Dom João Bosco Óliver de Faria
Arcebispo Emérito de Diamantina (MG)
Georges Bernanos em seu livro Diário de um Pároco de Aldeia, premiado pela Academia Francesa de Letras, assim descreve os Padres: Multidão venerável de clérigos zelosos, irrepreensíveis, que consagram suas forças às esmagadoras tarefas do ministério. Quem se atreveria, entretanto, a afirmar que a prática das virtudes heroicas seja privilégio dos monges ou dos simples leigos. (Bernanos, Georges, Diário de um Pároco de Aldeia, Paulus, 2a Ed., 1999, pag. 86)
Completarei neste ano 87 anos de idade e destes, 58 de sacerdócio, sendo 39 como Bispo em três dioceses. Pude, assim, contemplar, ao vivo, a realização das palavras de Bernanos, por estar diante de sacerdotes jovens, com mais e com menos saúde, outros com suas cabeças enfeitadas pelos cabelos brancos, cabelos esses, testemunhas de uma doação total no serviço da seara do Senhor. Na Arquidiocese de Diamantina, ao lado de um leito hospitalar, preparei um desses jovens Padres para o encontro final com o Pastor dos pastores. Disse-lhe, com carinho e delicadeza, que seu tempo estava se completando. Perguntou-me, então: Dom João Bosco, 35 anos de idade… por que? Respondi-lhe: Padre Jair, a pergunta a se fazer é outra: – “Para que?” Continuamos a conversar por duas horas.
Na Diocese de Patos de Minas, vi Mons. Josias Tolentino de Araújo, já aposentado como Diretor de Escola Estadual, doar, permanentemente, seu salário de aposentadoria aos mais pobres. Viveu sempre na pobreza, com calçado e roupas simples, numa vida espartana e de alimentação frugal.
Vi em Santa Rita de Caldas, na Arquidiocese de Pouso Alegre, Mons. Alderigi Maria Torriani, ter aberto, na parede de seu quarto, um espaço de 30cm. de altura por 50cm. de largura, aproximadamente, para do leito de sua doença final, abençoar e atender, em confissão, seus paroquianos que se enfileiravam na varanda de sua casa.
Na vida episcopal, consolei mais de um Padre, em pranto convulsivo, pelas incompreensões e injustiças recebidas de seus paroquianos.
A Providência Divina permitiu-me, ainda, pregar o retiro anual a mais de 25% do clero do Brasil. Tive oportunidade, então, de ouvir as confidências de nossos padres, do norte ao sul do País: corações fervorosos e generosos dedicando-se, no seu melhor, ao bem do povo que lhes fora confiado.
Quanta doação a Cristo, a Sua Igreja no anúncio do Evangelho! Nós Bispos consagramos, enviamos e orientamos nossos sacerdotes no serviço do altar, mas é o Clero que carrega a Igreja nas costas, apoiado por leigos e leigas dedicados. De um lado o Bispo com sua presença evangelizadora, fortalecendo o seu povo na fé, por toda a Diocese, sacrificando-se, também ele, em viagens contínuas e sofridas, por estradas nem sempre “razoáveis”, viagens essas, às vezes, em altas horas da noite e, do outro lado, seus Padres, se sacrificando, não menos ainda, pelo bem do povo que lhes foi confiado, visitando regularmente suas comunidades por estradas muitas vezes esburacadas e poeirentas, quando não em trechos de barro onde o carro derrapa e para.
O ministério ordenado para ser vivido em profundidade exige o peso escondido de um sacrifício pessoal, total e contínuo de cada sacerdote. Entendi, ainda seminarista, que ser sacerdote é aceitar ser outro Cristo crucificado. Já dizia Mamãe Margarida no dia da ordenação sacerdotal de seu filho São João Bosco: “- Meu filho, começar a dizer Missa é começar a sofrer”.
O Padre, no entanto, desfruta de um privilégio espiritual: na celebração dos sacramentos, pode contemplar a ação da graça santificante no coração de seus fiéis: pessoas que se convertem ao Senhor, almas que crescem na santidade de vida e aquelas que desfrutam os dons da vida contemplativa. O Padre tem, habitualmente, ao seu redor, pessoas que buscam u’a maior proximidade com o Divino e crescem nessa mesma graça santificante. O Padre, naturalmente, trabalha com as pessoas mais piedosas da cidade.
Como é preciosa a presença do Padre nos últimos instantes de vida de seus paroquianos. Recordo-me do olhar vivo e penetrante de algumas pessoas, ainda conscientes, que se sentiam felizes pela presença do Padre na hora de suas mortes. Naquela circunstância, o Padre é a doce ponte entre o Céu e a Terra!
Agradecendo a Deus o dom de minha vida e do sacerdócio, por este tempo abençoado, homenageio, de coração, todos os meus irmãos Bispos e Sacerdotes que, enquanto portadores da Graça, vivem a alegria de oferecerem suas vidas por Cristo e pela Igreja!
