Cardeal Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)
O Primeiro de Maio consolida a reflexão universal sobre a realidade estrutural e econômica da sociedade. A Igreja Católica não observa esta data como uma mera espectadora do calendário civil ou das relações de mercado. O Magistério possui uma aliança histórica, profunda e inquebrantável com o mundo do trabalho. A Doutrina Social da Igreja repudia a visão do trabalho como simples mercadoria ou variável de custo de produção. A fé cristã eleva a atividade laborativa à categoria de colaboração direta e ativa com a obra do Criador. O trabalhador sustenta a civilização e, consequentemente, merece a defesa intransigente de sua dignidade. Celebramos nesse dia a festa de São José Operário, trabalhador ou artesão.
A Sagrada Escritura enaltece o trabalhador e o trabalho braçal em toda a sua narrativa, destruindo qualquer preconceito aristocrático contra o suor do corpo. O Livro do Êxodo, ao relatar o momento crucial da construção do Tabernáculo – a morada de Deus entre os homens –, não exalta reis, generais ou sumos sacerdotes. O texto sagrado destaca nominalmente artesãos, operários do mundo antigo: Bezalel e Aoliabe. A Palavra afirma que o próprio Deus encheu esses trabalhadores com o Seu Espírito, concedendo-lhes habilidade, inteligência e destreza em todo tipo de ofício manual (Ex 31, 3-5). A sabedoria divina manifesta-se no corte da madeira, no manuseio da pedra, na ourivesaria e na tecelagem. O Antigo Testamento também consagra a figura de Rute, a estrangeira vulnerável que garante a sobrevivência de sua família através do trabalho árduo, sob o sol escaldante, recolhendo espigas nas lavouras de Booz. A Bíblia demonstra, sem deixar margem a dúvidas, que a bênção de Deus repousa sobre a retidão do suor derramado no campo e na cidade.
O Novo Testamento radicaliza essa predileção divina pelos trabalhadores. Jesus desceu às margens do Mar da Galileia e escolheu homens da classe trabalhadora para estabelecer os alicerces indestrutíveis do cristianismo. Pedro, André, Tiago e João conheciam o peso das redes, as noites de frustração sem pesca e o rigor das tempestades. A Igreja primitiva ergueu-se sobre os ombros de indivíduos forjados no esforço físico.
O Apóstolo Paulo, o maior teólogo e missionário da antiguidade cristã, sustentava as próprias viagens apostólicas exercendo a profissão de fabricante de tendas (At 18, 3). Paulo fazia questão de ostentar as marcas de seu ofício para defender a sua independência e dignidade moral: “Trabalhamos dia e noite para não sermos pesados a nenhum de vós” (1Ts 2, 9). Os primeiros membros da Igreja santificaram o mundo pagão exatamente através de suas oficinas, de suas rotas comerciais e de seu labor honesto. A excelência no trabalho constituía a principal ferramenta de evangelização.
O cenário econômico contemporâneo, no entanto, agride essa visão bíblica e violenta a dignidade humana. O avanço implacável da informalidade impõe uma nova escravidão sob o falso disfarce da autonomia. A precarização sistêmica destrói as bases da segurança familiar. Milhões de homens e mulheres absorvem integralmente os riscos do mercado, desprovidos de garantias básicas, descanso remunerado, saúde ocupacional e perspectiva de aposentadoria. O trabalhador informal acorda diariamente sem a certeza do pão. A ausência de regulamentação justa e a erosão dos direitos sociais esmagam a pessoa humana. A submissão absoluta do cidadão à instabilidade feroz dos algoritmos e das plataformas digitais constitui uma ofensa direta à justiça.
Essa precarização deriva de uma grave distorção moral: o império do dinheiro sobre a produção e sobre a vida. A economia moderna abandonou o fomento da indústria e da geração de empregos reais para abraçar a especulação financeira. A Doutrina Social da Igreja, desde a Encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII até os documentos do Magistério recente, condena categoricamente essa idolatria. O capital tem o dever inegociável de servir ao trabalho, e nunca o inverso. Quando o sistema financeiro se desvincula da economia real, ele enriquece uma minoria invisível enquanto descarta o operário, o agricultor e o prestador de serviços. A busca desenfreada e amoral pelo lucro máximo produz o que o Magistério classifica como a cultura do descarte, onde pessoas tornam-se ferramentas descartáveis após o esgotamento de suas forças.
A Escritura Sagrada adverte com severidade os que enriquecem através da exploração. O apóstolo Tiago profere uma das sentenças mais duras de toda a Bíblia contra o roubo da dignidade do trabalhador: “Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, e que vós retivestes com fraude, clama; e os gritos dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor dos Exércitos” (Tg 5, 4). A Igreja mantém a atualidade dessa denúncia profética. Reter direitos, pagar salários indignos ou submeter o empregado a condições degradantes constitui um pecado gravíssimo que clama aos céus por justiça.
A superação dessa crise global exige o resgate da centralidade da pessoa humana e a valorização irrestrita de quem acorda de madrugada para movimentar a economia. Os leigos e leigas católicos exercem o seu sacerdócio batismal exatamente no coração do mundo do trabalho. A faxineira que higieniza os hospitais, o motorista que cruza as rodovias, o pequeno empreendedor que resiste à carga tributária, o operário na linha de montagem, o lavrador que lavra a terra, o homem que maneja o gado nas pastagens e o professor na sala de aula continuam, hoje, a obra dos apóstolos pescadores e de Paulo fabricante de tendas. Eles não apenas sobrevivem; eles sustentam o tecido social. A Igreja reconhece, exalta e abençoa cada um desses profissionais.
O Primeiro de Maio exige respostas objetivas dos governantes, dos legisladores e dos líderes empresariais. A sociedade precisa estruturar políticas macroeconômicas que garantam o pleno emprego, a consolidação de leis que protejam as garantias trabalhistas fundamentais, a erradicação imediata do trabalho análogo à escravidão e o combate implacável à informalidade opressora. O Estado e o mercado existem para servir à família e ao cidadão. A Igreja reafirma seu compromisso histórico com os trabalhadores e prossegue em sua marcha inabalável na defesa de uma civilização onde a economia respeite a vida, a justiça oriente os contratos e o trabalho humano recupere a sua dignidade sagrada.
