Nacional e por uma forte rede de mídia católica. A cultura de cuidado possui comissões e protocolos em toda a região.
Polarização crescente
Na região dos países andinos: Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia, o contexto social é influenciado pela desigualdade estrutural e por várias formas de violência. Sem dúvida, essa área sofre de fragilidade democrática e forte polarização.
A Bolívia inicia um novo ciclo político após duas décadas de hegemonia do MAS (Movimento Rumo ao Socialismo). Na Venezuela, a crise institucional derivada da extração de Nicolás Maduro mantém a cidade em estado de emergência, com mais incertezas do que certezas. A corrupção aparece transversalmente como um “pecado social”.
Nesse sentido, os bispos apontaram que predominam a desigualdade estrutural e várias formas de violência. A Venezuela está enfrentando uma crise profunda, com 86% de pobreza e colapso dos serviços básicos.
No Equador, o crime organizado deteriorou a segurança. Peru e Colômbia compartilham desconfiança institucional e exclusão rural. Os 7,7 milhões de migrantes venezuelanos e o deslocamento forçado na Colômbia devido ao aumento do conflito armado se destacam.
Eles alertaram que as economias dependem da exportação de matérias-primas. Na Colômbia e no Peru, economias ilícitas e alta informalidade laboral são uma preocupação. A Venezuela enfrenta uma inflação projetada de 682% e um salário mínimo erodido pela “economia de títulos”, que se baseia em subsídios e não em soluções reais.
Na região andina, prevalece a defesa da Casa Comum. O ecocídio no Arco de Mineração da Venezuela e a contaminação por mercúrio em territórios indígenas são denunciados. Bolívia e Peru sofrem com o recuo das geleiras e a mineração ilegal. A Igreja promove iniciativas como a Cúpula da Água da Amazônia e a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM).
Em meio a essas sombras sociais, a Igreja mantém credibilidade social como mediadora e “hospital de campanha”. O caminho sinodal avança com concílios paroquiais e diocesanos, embora persista resistência clerical.
Quanto à cultura de cuidado, a Colômbia lidera os processos de treinamento, enquanto Bolívia e Peru fortalecem as comissões de escuta e transparência.
Crise demográfica e realidade social
Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Chile compõem o Cone Sul. Os bispos desta região observam uma polarização crescente. O Uruguai mantém a estabilidade institucional apesar da fragmentação parlamentar. Na Argentina, mudanças estruturais são promovidas com pouco diálogo político.
Por sua vez, o Chile mostra estabilidade eleitoral, mas descontentamento com os partidos. O Brasil está enfrentando tensões entre as potências e o uso político da religião. O Paraguai enfrenta desconfiança devido à corrupção estrutural.
O Cone Sul enfrenta desafios em termos de realidade social e crise demográfica, todos enfrentando o envelhecimento populacional e a queda nas taxas de natalidade. O Chile tem a menor taxa de fertilidade das Américas (1,06).
O Uruguai combina a infantilização da pobreza com a maior taxa de encarceramento regional. O Brasil sofre com uma crise habitacional e um aumento de feminicídios. O Paraguai enfrenta desigualdade em saúde e fragmentação familiar. A Argentina alerta sobre o aumento do consumo problemático e do jogo online.
Os bispos alertaram que a diferença entre indicadores macroeconômicos e economia familiar está crescendo. O modelo extrativista gera conflitos socioambientais. O Chile sofre com secas prolongadas e incêndios. Brasil e Paraguai denunciam agrotóxicos e desmatamento. Na Argentina, mudanças produtivas levaram ao fechamento de indústrias e ao desemprego que é difícil de converter.
Em meio a essas dores, a Igreja vive entre a diminuição estatística e a renovação sinodal. O Brasil enfrenta o desafio de integrar inúmeras comunidades leigas.
Na Argentina, a morte do Papa Francisco marcou profundamente, embora o processo sinodal continue. A conversa no espírito é consolidada como um método pastoral. A cultura de cuidado é uma prioridade regional, com protocolos ativos na maioria das jurisdições.
Com informações: adn.celam.org
