Cardeal Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)
No sétimo domingo da Páscoa, a Igreja no Brasil celebra a solenidade da Ascensão do Senhor e, nesse dia, rende graças ao Senhor por todos aqueles que têm o dom de comunicar. Nesse domingo comemora-se também o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que, neste ano, chega à sua sexagésima edição. O Santo Padre, o Papa, sempre prepara uma mensagem para essa ocasião, como acontece nas grandes celebrações.
Além daqueles comunicadores de profissão, todos os batizados podem ser comunicadores, ou seja, podem anunciar a Palavra de Deus no ambiente em que estiverem. A mensagem também é uma reflexão para toda a comunicação em geral. Jesus, antes de voltar definitivamente ao Pai, sopra sobre eles o Espírito Santo e os envia em missão, para que continuassem tudo aquilo que Ele ensinou e pregassem o Evangelho a todos. Do mesmo modo, o Senhor nos envia, nos dias de hoje, para que saiamos e anunciemos o Evangelho a todos. Assim, todos nós somos comunicadores da Palavra.
Nos dias atuais, em que a era digital cresce cada vez mais, podemos utilizar esses meios para evangelizar e propagar a Palavra de Deus. É claro que devemos sempre usá-los com responsabilidade. Podemos formar grupos no WhatsApp e combinar momentos de oração, fazer transmissões pelo YouTube e pelo Facebook. A maioria de nossas paróquias possui canais no YouTube e outras redes sociais, por meio dos quais transmitem missas e demais momentos de oração.
Com o passar dos anos, tornou-se necessário utilizar todos os meios disponíveis. Antigamente, a Palavra era anunciada apenas de forma presencial ou por cartas; depois vieram outros meios de comunicação e, hoje, contamos também com as redes sociais. É claro que não devemos nos limitar a elas: o encontro físico continua sendo essencial. No entanto, as redes sociais ajudam muito, sobretudo aqueles que estão distantes.
O tema escolhido pelo Santo Padre, o Papa Leão XIV, para este 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais é: “Preservar vozes e rostos humanos”. A mensagem é densa e muito técnica. Supõe séria reflexão sobre o assunto. A comunicação é um dom que todo ser humano já possui desde o nascimento. Deus nos concede esse dom: desde pequenos, buscamos expressar nossas vontades e, aos poucos, vamos desenvolvendo nossa capacidade de comunicação. Com o tempo, especialmente na vida adulta, essa forma de comunicar amadurece. Devemos, portanto, preservar esse dom e revelar aos outros a verdade que vem da Palavra de Deus.
O Papa Leão XIV afirma que nos comunicamos por meio do rosto e da voz — traços únicos que carregamos desde o nascimento. Em cada encontro, nosso rosto revela nossos sentimentos, e, pela voz, expressamos o que trazemos no coração. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus; por isso, nosso rosto e nossa voz são sagrados. Somos seres de relação e, portanto, seres de comunicação.
O Santo Padre ainda alerta para o risco de dependermos apenas das redes sociais para nos relacionarmos. É necessário manter o encontro pessoal e o diálogo. Infelizmente, muitas vezes dependemos excessivamente da internet e, agora, também da inteligência artificial (IA). Não devemos colocar a tecnologia à frente das nossas relações interpessoais. Ela nos ajuda até certo ponto, mas há dimensões que exigem nossa presença, nosso olhar e nossa escuta. Se nos limitarmos ao diálogo virtual, deixaremos de perceber o rosto do outro — imagem e semelhança de Deus — e de ouvir sua voz.
O Papa também adverte que devemos tomar cuidado para não permitir que as redes sociais, especialmente com o avanço da inteligência artificial, pensem por nós. É preciso um esforço constante para refletirmos sobre nossas atitudes, prepararmos aquilo que queremos comunicar e irmos ao encontro do próximo. O importante é não termos apenas grupos “virtuais”, mas também grupos presenciais, onde seja possível dialogar, partilhar ideias e buscar consensos.
Segundo o Santo Padre, o avanço da inteligência artificial pode enfraquecer a capacidade humana de pensar. Por isso, usemos nossa inteligência: escrevamos com nossas próprias palavras, meditemos a Palavra de Deus e valorizemos os encontros presenciais, e não apenas virtuais. O Papa faz, assim, um apelo para que não nos tornemos dependentes das máquinas. Elas são ferramentas importantes, mas não podem substituir nossa responsabilidade. Caso contrário, seria como enterrar os talentos que Deus nos confiou.
O Santo Padre também apresenta desafios diante da inovação digital: utilizá-la com responsabilidade, cooperação e educação. Todos nós, especialmente aqueles que produzem conteúdo, devemos ser responsáveis pelo que publicamos, pois atingimos muitas pessoas. Infelizmente, cresce o fenômeno das “fake News”, notícias falsas que, muitas vezes, prejudicam a imagem do próximo. Sejamos prudentes: verifiquemos os fatos antes de divulgá-los.
O Papa afirma ainda que todos somos chamados a cooperar. Nenhum setor consegue, sozinho, enfrentar os desafios da inovação digital e da governança da inteligência artificial. Profissionais de todas as áreas devem colaborar na construção de uma cidadania digital consciente e responsável.
Por fim, o Sumo Pontífice nos convida à educação para o uso da comunicação: é necessário verificar a veracidade das informações e desenvolver critérios que promovam uma cultura comunicativa mais saudável e responsável.
Este é o desafio que a mensagem do Papa Leão XIV propõe para este 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais: não deixemos de nos comunicar e de nos encontrar com o outro. Usemos a tecnologia com sabedoria, sempre a serviço do bem, e anunciemos a esperança que brota de Cristo Ressuscitado. Tenhamos cuidado com o uso da tecnologia, sobretudo da inteligência artificial, e não percamos o dom de nos comunicar verdadeiramente com os outros.
