A benção da garganta: quando a fé cura a voz e protege o coração

Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)

 

 

No dia 3 de fevereiro, a Igreja celebra São Brás, bispo e mártir, cuja devoção atravessa séculos e permanece surpreendentemente atual. A bênção da garganta, com as velas cruzadas, talvez seja um dos ritos mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundos da piedade popular. Em um mundo onde tanto se fala, tanto se grita, tanto se fere e tão pouco se sabe escutar, esse gesto ganha força simbólica e pastoral extraordinária. 

Garganta é território sagrado 

A tradição conta que São Brás salvou uma criança que se engasgava com uma espinha de peixe. Desde então, tornou-se intercessor contra doenças da garganta e protetor da voz humana. Mas, para além da narrativa histórica, o gesto litúrgico que celebramos hoje aponta para algo muito maior: não basta curar a garganta; é preciso curar aquilo que sai dela. 

A garganta é passagem de respiração, de alimento, mas também de palavra. E, justamente por isso, é território sagrado. Quando o sacerdote cruza as velas diante do pescoço do fiel, ele não pede apenas saúde física. Pede, sobretudo, que Deus purifique a nossa voz, liberte a nossa língua, cure nossos impulsos, silencie nossas agressões e transforme nossa palavra em instrumento de comunhão. 

Vivemos em um tempo em que a palavra perdeu peso. Ela se tornou rápida, impulsiva, imediata e, não raras vezes, violenta. Palavras podem levantar ou derrubar; incluir ou excluir; construir ou destruir reputações; consolar ou ferir profundamente. São feridas invisíveis que deixam marcas profundas nas casas, nas comunidades, nas redes sociais e até dentro da Igreja.  

A simbologia da luz, cruz, calor e clareza 

Por isso, a bênção de São Brás é necessária. Mais do que nunca.  Ela nos recorda que a saúde integral inclui também a saúde da língua — a capacidade de falar a verdade com amor, de corrigir com misericórdia, de anunciar com coragem, de escutar antes de responder, de evitar fofocas, calúnias e julgamentos apressados. É a cura dos ruídos que ferem e desgastam relações, famílias, ambientes de trabalho e comunidades pastorais. 

Ao mesmo tempo, essa bênção reconhece que a garganta é também instrumento de anúncio. É pela voz que proclamamos o Evangelho, que cantamos a fé, que consolamos os que sofrem, que damos testemunho da esperança. Uma garganta doente silencia; uma garganta curada evangeliza. Por isso, pedir a intercessão de São Brás é pedir que Deus renove nossa vocação de comunicar a Boa-Nova. 

As duas velas cruzadas diante da garganta carregam simbolismos belos: luz que ilumina nossa palavra; cruz que purifica nossa intenção; calor que aquece o coração de quem nos ouve; clareza que afasta as trevas da maledicência e da mentira. 

A bênção de São Brás não é superstição nem devoção desligada da vida. É espiritualidade encarnada, é convite à conversão da palavra, ao cuidado com o que dizemos, ao compromisso de usar a voz para reconciliar, educar e construir pontes. 

Em tempos de discursos duros, agressões verbais, polarizações e cancelamentos, essa bênção se torna um ato profético. Ela afirma que o cristão não pode ser instrumento de violência verbal. Receber a bênção da garganta é, então, muito mais do que garantir saúde física. É aceitar o chamado para curar a voz e consagrar a palavra. É pedir a São Brás que proteja nossa garganta dos males visíveis e Deus proteja nosso coração dos males invisíveis. Porque, afinal, a palavra revela quem somos. E, quando é curada pela fé, ela torna-se semente de paz. 

 

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