Dom Itacir Brassiani, MSF
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)
Esta afirmação faz parte de uma música escrita por Belchior em 1976, imortalizada na voz de Ellis Regina. Mais que uma crítica à supostas ilusões dos sonhos, Belchior faz um chamamento à necessidade de traduzir o sonho em atitudes concretas e cotidianas. “O amor é uma coisa boa, mas qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”.
Uma pessoa envelhece e perde a vitalidade quando deixa de sonhar, quando os sonhos dão lugar às lamentações. Uma pessoa sem utopias é como um pássaro sem asas: acaba rastejando e sendo vítima dos predadores de plantão. Vive jovialmente quem vê chegando no vento o “cheiro de nova estação” e “sabe de tudo na ferida viva do coração”.
Os cristãos não vivem apenas da memória de grandes acontecimentos do passado, mas principalmente de utopias que os movem para o futuro. “Vejam! Eu vou criar um novo céu e uma nova terra. As coisas antigas nunca mais serão lembradas. Por isso fiquem para sempre alegres e contentes, por causa do que vou criar” (Isaías 65,17-18).
O que mobilizou as tribos que deram origem do povo de Israel não foram mandamentos e proibições, mas sonhos utópicos como esse descrito pelo profeta. As leis tinham seu lugar apenas como disciplina para colaborar na realização do sonho. Por isso, Jesus não iniciou sua missão propondo um conjunto de leis, mas resgatando um sonho.
“Depois que João Batista foi preso, Jesus voltou para a Galileia, pregando a Boa Notícia de Deus: “O tempo já se cumpriu e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Marcos 1,14-15). A força dessa metáfora, já descrita pelos profetas, ressoou com força nos ouvintes de Jesus, de tal forma que deixaram tudo para segui-lo.
Quase vinte séculos mais tarde, um discípulo de Jesus apresentou este sonho com outras palavras: “Apesar das dificuldades e frustrações do momento, eu ainda tenho um sonho. Eu tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu caráter…” Este sonho compartilhado foi o segredo da perseverança dos negros na luta pela igualdade.
Acompanhando Jesus de Nazaré em sua chegada à capital do seu país, reafirmamos nosso sonho de um mundo onde haja lugar e vida plena para todos, que não criminalize os profetas e os sonhadores, que dê primazia aos mais vulneráveis. Em Jesus, o sonho é vivido e testemunhado no dom de si mesmo, sem reservas. Por isso, vive e é imortal.
