Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Na manhã luminosa da Quinta-feira Santa, a nossa Igreja particular reúne-se ao redor do altar de sua Catedral em uma das mais belas e densas liturgias de todo o Ano Litúrgico: a “Missa do Crisma”, também chamada de Missa da Unidade. Hoje, o presbitério diocesano circunda o seu bispo para concelebrar a Eucaristia, manifestando a comunhão íntima e sacramental que nos une no único sacerdócio de Cristo. Nesta celebração, consagramos o Santo Crisma e abençoamos os óleos dos Enfermos e dos Catecúmenos, matéria sacramental que fluirá como rio de graça por todas as nossas paróquias ao longo do ano. E, de modo muito particular, hoje é o dia em que os sacerdotes, renovam publicamente as promessas que fizeram no dia inesquecível da ordenação presbiteral.
A Palavra de Deus que acabamos de acolher revela-nos a essência e a finalidade da nossa unção. Na primeira leitura – Is 61,1-3a.6a.8b-9 –, o profeta Isaías vislumbra a figura do Ungido de Deus, proclamando com vigor: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para dar a boa-nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade para os que estão presos; para promulgar o ano da graça do Senhor” (Is 61,1-2). Esta profecia extraordinária encontra o seu cumprimento perfeito e definitivo na pessoa de Jesus Cristo.
A Segunda Leitura – Ap 1,5-8 – fala do sacerdócio: Fez de nós um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai. Na cruz, Jesus revela o verdadeiro sentido de sua realeza. Ele não desce dela para demonstrar poder, mas permanece, efetivando a salvação da humanidade. Sua majestade está oculta, mas seu reinado manifesta-se pelo perdão aos que o insultam, pela promessa do paraíso ao ladrão arrependido e pela reconciliação entre Deus e a humanidade. Como diz o Apocalipse (1,5-8), Ele “nos libertou dos nossos pecados pelo seu sangue”, inaugurando um reino fundamentado na verdade, na vida, na justiça, no amor e na paz.
O Evangelho de São Lucas – Lc 4,16-21 – nos transporta para a sinagoga de Nazaré. Jesus, no início de seu ministério público, desenrola o livro do profeta Isaías, lê precisamente esta passagem e, devolvendo o livro ao assistente, declara perante os olhares fixos de todos: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,21). Jesus é o Cristo, o Ungido pelo Espírito Santo. E, por pura misericórdia e eleição divina, nós, sacerdotes, fomos inseridos nessa mesma unção. Não por nossos méritos, não por nossas qualidades humanas, mas pela gratuidade insondável do amor de Deus, que, como nos recorda a segunda leitura do Livro do Apocalipse, “nos ama, nos libertou dos nossos pecados por meio do seu sangue e fez de nós um reino de sacerdotes para seu Deus e Pai” (Ap 1,5-6).
Quando o bispo impôs as mãos sobre as cabeças dos ordinandos e ungiu as mãos com o Santo Crisma, não se recebeu um privilégio, um título de nobreza ou uma posição de poder para ser servido. Recebemos uma missão que exige o esvaziamento total, a kenosis. Fomos ungidos para perfumar o mundo com o bom odor de Cristo. E para onde o Espírito do Senhor nos envia? A resposta de Isaías e de Jesus é claríssima: aos humildes, aos de coração ferido, aos cativos e aos prisioneiros. A unção sacerdotal não nos foi dada para perfumar as sacristias, mas para descer, como o óleo precioso sobre a barba de Aarão, até as franjas da nossa sociedade, até as periferias geográficas e existenciais onde o povo de Deus chora e sofre.
Hoje, abençoamos os Santos Óleos. O Óleo dos Enfermos, com o qual ungiremos os corpos alquebrados pela doença e pela velhice, será consolo de Cristo para muitos que sofrem em hospitais ou em leitos improvisados em casas humildes. O Óleo dos Catecúmenos fortalecerá aqueles que se preparam para o Batismo, dando-lhes a força de Cristo para renunciarem ao mal, ao egoísmo e à indiferença que geram a miséria e a desigualdade habitacional no mundo. E, por fim, consagraremos o Santo Crisma, óleo perfumado que nos recorda que somos um povo sacerdotal, profético e régio, chamado a exalar a santidade em todos os ambientes da sociedade.
Ao renovarmos hoje as promessas sacerdotais, somos convidados a voltar o coração àquele primeiro amor que vos fez deixar tudo para seguir o Mestre. A Igreja precisa de nós. O povo de Deus precisa dos sacerdotes. Precisamos de presbíteros santos, alegres, desgastados pelo serviço do Evangelho, homens de profunda oração e de incansável caridade pastoral. A renovação que fazemos não é a repetição mecânica de uma fórmula, mas o reavivar do dom de Deus que está em vós. É dizer novamente: “Eis-me aqui, Senhor. Sou barro frágil, mas confio na tua graça”.
Meu pensamento se volta também para os presbíteros privados de seu ministério. Sintam minha proximidade espiritual e que a graça de Deus os conforte nos momentos de provação. A Igreja nunca os abandonou!
Recordo – com saudade – de todos os presbíteros falecidos desde a última Semana Santa. O seu vivo testemunho rega a nossa OVS – Obra das Vocações Sacerdotais – de testemunhos eloquentes de dedicação na santificação do povo de Deus. Do céu intercedei por nossa Arquidiocese e pelo nosso Seminário Arquidiocesano São José.
O Papa Leão XIV pediu neste mês que nós rezássemos pelos sacerdotes em crise: “Senhor Jesus, Bom Pastor e companheiro de caminhada, hoje colocamos nas tuas mãos todos os sacerdotes, especialmente os que atravessam momentos de crise, quando a solidão pesa, as dúvidas obscurecem o coração e o cansaço parece mais forte do que a esperança.”
E a vós, meus amados irmãos e irmãs leigos, peço com afeto de pastor: rezem pelos vossos padres! Sustentem os vossos sacerdotes com a vossa oração constante, com o vosso perdão para com as nossas fragilidades e com a vossa colaboração ativa na missão evangelizadora. O sacerdócio ministerial só tem sentido no serviço ao sacerdócio comum de todos os fiéis. Somos todos pedras vivas do edifício espiritual, cuja pedra angular é Cristo (cf. 1Pd 2,4-5).
Que a Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe do Sumo e Eterno Sacerdote e Mãe da Igreja, guarde os nossos presbíteros sob o seu manto sagrado. Que ela, que preparou a primeira morada terrena para o Verbo Encarnado no aconchego de seu seio puríssimo e de seu lar em Nazaré, interceda pela nossa Arquidiocese, para que sejamos sempre uma Igreja de portas abertas, solidária com os desabrigados e fiel à sua unção. Que o Senhor nos conceda um abençoado e santo Tríduo Pascal.
