A tentação do dinheiro 

Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO) 

 

Na literatura universal, sobretudo no capítulo “O Grande Inquisidor” de Os Irmãos Karamázov, Dostoiévski nos apresenta uma questão que ultrapassa o limite moral, para se tornar problema espiritual e antropológico, isto é: que o ser humano é tentado, universalmente, a trocar a liberdade pela segurança, a verdade pela sedução e Deus pela promessa de poder. 

Ele relê as tentações de Cristo no deserto, com as quais iniciamos esta Quaresma, como se nelas estivessem contidas toda a história do pecado: o pão, o milagre a autoridade (Mt 4,1-11). O inquisidor acusa Cristo de ter recusado justamente aquilo que, segundo ele, a maioria da humanidade mais deseja. Para o Inquisidor, a humanidade não preza a liberdade. 

Pão, milagre e poder são, em Dostoiévski, os três grandes fascínios universais do coração ferido. O ser humano caído quer satisfação, evidência e ausência de consequências. Quer ser poupado da fome, da dúvida e da responsabilidade. 

Cristo, ao contrário, recusa as três tentações. Ele leva a criatura humana a uma altura dolorosa, mas verdadeira, à altura da liberdade. Já o Inquisidor, embora pareça compassivo, oferece uma misericórdia envenenada. Alivia a humanidade à custa de diminuí-la. 

É aqui que o dinheiro aparece como o mais sedutor de todos os ídolos. O dinheiro, na era moderna, concentra em si as três tentações. Ele é pão, porque compra conforto. Ele é milagre, porque abre portas, encurta caminhos, produz a ilusão de onipotência. E é autoridade, porque confere influência, organiza dependências e fabrica reverência. O dinheiro é a forma atual da antiga tentação. 

Com ele, imagina-se poder resolver a precariedade da vida, abolir a espera e mandar no mundo.  

Escândalos financeiros de grande repercussão, invariavelmente entre os que já possuem muito dinheiro, como o recente caso envolvendo o chamado Banco Master, revelam algo mais do que falta de caráter ou falhas de governança. Eles expõem uma dinâmica espiritual e cultural que atinge instituições e consciências. 

O dinheiro, quando assume essa centralidade, deixa de ser instrumento de mediação econômica para se tornar ídolo de poder, promessa de solução e critério de endeusamento. 

Quando uma crise financeira consegue envolver simultaneamente todos os poderes da República, ambientes religiosos e famílias, não se trata mais de coincidência ou fragilidade institucional. Trata-se da força sedutora de um sistema simbólico que eleva certos indivíduos acima do bem e do mal. 

O dinheiro torna essa amoralidade eficaz. Aos agentes públicos, é instrumento de viabilidade política. Às igrejas, é possibilidade de sustentar domínio e ampliar influência terrena. Às famílias, apresenta-se como chance de ascensão e poder sem mérito. Assim, o mesmo fluxo que circula nos mercados passa a circular também nas expectativas imorais. 

Entre os males trazidos por essa idolatria, destaca-se a erosão do senso social e o enfraquecimento da responsabilidade compartilhada. A solidariedade, que deveria ser fundamento de uma nação, desaparece. Cresce a sensação de que o sucesso individual pode justificar quase tudo. 

Outra perda significativa é a lealdade institucional e social. Sem lealdade as alianças são redefinidas por conveniência, projetos cedem lugar a estratégias de pessoas e famílias e a confiança, que é o tecido invisível de uma sociedade, rompe-se. E, sem confiança, não se constrói nação; constrói-se, quando muito, um conjunto de interesses coexistindo em tensão permanente. 

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