A gratuidade de nossa oração pequena e sincera! 

Dom Antônio Carlos Altieri
Arcebispo Emérito de Passo Fundo (RS) 

 

Se olharmos atentamente ao nosso redor, e talvez para dentro de nós mesmos, perceberemos que a nossa época carrega uma marca muito dolorosa. Cientistas sociais e filósofos costumam chamar o tempo em que vivemos de “Sociedade do Cansaço”. Nunca fomos tão cobrados e nunca nos cobramos tanto. O Mercado exige hiperprodutividade; as empresas exigem metas cada vez mais intangíveis; as escolas e universidades impõem uma competição feroz; e até as redes sociais nos pressionam a exibir uma vida perfeita, feliz e incansável. O resultado? Uma geração esgotada, ansiosa, vivendo sob o peso do Burnout (o esgotamento físico e mental) e de fardos invisíveis que parecem esmagar a alegria de viver. 

É exatamente no coração dessa frenesi pós-moderna que a voz de Jesus ecoa hoje com uma atualidade cortante: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). A pós-modernidade se orgulha de ser a era da informação, da inteligência artificial, dos “sábios e intelectuais” da tecnologia e das finanças. No entanto, toda essa engrenagem falha em nos dar paz. Por quê? Porque a lógica do mundo diz que o seu valor é igual à sua utilidade. Você vale o que produz, vale o que consome, vale o status que ostenta. Jesus quebra essa lógica e louva ao Pai porque o Reino é revelado aos pequeninos (Mt 11,25).  

O “pequenino” na pós-modernidade é aquele que tem a coragem de dizer: “Eu não sou uma máquina. Eu tenho limites. Eu sou humano”. Os humildes compreendem que o amor de Deus por nós é gratuito. Deus não nos ama pelo que fazemos, mas pelo que somos: seus filhos queridos. Descer da arrogância de tentar dar conta de tudo sozinhos é o primeiro passo para a cura. Mas precisamos compreender bem o que Jesus está nos oferecendo. O descanso em Deus não significa esmorecimento, preguiça ou uma fuga covarde das responsabilidades da vida. Jesus não nos promete anestesia ou isenção dos problemas. Logo após oferecer descanso, Ele diz: “Tomai sobre vós o meu jugo” (Mt 11,29). Ora, o jugo continua sendo uma ferramenta de trabalho. 

O descanso que Jesus oferece é uma recuperação profunda das forças, da saúde e das energias. É parar o ativismo estéril para reencontrar o sentido das coisas. Na engrenagem do mundo, nós paramos apenas quando o corpo adoece e quebra. Em Jesus, o descanso é um ato de confiança: nós paramos para lembrar que o mundo não gira em torno de nós, mas nas mãos de Deus. É um repouso que nos refaz por dentro, que devolve o oxigênio à alma e a sanidade à mente, para que possamos nos levantar novamente e carregar a cruz de cada dia com dignidade e esperança. 

Ao nos convidar a aprender d’Ele, que é “manso e humilde de coração”, Jesus propõe um estilo de vida alternativo à pressa doentia do nosso tempo. Ele nos convida a caminhar no seu ritmo. Quando dividimos o jugo com Ele, a nossa carga se torna suportável. O trabalho continua existindo, os boletos continuam chegando, os desafios familiares permanecem, mas o peso interno muda. Não carregamos mais a vida com o desespero de quem está sozinho, mas com a paz de quem caminha ao lado do Senhor da História. 

Irmãos e irmãs, que esta celebração seja hoje o nosso oásis. Deixemos no altar do Senhor as nossas fadigas, as cobranças do Mercado, as ansiedades pelo amanhã e a exaustão que nos rouba o sono. Sejamos pequenos o suficiente para aceitar que precisamos parar e receber o abraço de Deus. Que o Senhor nos restaure hoje, nos devolva a saúde do corpo e do espírito, para que continuemos nossa jornada firme e fielmente até o fim, até o dia em que, cruzada a linha de chegada desta vida, Ele mesmo tirará definitivamente todo jugo de nossos ombros e nos acolherá no descanso eterno de Suas moradas. Amém. 

 

 

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