Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor

Dom Antonio Carlos Rossi Keller

Bispo de Frederico Westphalen (RS)

DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR Ciclo A  

“O Rei que serve: da aclamação à Cruz” 

Hoje, a liturgia nos coloca diante de um paradoxo fascinante e desconcertante: aclamamos um Rei montado num jumentinho. Gritamos “Hosana!” e, poucos dias depois, gritaremos “Crucifica-o!”. Agitamos ramos festivos e, em seguida, mergulhamos no silêncio sombrio do Calvário. 

O Domingo de Ramos não é apenas a abertura da Semana Santa — é o espelho da nossa própria alma. Revela a fragilidade das nossas aclamações, a instabilidade da nossa fé, mas, sobretudo, a fidelidade absoluta de Jesus. Ele sabia para onde ia. Entrou em Jerusalém não como um conquistador que foge da dor, mas como o Servo obediente que abraça o amor até o fim. 

A mensagem central deste domingo pode ser resumida em uma frase do Apóstolo Paulo: “Humilhou-se a Si próprio, obedecendo até à morte, e morte de cruz” (Fl 2,8). O caminho de Deus é o caminho da entrega. E é esse caminho que somos convidados a percorrer — não como espectadores, mas como discípulos. 

Evangelho da Procissão — Mateus 21, 1-11 

“Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!” 

A procissão com ramos inaugura este domingo com uma cena de alegria e esperança. Jesus entra em Jerusalém cumprindo a profecia de Zacarias: “Eis que o teu Rei vem, humilde, montado num jumentinho” (Zc 9,9). Mateus insiste nesse detalhe: Jesus é Rei, mas não ao estilo dos reis do mundo. Enquanto os imperadores chegavam em cavalos de guerra, Jesus chega num jumentinho — símbolo de paz, simplicidade e serviço. 

A multidão o aclama com palmas e mantos estendidos no chão — gestos reservados aos grandes heróis. E pergunta: “Quem é Ele?”. É a pergunta que atravessa todo o Evangelho de Mateus e que continua ressoando hoje: quem é Jesus para mim? Ao entrarmos na Semana Santa com esse ramo na mão, somos chamados a responder com honestidade. 

Primeira Leitura — Isaías 50, 4-7: “Não desviei o meu rosto dos que Me ultrajavam, sei que não ficarei desiludido” 

O Profeta Isaías, séculos antes de Cristo, nos apresenta um personagem misterioso: o Servo de Javé. Este servo tem uma língua de discípulo — fala para consolar os abatidos. Tem ouvidos abertos — escuta a Deus todas as manhãs. E tem um rosto de pedra — não recua diante das humilhações, das costas fustigadas, das barbas arrancadas, dos rostos que cospem. 

A tradição cristã sempre reconheceu nesse “Servo Sofredor” o retrato profético de Jesus. Mas há uma lição que ultrapassa a profecia: o Servo não sofre por fatalidade, mas por fidelidade. Não é vítima passiva — é testemunha ativa do amor de Deus. Sua força vem da oração, do escutar diário, da confiança inabalável: “O Senhor Deus veio em meu auxílio”. Essa é a espiritualidade que Jesus viveu e que nos propõe. 

Salmo Responsorial — Sl 21 (22): “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” 

Este salmo é o grito mais nu e mais humano de toda a Bíblia. É o clamor de alguém que se sente completamente só, cercado de inimigos, escarnecido, com as mãos e os pés trespassados. E, ao mesmo tempo, é um salmo de fé inabalável: “Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim”. 

É significativo que Jesus, na cruz, recite o início deste salmo (Mt 27,46). Ele não finge que não dói. Ele não esconde o abandono, a solidão, a agonia. Mas mesmo no abismo mais fundo, a fé não se apaga — transforma-se em entrega. O salmo termina em louvor: aquele que foi humilhado será glorificado, e toda a humanidade se curvará diante de Deus. O sofrimento não tem a última palavra. 

Segunda Leitura — Filipenses 2, 6-11: “Esvaziou-se a Si próprio… Por isso Deus O exaltou” 

Paulo nos oferece aqui uma das mais belas e profundas páginas do Novo Testamento: o Hino da Kênosis — palavra grega que significa “esvaziamento”. Cristo, que era de condição divina, não se agarrou à sua igualdade com Deus como um troféu a exibir. Ao contrário: esvaziou-se, assumiu a condição de servo, tornou-se homem, humilhou-se até a morte de cruz. 

O contraste com Adão é inevitável: Adão quis “ser como Deus” por soberba e desobedeceu; Cristo era Deus e escolheu a obediência e o serviço. Adão perdeu tudo por orgulho; Jesus ganhou tudo pela humildade. E o desfecho do hino é glorioso: exatamente porque desceu ao mais fundo, Jesus foi exaltado ao mais alto. Todo joelho se dobra, toda língua proclama: “Jesus Cristo é o Senhor!”. 

Este hino não é apenas teologia para contemplar — é modelo de vida para imitar. Paulo o cita exatamente para isso: “Tende em vós os mesmos sentimentos que estavam em Cristo Jesus” (Fl 2,5). 

Evangelho da Missa — Mateus 26,14 – 27,66 

A longa narrativa da Paixão segundo Mateus é a peça central deste domingo. Mateus é o evangelista do cumprimento das Escrituras — a cada momento dramático, sublinha que tudo acontece como estava previsto, que o sofrimento de Jesus não é um acidente histórico, mas o coração do plano de salvação de Deus. 

Alguns momentos merecem destaque especial: 

Judas — a traição nasce dentro do círculo íntimo, por trinta moedas de prata. Mas Mateus é o único a narrar seu arrependimento e desespero (Mt 27,3-5): um convite a olhar para os nossos próprios momentos de traição com honestidade. 

Pedro — a negação três vezes repetida, e o choro amargo que se segue. Pedro não é melhor do que nós. Mas seu choro é o início da conversão. Chorar as próprias negações é o primeiro passo de volta a Jesus. 

Pilatos — lava as mãos, tenta escapar da responsabilidade. Mas não existe neutralidade diante de Cristo. A omissão também condena. 

A morte na cruz — no momento em que Jesus expira, o véu do Templo se rasga, a terra treme, os mortos ressuscitam. São os sinais apocalípticos de Mateus: a morte de Jesus não é uma derrota, é uma virada cósmica. O mundo nunca mais será o mesmo. O centurião romano, pagão, paga a confissão mais bela de todo o Evangelho: “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus!”(Mt 27,54). 

COMO VIVER BEM A SEMANA SANTA 

Queridos irmãos e irmãs, 

A Semana Santa que se abre diante de nós não é um conjunto de rituais a cumprir, nem um “feriado religioso” para passar. É um tempo de graça único, oferecido pela Igreja como oportunidade de transformação interior. Mas só nos transforma se nos dispormos a vivê-la com presença, com coração aberto. 

Eis algumas atitudes concretas para que esta semana seja realmente santa: 

Participar das celebrações com presença plena 

A Quarta-feira Santa (Missa Crismal) Quinta-feira Santa (Missa do Lava-pés), a Sexta-feira Santa (Celebração da Paixão e Via-sacra) e a Vigília Pascal do Sábado Santo são o coração litúrgico do ano cristão. Não são apenas “missas especiais” — são os três grandes pilares do Mistério Pascal. Participar delas com atenção e oração é já uma forma poderosa de viver a semana. 

Celebrar o sacramento da Reconciliação 

Não somente para “cumprir a Páscoa”, mas como um verdadeiro encontro com o amor e a misericórdia de Deus. 

Ler e meditar a Paixão em casa 

Reserve um momento tranquilo para ler Mateus 26 e 27 com calma, como se fosse a primeira vez. Deixe que os personagens falem: quem sou eu nesta história? Pedro? Judas? A Madalena? O centurião? A resposta pode surpreender — e transformar. 

Fazer a Via-sacra 

Esta oração milenar convida a percorrer com Jesus o caminho da Cruz. Pode ser feita na Igreja, em grupo, ou em silêncio pessoal. Cada estação é um espelho: o abandono, a queda, o encontro com os que sofrem, o perdão aos inimigos. A Via-sacra é uma escola de humanidade. 

Cultivar o silêncio 

A Semana Santa pede silêncio. Não o silêncio vazio, mas o silêncio habitado por Deus. Reduza o ruído digital. Afaste-se das distrações. Deixe que o silêncio do Sábado Santo — o dia em que o túmulo está fechado — ensine algo sobre a espera, sobre a confiança quando não vemos saída. 

Praticar um gesto concreto de amor 

Jesus não pediu que assistíssemos à sua Paixão — pediu que a continuássemos. “O que fizestes ao menor dos meus irmãos, a Mim o fizestes” (Mt 25,40). Que tal, nesta semana, praticar um gesto concreto de misericórdia: visitar alguém só, perdoar uma mágoa antiga, ajudar quem passa necessidade? A Semana Santa vivida só na Igreja, sem se refletir na vida, não chega ao coração de Deus. 

Guardar a esperança da Páscoa 

Por fim — e isso é fundamental — a Semana Santa não termina no Calvário. O sepulcro está vazio. A cruz não é o ponto final: é o ponto de partida para a Ressurreição. Percorramos o sofrimento desta semana com os olhos voltados para o domingo da Páscoa, como quem atravessa a noite sabendo que o amanhecer virá. 

CONCLUSÃO 

“Foi o amor, não os pregos, que manteve Jesus na cruz.” 

Irmãos e irmãs, entremos nesta Semana Santa como entramos numa terra santa: descalços por dentro, de coração aberto, prontos para nos deixar encontrar por Aquele que desceu ao mais fundo do humano para nos erguer ao mais alto do divino. Que os ramos de hoje não sejam apenas gestos festivos — que sejam a expressão de uma adesão real ao Senhor que vem, que serve, que morre e que ressuscita por amor a cada um de nós. 

Hosana ao Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor! 

 

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