A força estruturante da Cristologia no pensamento teológico paulino

A Cristologia Paulina emerge da experiência do encontro pessoal de Paulo com Cristo e da reflexão a respeito dele. Não bastaria ao apóstolo o conhecimento que possuía da Sagrada Escritura e da própria história humana para alavancar a rica abordagem cristológica por ele oferecida. A experiência do encontro é a fonte dessa compreensão rica. Cristo é, pois, o centro de sua reflexão. A centralidade de Cristo na sua reflexão lhe permite a configuração e articulação do seu pensamento teologicamente complexo e de diferentes nuances.

Compreende-se, então, que Cristo, no seu encontro pessoal com Ele, é a chave hermenêutica da construção do seu patrimônio conceitual teológico. Sua compreensão de Cristo articula a novidade do seu pensamento e dá luz nova às raízes judaicas do seu conhecimento. Alguns conceitos no seu horizonte de compreensão revelam a asserção acima e comprovam a força estruturante de sua cristologia como base de seu pensamento teológico. Vale, pois, tomar os conceitos teológicos de Deus, Espírito, Cruz, Igreja, Cristão e dia final para perceber a riqueza semântica usada por Paulo para explicitar a sua compreensão de Jesus. Na verdade, ocorre, à luz da compreensão de Jesus, uma verdadeira nova sistematização do tecido da própria compreensão da fé, seja da fé hebraica, seja da fé cristã. Essa configuração singular vem da singularidade do mistério de Cristo que ele compreende e explicita.

DEUS: passa a ser compreendido não apenas como o Pai de Israel, o Deus do Shemah (Ex 4,22: Dt 32,6; Jr 3,4.19; Os 11,1), ou pai do Messias, ou ainda o pai no sentido genérico (ICr 29,10; Is 63,15 ou M 6,9). Paulo focaliza toda sua importância maior na referência a Deus como “O Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 15,6; IICor 1,3; 11,31). Ele sublinha, de modo muito especial, a dimensão relacional deste filho com o pai. O Pai envia ao Filho com a missão de realizar o ato central da história e de sua ação no mundo, a redenção. Há, nesse âmbito, uma perspectiva a ser sublinhada diferente da perspectiva presente na Haggadah pascal, presente em Dt 26,8, que pensa Deus como o Salvador, ele próprio, sem nenhuma mediação. Cristo, o Filho Amado do Pai, é o mediador. É por meio dele / dia que o Pai realiza seu desígnio de salvação. Nesta relação com o Pai, na morte de Cristo (Rm 7,4), na sua vida de ressuscitado (ICor 1,21), na sua pregação, e na condição do cristão, ele Cristo é o mediador. É por Ele que se chega a Deus. O uso de ‘prosagogé’, único em toda a Bíblia Grega, ocorrências na literatura paulina, em Rm 5,2 e Ef 2,18 e 3,12, acentua a perspectiva de que é por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo que chegamos à graça na qual somos salvos. Esse verbo tem na sua significação a nuance semântica da aproximação, num movimento semelhante ao do barco que se aproxima do porto; semelhante a alguém que é introduzido para audiência na presença do rei ou daquele que se aproxima do altar para fazer a sua oferta. Cristo,  como mediador de Deus, seu Filho Redentor, elimina toda distância e sentimento de estranheza em se tratando da relação com Deus. Por Cristo, e com Cristo todo homem pode olhar a Deus face a face e dele se aproximar.

O Espírito era uma referência para falar de Deus, o Santo. Paulo o compreende e o qualifica como Espírito de Cristo (Rm 8,9), do Filho (Gl 4,6, de Jesus Cristo (Fl 1,19). É grande a importância do augúrio trinitário de IICor 13,13:

“A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós.”

É à luz da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo que se pode compreender e experimentar o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito Santo.

A Cruz, na compreensão paulina, tem seu sentido explicitado pela moldura que recebe do horizonte da cristologia. Ao falar de cruz, ele fala da cruz de Cristo, por isso tem sentido o convite de carregar a própria cruz. Pois que a cruz com Cristo se torna fonte de redenção. A cruz de Cristo é o instrumento de sua oferta redentora. Por isso, o cristão dela participa enquanto imersão no mistério da morte de Cristo, partilhando secundariamente dos seus sofrimentos. Por isso mesmo, Paulo compreende que os sofrimentos da missão apostólica significam essa participação secundária no sofrimento de Cristo. São os sofrimentos suportados pelo bem do anúncio do Evangelho de Cristo.

A Igreja é entendida, à luz da Cristologia, como Corpo de Cristo (ICor 12,27). Para além de um possível sentido de comparação metafórica, o apóstolo sublinha especialmente o sentido de que a Igreja não existe e não subsiste sem um especial relacionamento e referência a Cristo. É dele que vem a sua identidade. Uma identidade que sustenta o verdadeiro sentido de Povo de Deus.

Bem assim, o Cristão só define sua feição autenticamente na medida em que vive sua vida ‘em Cristo Jesus’ e na medida em que nele Cristo vive. Esta vida do cristão, na perspectiva do dia final, ‘o dia do Senhor’, é compreendido como um momento decisivo vivido em Cristo e para Cristo.

É inquestionável, pois, que Paulo configura sua teologia a partir da sua fé cristológica. Não é um segundo Deus, embora trabalhe de maneira clara sua própria ontologia pessoal. Sua condição própria é esta: reconduzir o homem a uma nova e profunda comunhão com Deus. Assim, seu senhorio realiza no mundo o senhorio de Deus. Cristo é, portanto o mediador entre Deus e o homem.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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