Dom Diamantino Prata de Carvalho
Bispo Emérito da Campanha (MG)
Que alegria darmos continuidade a este itinerário litúrgico. Se no domingo anterior fomos confrontados com a generosidade abundante do Semeador que não escolhe terrenos, no XVI Domingo do Tempo Comum (Mt 13,24-43) Jesus dá um passo além. Desta vez, Ele nos coloca diante de um dos cenários mais incômodos da existência humana: a convivência inevitável entre o bem e o mal. Proponho, então, que mantenhamos as lentes da agronomia e da exegese para contemplarmos a Parábola do Joio e do Trigo, extraindo dela os benefícios espirituais para a nossa conversão pessoal e comunitária.
Se colocarmos novamente o nosso engenheiro agrônomo contemporâneo diante de Mateus 13, a reação dele ao ver o joio crescer no meio do trigo seria de imediato alerta. Na agronomia científica e de alta performance, a presença de espécies invasoras é uma falha grave de manejo. O joio é uma planta extremamente sorrateira. Na fase inicial de crescimento, ele é idêntico ao trigo. Suas raízes se entrelaçam de forma intrincada com as do trigo bom e ambos se assemelham. Para a lógica do agronegócio moderno, o combate a esta vil praga se faz pela aplicação de herbicida seletivo ou arranque manual imediato. Deixar o joio crescer é colocar em risco toda a produtividade, contaminar a safra e desvalorizar a terra. A eficiência exige purificação imediata. O invasor deve ser eliminado o quanto antes.
Quando mudamos para a lente da exegese teológica, a resposta do dono da terra aos seus servos soa quase absurda: “Não! Para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai-os crescer juntos até a colheita” (Mt 13,29-30). A exegese nos revela que a preocupação central de Deus, o agricultor divino, não é a destruição do mal (o joio), mas a preservação da vida (o trigo). O coração do Pai não funciona sob a pressa do “controle de pragas”. Deus não é um herói de ação que aceita “danos colaterais” para destruir o inimigo; Ele prefere tolerar a presença do joio a perder uma única espiga de trigo que seja. Essa parábola revela o tempo de Deus como o tempo da paciência histórica.
Ao contrário das plantas reais, onde a genética determina o destino da semente, na ecologia do Reino de Deus ocorre um milagre constante: o joio de hoje pode se converter no trigo de amanhã. A pressa puritana dos servos impediria o tempo da graça e da conversão. O que acontece quando essas duas visões se chocam no nosso cotidiano?
A sociedade moderna herdou o pior da “agronomia social”: a obsessão por arrancar o joio alheio. Vivemos na cultura do cancelamento, do maniqueísmo político e social, onde rotulamos rapidamente grupos inteiros como “joio” nocivo que precisa ser extirpado para que a sociedade seja limpa. A parábola nos alerta que os seres humanos são péssimos juízes. Na nossa pressa de fazer justiça com as próprias mãos, frequentemente arrancamos o trigo, destruímos reputações, famílias, vidas e pontes de diálogo em nome
de uma suposta “limpeza moral”. Uma cidadania inspirada pelo Evangelho não busca construir uma sociedade de puros isolados, mas tem a coragem de coexistir e dialogar, apostando na força silenciosa do trigo bom.
Na dinâmica comunitária, a tentação é nos considerarmos os “fiscais do trigal”, apontando quem é joio na comunidade. Esquecemos a lição mais profunda da antropologia bíblica: a fronteira entre o joio e o trigo não divide as pessoas entre boas e más, ela passa pelo centro do coração de cada um de nós. No mesmo coração onde cresce a generosidade do trigo, brota também o joio do egoísmo, da vaidade e do julgamento. Se Deus usasse conosco a pressa purificadora que exigimos para os outros, já teríamos sido arrancados há muito tempo. A boa notícia é que o dono da messe é paciente. Ele nos dá o tempo da graça para que o Espírito Santo cultive em nós a conversão que tanto necessitamos florescer e frutificar, fortalecendo a nossa raiz no bem até que sejamos plenamente trigo para o seu celeiro.
Que a liturgia deste domingo nos impulsione a buscar mais e mais o Senhor, o agricultor divino de nosso humilde trigal, e que mesmo diante das durezas de nossos corações, possamos alcançar a graça de aprender a coexistir com o bem e o mal que nos habita e que habita nossas comunidades, até o dia em que o senhor, justo juiz e sábio semeador, elimine de nosso meio toda semente de iniquidade e discórdia que nos separa dele e dos irmãos, levando-nos à plenitude das bonanças eternas. Amém.
