A atualidade da Evangelii Gaudium e o horizonte missionário do pontificado de Leão XIV 

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)

 

A Evangelii Gaudium permanece, mais de uma década após sua publicação, um texto decisivamente atual e profético. Longe de ser um documento circunstancial de um pontificado anterior, ela se afirma como chave hermenêutica para compreender o caminho missionário e sinodal que o Papa Leão XIV pretende assumir e aprofundar em seu ministério petrino. O primeiro consistório extraordinário do seu pontificado, realizado em 7 de janeiro de 2026, confirmou essa continuidade: o Santo Padre pediu aos cardeais que revisitassem a  Evangelii Gaudium como referência fundamental para discernir prioridades e orientações para a Igreja no tempo presente. 

No discurso de abertura do consistório, o Papa Leão XIV retomou e enfatizou a grande intuição conciliar que compreende a Igreja inteiramente contida no mistério de Cristo, entendendo a missão evangelizadora como irradiação da inesgotável energia emanada do evento central da história da salvação. Evangelizar, recordou o Santo Padre, não é fazer proselitismo, mas permitir que seja o próprio Cristo quem atraia todos a si, por meio da caridade vivida e testemunhada. Nesse sentido, afirmou: A mim mesmo e a vós, lanço o convite a prestar muita atenção ao que o Papa Bento XVI indicou como a ‘força’ que preside a este movimento de atração: essa força é a Charis, o Agape, o Amor de Deus que se fez carne em Jesus Cristo e que, no Espírito Santo, é dado à Igreja, santificando todas as suas ações. Na verdade, não é a Igreja que atrai, mas Cristo; e, se um cristão ou uma comunidade eclesial atrai, é porque, através desse ‘canal’, chega a seiva vital da caridade que brota do Coração do Salvador. É significativo que o Papa Francisco, tendo iniciado com a Evangelii gaudium, ‘sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual’, tenha concluído com a Dilexit nos, ‘sobre o amor humano e divino do Coração de Cristo’.” Essa perspectiva, amadurecida no magistério recente e assumida por Bento XVI e Francisco, inscreve-se numa compreensão profundamente cristológica da missão da Igreja: é o amor de Cristo que a impele, a sustenta e lhe confere credibilidade diante do mundo. 

É nesse horizonte que se insere a intervenção do Cardeal Víctor Manuel Fernández, Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, cuja reflexão ajuda a compreender por que a Evangelii Gaudium continua sendo um texto irrenunciável. Para ele, não se trata de uma opção pastoral superada ou substituível, mas de um modo de conceber toda a vida da Igreja a partir do anúncio. O subtítulo do documento — “sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual” — revela o seu núcleo: o querigma, isto é, a proclamação da beleza do amor salvador de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado. 

Esse retorno ao essencial possui grande relevância no contexto cultural contemporâneo, marcado por fragmentação, cansaço espiritual e perda de sentido. O Cardeal Fernández insiste que não basta repetir normas, doutrinas ou posições morais, ainda que necessárias; é preciso, antes de tudo, favorecer o encontro com Cristo vivo. Em sintonia com Bento XVI, ele recorda que não se começa a ser cristão por uma ideia ou um código ético, mas por uma experiência de encontro com uma pessoa que transforma a vida. Por isso, a Evangelii Gaudium fala de “beleza”: o Evangelho deve ser anunciado de modo capaz de atrair, encantar e tocar o coração. 

Da centralidade do querigma decorre uma exigência de reforma missionária e sinodal da Igreja. Ecclesia semper reformanda: a Igreja é chamada a rever práticas, estilos e estruturas, não por gosto de mudança, mas para que nada obscureça ou dificulte o anúncio fundamental. Tudo o que não serve diretamente a essa proclamação inicial deve ser posto em segundo plano; tudo o que a favorece deve ser colocado em primeiro plano. Trata-se de uma reforma espiritual, pastoral e institucional, vivida em chave sinodal, isto é, no discernimento comunitário e na escuta do Espírito. 

Por fim, a atualidade da Evangelii Gaudium manifesta-se também na inseparável união entre anúncio, compromisso social e vida espiritual. O querigma não aliena da realidade, mas gera paixão pelo povo, cuidado com os pobres e esperança ativa na transformação do mundo. Assim, ao assumir e aprofundar a proposta evangelizadora de Francisco, o Papa Leão XIV aponta para uma Igreja mais simples no essencial, mais bela no anúncio e mais audaz na missão. Uma Igreja que, atraída por Cristo, se torna sinal vivo do Evangelho para o homem e a mulher do nosso tempo. 

 

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