Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
“Dai Graças ao Senhor porque ele é bom, eterna é a sua misericórdia” (Sl 117,118)
Celebramos neste domingo o segundo do Tempo da Páscoa e encerramos, também neste dia, a Oitava da Páscoa. Foram oito dias, desde o domingo passado, em que vivemos cada dia como o próprio Domingo de Páscoa. A alegria pascal é tão grande que não pode ser celebrada em um único domingo. Em cada domingo celebramos a Páscoa semanal de Jesus e recordamos sua paixão, morte e ressurreição.
Ainda viveremos as alegrias da Páscoa por mais algumas semanas: serão sete ao todo, até chegarmos à Solenidade de Pentecostes. O Círio Pascal permanecerá aceso durante as celebrações, recordando a luz de Cristo no meio de nós. Após a solenidade de Pentecostes, o Círio Pascal será aceso somente nas celebrações de batismo, Primeira Eucaristia e Crisma. Nos funerais, lembrando a Ressurreição de Cristo, acende-se também o Círio Pascal.
Neste domingo, que é o segundo do Tempo Pascal, celebramos o Domingo da Divina Misericórdia. Pudemos experimentar a misericórdia do Senhor ao longo da Quaresma e continuamos a experimentá-la durante este Tempo Pascal. Jesus sopra o Espírito Santo sobre os discípulos e os envia em missão, para que anunciem a Palavra do Senhor e perdoem os pecados daqueles que se aproximarem para a confissão. Nos dias de hoje, os sacerdotes representam os discípulos e escutam as confissões do povo.
Portanto, se ainda não nos confessamos na Quaresma, aproximemo-nos da misericórdia do Senhor neste segundo domingo da Páscoa. Jesus também nos pede que tenhamos fé e acreditemos n’Ele, mesmo sem o termos visto.
Durante o Tempo Pascal, acompanharemos algumas aparições de Jesus aos apóstolos, antes de voltar definitivamente ao Pai. Uma marca do Ressuscitado é sempre desejar a paz. A comunidade deve acolher essa paz que Ele traz e transmiti-la aos demais. E, para transmiti-la, é preciso estar em paz com Deus.
O Domingo da Divina Misericórdia foi instituído pelo Papa São João Paulo II no ano 2000. A devoção à Divina Misericórdia inspira-se nas experiências de Santa Faustina com Jesus, relatadas em seu diário, no qual Cristo prometeu ser “refúgio e abrigo para todas as almas, especialmente para os pecadores”. É uma grande graça celebrarmos o Domingo da Divina Misericórdia logo no segundo domingo da Páscoa, pois, ao longo da Quaresma, fomos convidados a experimentar a misericórdia do Senhor por meio do sacramento da Reconciliação e, agora, rendemos graças a essa misericórdia infinita de Deus. A Festa da Misericórdia tem 38 anos em nossa Arquidiocese, e foi numa delas que iniciei o ministério episcopal a serviço do povo carioca.
Na celebração de hoje, ainda podemos cantar a sequência pascal, e o ato penitencial pode ser substituído pela aspersão da água batismal. A celebração deve ser festiva e, como durante todo o Tempo Pascal, a cor predominante deve ser o branco. Ao longo de todo o ano litúrgico, devemos centrar nossa atenção em Cristo e no mistério pascal, que se renova em toda Missa.
A primeira leitura deste domingo é do Livro dos Atos dos Apóstolos (At 2,42-47). Durante o Tempo Pascal, as leituras são retiradas do Novo Testamento, sendo que a primeira leitura provém sempre dos Atos dos Apóstolos, pois retrata o início da Igreja primitiva. No trecho de hoje, os apóstolos aumentam o número dos seguidores de Jesus, e a Igreja vai crescendo. Eles eram perseverantes, atentos aos ensinamentos dos apóstolos e colocavam tudo em comum. Além de partilharem o alimento espiritual, partilhavam também o material. Este é o verdadeiro testemunho que cada um de nós deve seguir. A cada dia, o Senhor aumentava o número daqueles que eram salvos e alcançados por sua misericórdia.
O salmo responsorial é o 117 (118), cujo refrão nos diz: “Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, eterna é a sua misericórdia”. Como afirma o refrão, a misericórdia do Senhor é eterna, desde o Antigo Testamento até os dias de hoje. Ele perdoa nossas faltas e nos conduz pelo caminho da justiça. Ele nunca se esquece de nós; somos nós que, por vezes, nos esquecemos d’Ele.
A segunda leitura é da Primeira Carta de São Pedro (1Pd 1,3-9). Pedro fala sobre a ressurreição de Jesus e nos recorda que não precisamos ver o Senhor para crer. Se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a nossa fé. Pela ressurreição de Cristo, fomos renovados para uma esperança viva: a esperança na ressurreição dos mortos e na vida eterna. É necessário passar por sofrimentos nesta vida para, depois, participar da glória eterna.
O Evangelho deste domingo, segundo João (Jo 20,19-31), narra que, ao anoitecer do primeiro dia da semana, isto é, no domingo, dia da ressurreição e dia do Senhor, a comunidade estava reunida. As portas estavam fechadas por medo dos judeus. Os discípulos temiam sofrer o mesmo destino de Jesus.
O medo nos aprisiona e nos paralisa, como aconteceu com os apóstolos. Não podemos permanecer parados diante do medo; precisamos enfrentá-lo com a ajuda de Deus e do Espírito Santo. Não devemos ter medo de anunciar a Palavra de Deus, especialmente nos dias de hoje, em que tantas pessoas têm sede dela.
Jesus entra, coloca-se no meio deles e diz: “A paz esteja convosco”. Essa paz que o Ressuscitado oferece deve ser acolhida pela comunidade, que é chamada a viver reconciliada com Deus e com os irmãos. Em seguida, Jesus mostra as mãos e o lado, e os discípulos se alegram ao ver o Senhor. Ele novamente lhes deseja a paz e os envia em missão, concedendo-lhes o poder de perdoar os pecados. Assim começa a missão da Igreja.
Tomé, chamado Dídimo, não estava presente quando Jesus apareceu. Ao ouvir o testemunho dos outros discípulos, não acreditou e disse que só creria se visse e tocasse. Oito dias depois, Jesus aparece novamente, estando Tomé presente. Convida-o a tocar suas chagas e o exorta a não ser incrédulo, mas fiel. Tomé então professa uma das mais belas declarações de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”.
Jesus responde: “Acreditaste porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto”. Bem-aventurados somos nós, que cremos sem ver. Temos o testemunho dos apóstolos e das Escrituras, e encontramos o Senhor na Eucaristia. Pela fé, acreditamos que Ele ressuscitou e vive eternamente junto de Deus.
Celebremos com alegria este Domingo da Divina Misericórdia, antigo Domingo in Albis. Confiemos no amor misericordioso de Deus, que está sempre pronto a nos acolher e perdoar. Peçamos ao Espírito Santo as luzes necessárias para permanecermos firmes na fé. Não tenhamos medo de anunciar a Boa-Nova do Evangelho e de conduzir muitas pessoas a Deus.
