Escuta da Palavra de Deus, oração e silêncio. Assim foi a manhã deste segundo dia da 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (AG CNBB). O retiro, iniciado na tarde de ontem (15), seguiu firme, convidando o episcopado a refletir sobre duas meditações: “A parresia evangélica” e “Servos por amor: como Jesus que lava os pés”, ambas orientadas pelo diretor espiritual do Colégio Pio Brasileiro, dom Armando Bucciol.

Na ocasião, os participantes tiveram a oportunidade de aprofundar os temas, com os olhares voltados para o sentido de uma vida marcada pela verdade, liberdade interior e coragem no anúncio do Evangelho, destacando que “a parresia é selo do Espírito, testemunho da autenticidade do anúncio”. A partir dos ensinamentos da exortação apostólica Evangelii Gaudium e da exortação Gaudete et Exsultate, dom Armando ressaltou que o evangelizador é chamado a agir com confiança, mesmo diante de resistências. Segundo o texto refletido, “o Espírito Santo infunde a força para anunciar a novidade do Evangelho com ousadia (parresia), em todo o tempo e lugar”, reforçando que o testemunho deve ir além das palavras e alcançar a própria vida.
A reflexão também apresentou o exemplo de Jesus Cristo como modelo pleno de parresia, evidenciado em Sua autoridade ao ensinar a coerência entre palavra e ação. “Ele os ensinava como quem tem autoridade”, recorda o Evangelho, confirmando um estilo marcado pela verdade e liberdade. Nesse sentido, destacou-se que a parresia não se limita ao discurso, mas envolve atitudes, comportamento e uma postura transparente diante de Deus e das pessoas.
Ao longo da meditação, dom Armando alertou para os desvios no uso da palavra, sobretudo no contexto atual das redes sociais, onde muitas vezes a franqueza é confundida com agressividade. “Nem todo silêncio é ouro”, afirmou dom Armando, ao mesmo tempo em que disse que a verdadeira parresia “caminha sempre com o amor”, evitando tanto a omissão quanto a violência nas relações.
“Fazer a experiência do amor de Deus”
Para o bispo da Diocese de Januária (MG), dom Dorival Barreto, o retiro espiritual é importante por ser um momento de oração, escuta da Palavra de Deus, revisão da vida, do ministério episcopal e de confissão.
“Com as meditações do pregador do retiro fomos ajudados a fazer a experiência do amor de Deus, revisitando a nossa história vocacional, o nosso sim, nos animando e fortalecendo para continuar a missão junto ao povo que Deus nos confiou. É também um tempo de preparação para vivermos a comunhão durante toda a Assembleia. Portanto, um tempo de graça e salvação que o Senhor nos concede”, afirmou.
“Servos por amor”
A quarta meditação, que aconteceu antes da Celebração Penitencial, foi intitulada “Servos por amor: como Jesus que lava os pés”. Na oportunidade, dom Armando destacou, no contexto da vida eclesial, o chamado essencial à vivência da comunhão como fundamento da missão da Igreja. Inspirada em diversas passagens bíblicas e documentos do Magistério, a proposta central reafirmou que não há verdadeira experiência cristã sem o amor, recordando a exortação de São Paulo: ainda que se tenha muitos dons, sem a caridade tudo perde o sentido. Nesse horizonte, a comunhão aparece não apenas como ideal, mas como estilo concreto de ser Igreja, marcado pela participação, escuta e corresponsabilidade entre todos os seus membros.
A reflexão também enfatizou a necessidade de uma espiritualidade da comunhão, como propôs São João Paulo II, capaz de transformar relações humanas e eclesiais. Tal espiritualidade se traduz na capacidade de reconhecer o outro como dom, partilhar alegrias e sofrimentos e construir vínculos de fraternidade autêntica. Nesse sentido, a Igreja é compreendida como sinal e instrumento de unidade, imagem do Corpo de Cristo e Povo de Deus, chamada a refletir, em sua própria vida, a comunhão trinitária que anuncia ao mundo.
Outro ponto central abordado foi o testemunho do serviço à luz da Palavra de Deus, especialmente no gesto do lava-pés. A atitude de Jesus, que se faz servo e se despoja de Si mesmo, torna-se paradigma para toda liderança na Igreja. O serviço, marcado pela humildade e pela simplicidade, foi apresentado como caminho indispensável para a vivência do ministério, em contraposição a atitudes de poder, divisão ou autorreferencialidade.
“Dispor o coração e o olhar para o trabalho”
De acordo com o bispo da Diocese de Nova Iguaçu (RJ), dom Gilson Andrade da Silva, este tempo forte de escuta da Palavra de Deus e de oração ajuda o episcopado a dispor o coração e o olhar sobre o trabalho que está iniciando.
“Esta Assembleia tem uma importância singular porque nela vamos finalizar o processo de escuta e discernimento que toda a Igreja no Brasil procurou fazer para as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora para os próximos anos. O retiro representa uma pausa necessária para acolher, como episcopado, o que o Espírito está apontando como direção para a Igreja no Brasil diante dos desafios para tornar atual o anúncio de Jesus Cristo a todas as pessoas. Por outro lado, o retiro, ao provocar um novo encontro com Cristo, já nos coloca a caminho da sempre necessária conversão, condição indispensável para a missão”, asseverou.
Após o retiro, foi realizada a celebração penitencial com o sacramento da confissão.
Por Sara Gomes
Para o bispo da Diocese de Januária (MG), dom Dorival Barreto, o retiro espiritual é importante por ser um momento de oração, escuta da Palavra de Deus, revisão da vida, do ministério episcopal e de confissão.

