Dom Itacir Brassiani
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)
Em 1971, quando a guerra promovida pelos EUA contra o Vietnã fervia e matava, John Lennon compôs e gravou uma canção que se tornaria um provocativo libelo pela paz: “Imagine que não exista paraíso, nenhum inferno sob nós, e, acima de nós, apenas o céu. Imagine que não há países, nenhum motivo para matar ou morrer”.
E prosseguia, instigando nossa imaginação: “Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz. Imagine que não existam posses, ganância ou fome. Imagine todas as pessoas compartilhando o mundo. Você pode dizer que sou um sonhador, mas eu não sou o único. Eu espero que algum dia você se junte a nós, e o mundo viverá como um só”.
Não precisamos compartilhar a escala de valores do ex-Beatle para justificar o engajamento pela paz e pela igualdade. Zacarias, o pai de João Batista, saudou Jesus de Nazaré como o “Sol que nasce do alto para guiar nossos passos no caminho da paz” (Lucas 1,79). E, no seu nascimento, os coros celestes cantaram: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos que ele ama” (Lucas 2,14).
Em 1963, antes de John Lennon e no calor da ‘guerra fria’, o Papa João XXIII escreveu Pacem in terris, onde afirma que a paz entre os povos se baseia na verdade, na justiça e na liberdade, e que as tensões entre países não são superadas com a força das armas ou com a mentira. E cita S. Agostinho: “Sem a justiça, os reinos não passam de latrocínio”.
Nesta encíclica dirigida a todas as pessoas de boa vontade, João XXIII diz também que as relações internacionais devem se desenvolver “em uma solidariedade dinâmica”, através de colaboração econômica, social, política e cultural, etc.” Na busca dos próprios interesses, uma nação não pode prejudicar as outras, mas somar e conjugar esforços.
Mais recentemente, Francisco, o ‘papa argentino’, escreveu que o que leva à guerra é a “falta de horizontes capazes de nos fazer convergir para a unidade”, e isso destrói o projeto de fraternidade próprio da humanidade. Mas não haverá paz social sem igualdade concreta e sem desenvolvimento humano integral (cf. Fratelli tutti, §§ 26; 235).
Vivemos tempos em que multiplicam elogios à guerra e às diversas formas de violência, não apenas praticadas, mas também divulgadas com grande velocidade e intensidade. Governantes com graves sinais de perturbação psíquica têm nas mãos meios que colocam toda a humanidade em risco. E um bando de ensandecidos os apoiam, qualificando como animais e monstros aqueles que não compartilham suas cartilhas.
Não quero ser um sonhador solitário! Que o Senhor nos guie num caminho de paz!
