Dom Itacir Brassiani, MSF
Bispo de Sant Cruz do Sul (RS)
O Salmo 118 (117) é uma solene e festiva celebração de ação de graças que inclui até uma procissão ao templo para agradecer a Deus pela libertação dos inimigos e opressores. É nele que se encontra uma imagem que os cristãos usaram para interpretar a ressurreição de Jesus: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (v. 22-23).
Além desta metáfora da pedra rejeitada que se tornou essencial, os primeiros cristãos usaram várias outras imagens para falar da ressurreição de Jesus: exaltação daquele que foi humilhado (cf. At 2,32; 5,30; Fil 2,9); glorificação daquele que foi apagado (cf. Tm 3,16; Hb 1,3); subida ao céu de quem desceu aos infernos (cf. 1Pd 3,22); ser colocado à direita do Pai (1Pd 3,22; Hb 1,3); nomeação de juiz universal (cf. At 0,42).
Sem desprezar a infindável discussão sobre como foi de fato a ressurreição de Jesus, o mais importante é entender o que ela significa. Nesse aspecto, o primeiro significado é a reabilitação humana, social e religiosa daquele que fora descartado e rebaixado. A ressurreição coloca Jesus como o primeiro dos humanos e afirma a validade da sua causa.
Uma segunda perspectiva de sentido é aquela que considera quem detém o poder de assegurar a vida plena para todos. A ressurreição de Jesus é a proclamação de que o verdadeiro poder e a última palavra não estão com quem manda, proíbe, oprime, violenta e mata, mas com aqueles que a eles se opõem, dando a própria vida, se for preciso.
Outro significado da ressurreição de Jesus é o reconhecimento de que ele é o Filho de Deus que se fez carne e mergulhou na história humana. Não que a ressurreição seja uma espécie de prova da sua divindade. Mas, acolhendo sua compaixão e seu amor sem fronteiras, afirmamos que, embora ostente as feridas da cruz, ele é divino e continua vivo.
E, para aqueles que cremos em Jesus e por ele vivemos, a sua ressurreição é muitíssimo mais que a crença numa nossa ressurreição após a morte. Afirmando que Jesus ressuscitou, comprometemo-nos em prosseguir o sonho e a missão que deram sentido à sua vida. A fé na sua ressurreição nos constitui testemunhas vivas daquilo que ele fez.
Ao mesmo tempo, aprendemos com Jesus que passamos da morte para a vida porque amamos nossos irmãos e irmãs (cf. 1Jo 3,14). Na certeza de nossa vida está nas boas mãos de Deus Pai, não temos medo dos poderes que matam, e cremos na fraqueza e na morte dos poderes. Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, nos tornou livres para amar e servir.
