Jesus nos ensina a guardar a sua Palavra!

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

 

A liturgia do 6º Domingo da Páscoa convida-nos a descobrir a presença – discreta, mas eficaz e tranquilizadora – de Deus na caminhada histórica da Igreja. A promessa de Jesus – “não vos deixarei órfãos” – pode ser uma boa síntese do tema.

O Evangelho – Jo 14,15-21 – apresenta-nos parte do “testamento” de Jesus, na ceia de despedida, em Quinta-feira Santa. Aos discípulos, inquietos e assustados, Jesus promete o “Paráclito”: Ele conduzirá a comunidade cristã em direção à verdade; e levá-la-á a uma comunhão cada vez mais íntima com Jesus e com o Pai. Dessa forma, a comunidade será a “morada de Deus” no mundo e dará testemunho da salvação que Deus quer oferecer aos homens. Jesus continua a preparar os discípulos para sua despedida. Amá-lo é guardar e viver sua Palavra. Ele continua presente em cada um de nós e na comunidade mediante o Defensor – Espírito Santo – que o Pai enviará.

Imaginemos a face de Jesus. Humana e sagrada face. Face que estava em constante intimidade com o Pai. Face toda bela e generosa, feito ipê florido na aridez do cerrado. A aridez está no coração daqueles que o rejeitam. Sua face é qual dia de sol e céu azul no infinito do sertão: tão límpido, luminoso, todo transparente. Face serena, ali não há medo nem engano. É confiança plena. Os apóstolos a contemplam, de vez em quando baixam a vista. Parecem ansiosos. Devemos amar muito a Jesus. Amar Jesus é guardar a sua Palavra. O verbo “guardar”, aqui corresponde ao sentido de memória e movimento. Não remete a algo estático. O movimento é a vivência da Palavra. Guardar a Palavra é ter a face semelhante a do Mestre, é parecer-se em tudo com ele. Jesus não nos deixa órfãos. O Espírito Santo, o Paráclito, nos ajude a manter viva em nós a memória do amor e da concórdia, semeando a paz e a fraternidade em nosso coração e fazendo-nos sentir a presença viva do Senhor em nosso caminho.

A primeira leitura – At 8,5-8.14-17 – mostra exatamente a comunidade cristã a dar testemunho da Boa Nova de Jesus e a ser uma presença libertadora e salvadora na vida dos homens. Avisa, no entanto, que o Espírito só se manifestará e só atuará quando a comunidade aceitar viver a sua fé integrada numa família universal de irmãos, reunidos à volta do Pai e de Jesus. A Palavra de Deus avança para fora de Jerusalém. Com Filipe, ela rompe fronteiras geográficas e religiosas e chega aos samaritanos, impulsionando a mesma prática de Jesus e provocando muita alegria entre todos.

A segunda leitura – 1Pd 3,15-18 – exorta os batizados – confrontados com a hostilidade do mundo – a terem confiança, a darem um testemunho sereno da sua fé, a mostrarem o seu amor a todos os homens, mesmo aos perseguidores. Cristo, que fez da sua vida um dom de amor a todos, deve ser o modelo que os cristãos têm sempre diante dos olhos. Pedro escreve a comunidades que sofrem e as encoraja a manter a esperança, mesmo no meio de tribulações, seguindo o exemplo de Jesus. O desafio é enfrentar o mal com o bem.

Jesus, neste domingo, nos orienta em duas questões fundamentais de nossa fé: o amor e a promessa do envio do Espírito Santo. Seremos reconhecidos como discípulos do Senhor pelo amor que tivermos uns pelos outros. Essa é a verdadeira identidade cristã. Acolher e observar os mandamentos de Jesus são caminhos concretos para demonstrar esse amor. Ao anunciar a sua partida, Jesus promete enviar o Espírito Santo, que conduzirá os discípulos à plenitude da verdade. Sejamos testemunhas do Ressuscitado no mundo. Hoje elevamos a Deus as nossas orações por todas as mães. Rezamos, como eu, em primeiro lugar, pelas mães falecidas como a mamãe, que já estão junto de Deus. Rezemos pelas mães e pelo seu testemunho evangélico de transmissoras da fé católica. Que Deus as conceda muita saúde, as console em suas provações e as abençoe em seus projetos familiares e em todos os seus afazeres. Rezo pelas mães feridas pelos filhos doentes, presos, no mundo da droga ou desempregados. Que nossas mães sejam todas abençoadas! Jesus continuará repetindo para cada um de nós a verdade evangélica: “Eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Defensor!”.

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