Sexta-Feira Santa da Paixão do Senhor  

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

 

 Ação Litúrgica 

Ó Pai, em vossas mãos, eu entrego o meu espírito. (Sl 30,31) 

 

Celebramos nesta Sexta-Feira Santa o segundo dia do Tríduo Pascal, iniciado na Quinta-Feira à noite e que terá seu término no Sábado Santo. Na Sexta-Feira Santa não há celebração de Missa; é o único dia do ano em que a Igreja não celebra a Missa, mas a Ação Litúrgica da Paixão do Senhor e a adoração à Cruz. Em todas as igrejas do mundo inteiro acontece essa celebração por volta das 15h, horário em que Nosso Senhor Jesus Cristo entregou definitivamente o seu espírito ao Pai. 

Essa celebração é dividida em diversas partes e é cheia de significados. A celebração inicia-se com a Igreja envolta em um grande silêncio; não é um silêncio de luto, mas um silêncio orante. Em seguida, o sacerdote profere a oração inicial sem o convite “oremos”. Após a oração, vem a Liturgia da Palavra, com a leitura do livro do profeta Isaías (Is 52,13–53,12), trecho conhecido como o “Servo Sofredor” e comparado a Nosso Senhor Jesus, que sofre em silêncio em meio às dores e à condenação. O salmo responsorial é o 30(31), um salmo de entrega e confiança na vontade de Deus. Em seguida, a segunda leitura da Carta aos Hebreus (Hb 4,14-16; 5,7-9); o autor sagrado nos diz que temos um sumo e eterno sacerdote que intercede por nós junto a Deus, que é Jesus Cristo. Em seguida, vem a narrativa da Paixão segundo São João (Jo 18,1–19,42). 

Após a Liturgia da Palavra, acontece a Oração Universal, onde se reza por diversas intenções: pela Igreja, pelo Papa, por todos os membros da Igreja, pelos catecúmenos, pela unidade dos cristãos, pelos judeus, pelos que não creem em Cristo, pelos que não creem em Deus, pelos governantes e por aqueles que sofrem. Após a Oração Universal, acontece a adoração à Santa Cruz. Todos os fiéis são convidados a irem diante da Cruz de Nosso Senhor, a se curvarem diante do Senhor, beijarem Jesus crucificado e agradecerem por ter morrido na Cruz para nos salvar. Não adoramos um Deus derrotado nem a morte, mas temos a certeza de que Ele ressuscitou e venceu a morte. 

Durante a adoração à Santa Cruz, acontece a coleta para os Lugares Santos, à qual somos convidados a contribuir todas as Sextas-Feiras Santas. Em seguida, prepara-se o altar para a comunhão: reza-se o Pai-Nosso, e os fiéis comungam a hóstia que foi consagrada na Quinta-Feira Santa. Após a comunhão, a reserva eucarística é guardada no local em que estava para adoração dos fiéis, e o altar é desnudado. Após a comunhão, acontece a oração pós-comunhão e, em seguida, uma oração sobre o povo. Nessa celebração, não há bênção final. A bênção final só acontecerá no sábado da solene Vigília Pascal, fechando o Tríduo Pascal. 

Algumas paróquias, após a celebração, realizam a procissão com a imagem de Nosso Senhor morto e de Nossa Senhora das Dores. Todos os fiéis aguardam em oração ao lado de fora para esse momento. Antes da procissão, em alguns lugares, acontece o sermão do Descendimento da Cruz e, ao final da procissão, os fiéis podem venerar a imagem do Senhor morto e de Nossa Senhora das Dores. 

A Sexta-Feira Santa é um dia de jejum, abstinência, recolhimento e silêncio, refletindo a que aconteceu a Jesus. Na parte da manhã, os fiéis se reúnem para a vigília de oração e adoração ao Santíssimo até por volta das 14h00; em seguida, os fiéis se preparam para celebrar a Ação Litúrgica e adoração da Cruz. Após a ação litúrgica, acontece a procissão pelas ruas do bairro com a imagem do Senhor morto e de Nossa Senhora das Dores em seguida do sermão do Descendimento da Cruz. A Sexta-Feira Santa é um dia bem longo, com muitas atividades litúrgicas, em que recordamos a entrega total de Jesus por nós. A Sexta-Feira Santa também é dia de jejum e abstinência de carne como dissemos. 

Neste dia a Igreja vive um grande silêncio e recolhimento. No início da celebração da Paixão, não há procissão de entrada; a equipe de celebração entra pela lateral da igreja e não há cântico de entrada. O bispo, sacerdote ou diácono que preside a celebração se prostra no presbitério logo que entra, em sinal da entrega de Jesus por nós. Os demais servidores do altar e os fiéis apenas se ajoelham; esse momento pode durar alguns minutos. Ao levantar-se, aquele que preside profere a oração inicial sem falar o convite “oremos”. 

A primeira leitura dessa ação litúrgica é do livro do profeta Isaías (Is 52,13–53,12). Essa leitura é tirada da parte do livro do profeta conhecida como “Servo Sofredor”. Esse trecho do livro do profeta Isaías é lido sobretudo durante a Semana Santa: no Domingo de Ramos, na Segunda, Terça, Quarta e Sexta-Feira da Semana Santa. O Servo Sofredor se assemelha à figura de Jesus, pois é aquele que sofre em silêncio e acaba sendo condenado por praticar a justiça e anunciar o Reino de Deus. Esse que é condenado injustamente pelos homens será glorificado perante Deus. O Servo Sofredor é aquele que acaba morrendo para salvar os outros, como acontece com Jesus, que abraçou a morte na cruz a fim de salvar a humanidade inteira. O Servo Sofredor intercede em favor dos pecadores e resgata o pecado de todos. 

O profeta Isaías viveu há cerca de 400 anos a.C., e muitas das coisas que Isaías disse se cumprem na vida de Jesus. Isaías viveu no tempo em que o povo voltava do exílio da Babilônia e tinha a missão de dar um novo ânimo para esse povo. 

O Servo Sofredor se compara a um cordeiro que é levado ao matadouro e, para nós, Jesus é esse Cordeiro Pascal que tira o pecado do mundo. Ele tira o pecado do mundo para nos conceder a paz e a salvação. A partir da morte e posterior ressurreição de Jesus, não é mais necessário imolarmos o cordeiro “animal” para a Páscoa, como os judeus faziam; agora, para nós, o Cordeiro Pascal é Jesus. 

O salmo responsorial é o 30(31); esse é um salmo de entrega da vida nas mãos do Senhor. Devemos colocar toda a nossa esperança em Deus e confiar em sua misericórdia. O refrão do salmo diz: “Ó Pai, em vossas mãos eu entrego o meu espírito”. O próprio Jesus, no momento de sua entrega na cruz, profere o refrão desse salmo. Coloquemos a nossa esperança em Deus, pois, se os homens nos desprezam, Deus nos eleva. Jesus se confia à misericórdia do Senhor e nós, diante dos momentos de dificuldade da vida e, sobretudo, no leito de morte, devemos fazer o mesmo. 

A segunda leitura é da Carta aos Hebreus (Hb 4,14-16; 5,7-9). O autor sagrado diz que temos um sumo sacerdote eminente no céu, que intercede por cada um de nós. Ele foi provado em tudo como todos nós, exceto no pecado. Aproximemo-nos desse sumo sacerdote e peçamos o perdão de nossos pecados. Cristo, durante a sua vida terrestre, foi obediente a Deus em tudo, dirigiu preces e súplicas e foi atendido. Através de sua obediência, entregou-se na cruz para salvar a todos. Confiemos em Deus as nossas orações e seremos atendidos em nossas necessidades. 

O Evangelho é a narrativa da Paixão do Senhor segundo João (Jo 18,1–19,42). No domingo de Ramos ouvimos a narrativa  do evangelista deste ano, e, na Sexta-Feira da Paixão, é sempre proclamada a narrativa segundo São João. Essa narrativa da Paixão conta desde a agonia de Jesus no horto, a condenação e prisão de Jesus até a sua morte. 

Após ter lavado os pés dos discípulos e realizado a Última Ceia, Jesus sente uma grande angústia e vai rezar. Os discípulos o acompanham. Judas, o traidor, que havia saído da mesa na hora da Última Ceia, conhecia o lugar e vai até ali com um grupo de guardas e soldados. Para que soubessem quem era Jesus, combina de identificá-lo com um beijo, e o próprio Jesus lhe diz: “Com um beijo tu trais o Filho do Homem”. Jesus fica sozinho, pois o medo se apodera dos discípulos e eles fogem. 

A partir desse momento, Jesus é preso e passa a noite no palácio de Anás, que era sumo sacerdote na época e sogro de Caifás. Anás, após interrogar Jesus, o envia a Caifás, e depois Caifás o envia ao palácio do governador, pois somente o Império Romano poderia dar a condenação a Jesus. No outro dia pela manhã, Pilatos interroga Jesus e, não vendo nele nenhum crime que o levasse à morte, decide libertá-lo. Então, os sumos sacerdotes dizem a Pilatos que apresente Jesus ao povo, junto com Barrabás, para que o povo escolha quem deveria ser condenado. 

O povo escolhe soltar Barrabás, que era um bandido e havia cometido crimes, e, assim, Jesus é condenado à morte. O mesmo povo que havia aclamado Jesus ao entrar em Jerusalém no Domingo de Ramos. Então, Pilatos manda flagelar Jesus; os soldados tecem uma coroa de espinhos e colocam nele um manto vermelho. Dão a Jesus uma cruz para que ele a carregue até o Calvário. 

Ao carregar a cruz, Jesus assume as dores e os sofrimentos do mundo inteiro. Por meio de sua morte na cruz, Ele nos salva do pecado e nos dá a garantia da vida eterna. Entreguemos à cruz de Cristo as nossas dores e sofrimentos. Que tenhamos forças para carregar a nossa cruz do dia a dia e trilhemos o caminho da santidade. Peçamos a Jesus que, através de sua morte na cruz, cesse todo tipo de violência e guerra e que muitos inocentes não paguem pelos erros dos outros. 

Peçamos a Jesus, nesta celebração, que, do alto do madeiro da cruz, brote a paz para todos os povos. Que todos os chefes das nações, ao contemplarem o Crucificado, pensem quanta dor causam a tantas famílias através das guerras. 

A celebração de hoje termina sem a bênção final, pois a bênção só será dada ao final da Vigília Pascal, já que, desde a Quinta-Feira até o Sábado, vivemos uma única celebração: o Tríduo Pascal. Após a comunhão, aquele que preside profere uma oração sobre o povo, e todos saem em silêncio para a procissão ou para suas casas. 

O Tríduo Pascal, que teve início na Quinta-Feira Santa e termina no Sábado Santo, concentra todo o mistério da nossa fé: a Paixão, morte e ressurreição de Jesus. Participemos de todos os dias da Semana Santa, passando pelo Calvário até chegar à glória da ressurreição. Que, ao chegar a Páscoa, testemunhemos a ressurreição com Cristo para uma vida nova, cheios da graça de Deus.  

 

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