Dom Itacir Brassiani
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)
Em uma das suas composições mais polêmicas, escrita em 1979 e lançada em 1981, Gilberto Gil canta: “Se eu quiser falar com Deus tenho que ter as mãos vazias; ter a alma e o corpo nus; tenho que dizer adeus, dar as costas; caminhar decidido, pela estrada que, ao findar, vai dar em nada… do que eu pensava encontrar”.
Não quero entrar em polêmicas, mas este fecundo e profundo compositor brasileiro, como diria Jesus, “não está longe do Reino de Deus” (cf. Marcos 12,34). Não pode conhecer ou falar com Deus quem se apresenta cheio de razões, coberto de defesas, apegado às suas precárias verdades, preso a metas estreitas, claras e definidas. Precisa “ter a alma e o corpo nus” e “caminhar decidido” qual peregrino.
Esta é também a condição para uma caminhada ecumênica: o respeito e apreço pelas tradições cristãs que diferem das nossas e das religiões que dão outro nome para o Inominável e Indefinível que chamamos Deus. Para dialogar e caminhar juntos é preciso dizer adeus à autossuficiência espiritual e abrir-se sem medo à verdade dos outros.
As religiões e as Igrejas cristãs estão sempre ameaçadas pela tentação de tornar única e absoluta sua experiência própria do Divino. São tentadas a tomar o “pedaço de verdade” que recebem por graça e anunciá-la como a verdade inteira. Crer é caminhar confiado e confiante, com a fronte descoberta, com a mente livre, com o coração compassivo.
Escrevo isso para partilhar uma experiência breve e profunda que vivi nesta semana, em Aparecida, durante a 62ª Assembleia dos Bispos do Brasil: uma celebração ecumênica com mais de 300 bispos de todo o Brasil e com representantes de uma dezena de Igrejas cristãs do Brasil. Isso seria impossível se cada Igreja pensasse bastar-se a si mesma. Uma experiência como essa compromete as Igrejas a caminhar sempre juntas, abraçadas.
Durante a celebração, veio-me ao coração a venturosa “conversão” de Pedro na casa de Cornélio, um soldado e pagão romano. Como judeu, Pedro sabia que não poderia entrar na casa de um pagão. Todavia, a experiência da hospitalidade e o testemunho de abertura de Cornélio mudam tudo. Ele descobriu que não podemos desqualificar a fé de ninguém.
No final, Pedro toma a palavra e diz: “Estou compreendendo que Deus não faz distinção de pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença” (Atos 10,34-35). E o relato da sua experiência faz com que até quem tivesse considerado isso estranho acaba glorificando a Deus por ter aberto também aos pagãos o caminho da vida (cf. Atos 11,1-18). Uma lição bela e atual também para nós.
