O último lugar onde viram o Senhor

Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)

A despedida de Jesus no monte da Galileia e depois nas proximidades de Jerusalém é a lembrança de um evento que mais tarde revelará tudo. Pertencente àquela ordem misteriosa das ausências fecundas, em que alguém se retira para que sua presença, deixando de ser vista de fora, comece a trabalhar por dentro.

Os onze subiram ao monte que lhes fora indicado. Já não eram os mesmos homens que haviam fugido e fechado as portas, mas traziam aquele cansaço que sucede às grandes transformações do coração. Tinham visto a morte em toda a sua brutalidade e ouvido o silêncio da tarde cair sobre o Calvário. Tinham conhecido o sábado sem explicação, a lentidão das horas dormentes, a impressão de que todas as promessas haviam sido sepultadas junto com o corpo amado. E, no entanto, Ele estava ali.

“Quando o viram, prostraram-se; mas alguns duvidaram”. Como é humana, e por isso mesmo tão verdadeira, esta frase. A adoração e a dúvida ajoelhadas no mesmo chão é o retrato da fé e a hesitação convivendo no mesmo espaço. O coração querendo acreditar e a inteligência fadigando ante a última névoa da dor. Dificuldade de acreditar que a morte, tão exata em sua violência, tivesse sido desmentida.

E então Ele diz: “Toda autoridade me foi dada no céu e sobre a terra, portanto, ide.” Uma despedida que começa com um envio.

Quem ama e se despede costuma querer reter os seus e multiplicar recomendações, como se as palavras pudessem atrasar a ausência. Jesus, porém, despede-se abrindo o mundo para que os seus não fiquem fechados em suas lembranças, mas sejam lançados na estrada da missão para ser e fazer discípulos.

A despedida não é mais para consolar, mas para entregar uma tarefa. Mesmo sem compreender os discípulos são enviados. Isso os impedirá, mais tarde, de anunciar o Evangelho com arrogância, pois pesava em suas memórias o fato de que eles mesmos haviam sido alcançados na dispersão.

A melancolia daquela hora não estava em perder Jesus, pois Ele mesmo prometia permanecer. A melancolia vinha da consciência de que o modo antigo de o ter chegava ao fim. Já não poderiam retê-lo como antes, à beira do lago ou nas noites de pergunta e espanto. A intimidade afetuosa dos dias da Galileia entrava agora numa forma mais alta e mais exigente. Teriam de aprender a presença do ausente e a reconhecer o Mestre nos sinais, na Palavra, no pão, nos pobres, na assembleia, no Espírito que sopra onde quer.

Retirar uma forma de presença para inaugurar outra é uma das passagens delicadas da fé. Nós, que somos feitos de lembranças, sofremos quando a graça muda sua feição. Queremos o mesmo caminho, o mesmo modo, a mesma doçura antiga. Mas o Senhor nos educa e tira-nos da dependência sensível para nos introduzir numa fidelidade mais profunda e alargada.

Ele parte, mas permanece. Sobe, mas acompanha. Retira-se dos olhos, mas não da história. A esperança nasce dessa tensão. O Ressuscitado, antes de partir, quis acostumar-nos à nova gramática da sua presença. Não basta recordar, é preciso esperar e receber o Espírito Santo.

Há na Ascensão uma beleza quase dolorosa. Os discípulos permanecem olhando para o alto, como quem tenta conservar, no último contorno visível, a presença que se afasta. Tentativa falida de reter a imagem, fixá-la na memória, impedir que o tempo a desfizesse. Um desses instantes em que o olhar se torna avarento como se a memória pudesse defender-se contra a perda recolhendo minúcias. Por isso continuavam olhando.

Então aparecem dois homens vestidos de branco e impede que a saudade se transforme em melancolia. Os discípulos foram impedidos de permanecer prisioneiros do último lugar onde viram o Senhor. O céu para onde Ele subiu não os dispensa da terra para onde são enviados.

A esperança fica, então, estendida entre duas vindas. A primeira, humilde e pascal; a última, gloriosa e definitiva. Entre elas, vive a Igreja. Vive de memória e promessa, de saudade e missão. Ela sabe que o Esposo partiu, mas não a abandonou.

A despedida final de Jesus foi a passagem do Evangelho para a vida da Igreja. Enquanto os discípulos o viam subir, começava uma nova forma de existência – Cristo estaria no anúncio dos apóstolos, na água do batismo e na travessia de todos os que, mesmo sem tê-lo visto, continuariam amando-o.

O monte da Galileia e o monte da Ascensão formam, assim, uma única narrativa. Na Galileia, Jesus prometeu que estaria conosco até o fim dos tempos; em Jerusalém, anunciou que receberíamos o Espírito. As duas cenas se completam como duas faces de uma mesma despedida. E nós, seus discípulos, que tínhamos ficado olhando para o alto, descemos de novo para o chão duro da vida, pois a esperança católica não se sustenta apenas olhando para o céu, mas caminhando na terra com a certeza de que o céu já foi aberto.

A melancolia daquela hora era a penumbra entre a última visão e a primeira missão, entre o rosto que se retirava e o Espírito que viria, entre a saudade dos olhos e a confiança do coração.

 

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