Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Onde encontramos a força para viver? Em diversas situações, o clamor humano se traduz em uma petição por auxílio divino. Nessa súplica constante, revela-se uma verdade fundamental sobre a existência: somos seres marcados pela transitoriedade e pela finitude. O reconhecimento da própria fraqueza, contudo, não deve ser interpretado como um ato de derrota, mas como o primeiro passo para a abertura ao transcendente. Como ensina o Apóstolo Paulo, a lógica divina subverte as expectativas humanas: “a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1,25). Só se pede aquilo que não se possui; portanto, é na consciência da pobreza espiritual que a força redentora encontra espaço para atuar. Deus se comunica plenamente àqueles que se fazem pequenos, pois a graça pressupõe o esvaziamento do orgulho para preencher o coração.
Essa abertura do coração humano encontra sua resposta perfeita no esvaziamento total de Cristo, a kenosis. No patíbulo da cruz, onde o pecado se manifesta em sua forma mais cruel, ocorre o maior paradoxo da história: o Deus que é a própria Vida e força submete-se à morte, na fraqueza, para destruí-la. São Paulo descreve esse movimento de descida em sua Carta aos Filipenses, afirmando que Cristo “esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo […] humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,7-8). Nesse ato de solidariedade extrema, Ele assume nossas dores e transfigura o sofrimento em caminho de salvação. Aqui, a força não é um exercício de poder dominador, mas de entrega sacrificial que gera vida nova.
Santa Edith Stein, ao contemplar esse mistério em sua obra A Ciência da Cruz, ressalta que essa força redentora não depende de validações externas nem de uma lógica puramente racional: “A força redentora foi conferida ao Verbo, na cruz, e estende-se a todos os que acolhem o Verbo de coração aberto, sem exigir milagres ou argumentos intelectuais de sabedoria humana” (STEIN, 2014, p. 23). É disso que se trata a lógica do amor de Deus: um esvaziamento de si mesmo para lançar-se, filialmente, nos braços do Pai. Essa lógica manifesta-se de modo singular no Getsêmani, onde Cristo vivencia a angústia diante do sofrimento iminente. Sua oração torna-se modelo para todo cristão: a limitação da criatura não é impedimento, mas lugar de entrega confiante à vontade divina. A incompreensão do sofrimento não significa abandono, mas convite a participar de uma sabedoria que ultrapassa a lógica humana.
A força que emana dessa entrega é o fundamento ontológico de toda a realidade. É o Logos que sustenta o cosmos e mantém cada criatura na existência. Se Deus sustenta a criação por um ato de amor, na Redenção Ele sustenta a humanidade caída por um ato de sacrifício. Essa visão contrasta com a tendência contemporânea de supervalorizar a autonomia humana. Vivemos sob um discurso de supremacia e “empoderamento pessoal” que produz a ilusão de autossuficiência. Nessa lógica meritocrática, o sofrimento é visto como fracasso e a fraqueza como incapacidade. Tal mentalidade é incompatível com a mensagem cristã. Enquanto o mundo exalta a autossuficiência, a cruz proclama a dependência amorosa de Deus. Nas derrotas da vida, encontramos sentido não porque vencemos por nós mesmos, mas porque permitimos que Deus seja a nossa força.
A força para seguir em frente, tão buscada nas angústias cotidianas, não provém de um estoicismo humano, mas da participação na vida de Cristo Crucificado. A força redentora da cruz é a única capaz de transformar o “pior do homem” no “melhor de Deus”. Ao aceitar o convite de carregar a própria cruz, o cristão não abraça o sofrimento por si mesmo, mas a certeza de que o poder divino se manifesta naquilo que o mundo rejeita. Como afirma o Apóstolo: “quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). É na união com o Verbo aniquilado que a alma encontra a força necessária para atravessar as trevas e alcançar a luz da Ressurreição.
A força da cruz não é mérito, mas gratuidade. Deus escolhe os frágeis para manifestar sua potência transformadora. Como proclama a liturgia: “Ó feliz culpa, que nos mereceu tão grande Redentor!”. Não há motivo para o desespero diante da miséria humana; ao contrário, reconhecê-la é abrir espaço para que a graça superabunde onde o pecado abundou. Como recordava São Francisco de Sales, “não são mais santos os que cometem menos faltas, mas os que têm mais coragem, mais generosidade e mais amor”. Que, em nossas fraquezas, permitamos que a força redentora da cruz habite em nosso íntimo, elevando-nos à dignidade de filhos de Deus.
À luz de tudo o que é vivido na Semana Santa, essa verdade torna-se ainda mais concreta e exigente. Do silêncio orante do Getsêmani à entrega total na cruz, passando pela dor, pela aparente derrota e pela esperança silenciosa do Sábado Santo, aprendemos que a verdadeira força nasce da confiança radical em Deus. O que celebramos nesses dias não pode permanecer apenas na memória, mas deve transformar a vida: reconhecer a própria fraqueza, abandonar-se à vontade do Pai e viver, no cotidiano, a lógica do amor que se doa. Assim, a cruz deixa de ser apenas um símbolo e torna-se caminho concreto, onde cada dificuldade, unida a Cristo, se converte em lugar de graça e preparação para a vida nova da Ressurreição.
