Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Prosseguimos, neste Domingo, a nossa caminhada litúrgica no Tempo Comum, ainda iluminados pelas palavras do Senhor na “Montanha”. Se no domingo passado Jesus nos apresentou o “protocolo da santidade” através das Bem-aventuranças – que são o retrato do próprio Cristo e o caminho para a felicidade plena –, hoje o Evangelho de Mateus nos fala da identidade e da missão daqueles que acolhem essas bem-aventuranças.
Jesus não nos chama para formarmos um grupo fechado, uma elite espiritual isolada dos problemas do mundo. Pelo contrário, a Palavra de Deus hoje nos lança para a realidade, para o meio da nossa cidade, com todas as suas belezas e contradições. O Senhor nos diz duas palavras fundamentais que definem quem somos: Sal e Luz.
Para compreendermos a profundidade do Evangelho de hoje, precisamos olhar primeiro para a profecia de Isaías, na primeira leitura (Is 58,7-10). O profeta fala a um povo que questionava a Deus, achando que o jejum e os rituais, por si sós, garantiam a graça divina. Mas Deus responde com uma clareza desconcertante. O verdadeiro culto, aquele que faz brilhar a luz, passa necessariamente pelo amor ao próximo. O profeta diz: “Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne.” (Is 58, 7)
Vivemos em uma metrópole que clama por essa justiça. Não podemos dissociar a nossa fé vivida dentro da Igreja da nossa responsabilidade social nas ruas. Isaías nos ensina que a luz de Deus rompe a escuridão não através de mágicas, mas através da caridade concreta. “Então a tua luz romperá como a aurora”.
Muitas vezes, a escuridão que paira sobre a sociedade – a violência, a desigualdade, a indiferença – só será dissipada quando nós, cristãos católicos, assumirmos que o outro é “nossa carne”. A nossa Arquidiocese tem se empenhado em ser esse hospital de campanha, mas cada um de nós, em suas famílias e trabalhos, é chamado a ser esse reflexo da bondade de Deus. Quando nos doamos, a cura acontece para nós mesmos: “tua ferida vai sarar rapidamente”.
Na segunda leitura (1Cor 2,1-5), São Paulo nos dá uma lição de humildade pastoral que serve para mim, como bispo, para os sacerdotes, e para todos vós, leigos e leigas engajados na evangelização. Paulo chegou a Corinto não com “superioridade de palavras ou de sabedoria” (1Cor 2, 1). Ele diz: “entre vós não quis saber outra coisa a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” (1Cor 2, 2). Isso nos alerta contra a tentação de acharmos que a evangelização depende apenas da nossa eloquência, dos nossos recursos técnicos ou das nossas estruturas. Tudo isso é importante, sim, mas é meio, não é fim. A eficácia da nossa missão reside na força do Espírito Santo. Ser sal e luz não significa ser “brilhante” aos olhos do mundo, nem ter sucesso segundo os padrões do marketing. Significa ter uma vida tão unida à Cruz de Cristo que, mesmo na nossa fraqueza e simplicidade, o poder de Deus se manifeste. A nossa fé não se baseia na sabedoria humana, mas no poder de Deus.
Chegamos, então, ao coração da mensagem de hoje: o Evangelho (Mt 5,13-16). Jesus utiliza duas imagens domésticas, simples, mas carregadas de significado vital.
“Vós sois o sal da terra.” (Mt 5, 13) O sal tem duas funções primordiais no mundo antigo: dar sabor e conservar os alimentos da corrupção. O cristão deve dar sabor à vida. Onde há tristeza, o cristão leva a esperança (que é o sabor da eternidade). Onde há desânimo, o cristão leva a alegria do Evangelho. Uma comunidade cristã triste, meus irmãos, é um contrassenso. Se perdermos esse sabor, “para nada mais serve”, diz Jesus, senão para ser jogado fora. Mas o sal também preserva. Em uma sociedade muitas vezes marcada pela corrupção – não só a financeira, mas a moral, a corrupção dos valores, da família, do respeito à vida –, a presença dos cristãos deve impedir que o tecido social apodreça. Nós somos chamados a ser resistência contra a cultura de morte, preservando a dignidade humana.
E notem um detalhe importante: o sal, para fazer efeito, precisa se dissolver. Ele não existe para si mesmo. O sal na saleira não tempera nada. O cristão fechado na sacristia não evangeliza. É preciso misturar-se com a massa humana, sem perder a própria identidade, para transformar a realidade a partir de dentro.
“Vós sois a luz do mundo não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte.” (Mt 5, 14) Olhando para o nosso Rio de Janeiro, com seus morros e o Cristo Redentor de braços abertos sobre o monte, entendemos bem essa imagem. A luz não é para ser colocada debaixo de uma caixa, mas no candeeiro.
A luz tem uma característica: ela não faz barulho, mas muda tudo. Ela não se impõe pela força, mas permite que as pessoas enxerguem o caminho e evitem os tropeços. Contudo, Jesus faz um alerta crucial: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus.” (Mt 5, 16)
Atenção: “para que vejam as vossas boas obras”, não para que “vos aplaudam”. A finalidade da luz cristã não é a vaidade pessoal. Não somos nós a luz; Cristo é a Luz. Nós somos o reflexo. Como a lua que reflete o sol. Se as nossas obras de caridade, o nosso trabalho na pastoral, o nosso serviço aos pobres serve para nossa própria exaltação, a luz se apaga. Mas se, ao verem o nosso amor, as pessoas louvarem o Pai, então cumprimos nossa missão.
O Salmo de hoje (Sl 111) reforça: “O homem justo… é uma luz na escuridão”. Ele é compassivo, caridoso e justo.
O mundo de hoje precisa desesperadamente de sabor e de luz. Vemos tantas pessoas vivendo uma vida “insossa”, sem sentido, perdidas nas drogas, no consumismo ou na depressão. Vemos tantos caminhando nas trevas da solidão e do abandono.
A Igreja no Rio de Janeiro é chamada a ser esta “cidade sobre o monte”. Que em cada paróquia, em cada capela, em cada movimento e nova comunidade, mas principalmente em cada ambiente de trabalho, escola e família onde vós estais, o sabor de Cristo seja sentido.
Não tenhais medo de serdes católicos na vida pública. Não escondais a vossa fé. Que a vossa ética no trabalho seja luz. Que o vosso perdão em família seja sal. Que a vossa solidariedade com os moradores de rua seja o brilho da aurora profetizada por Isaías.
Como nos diz o Apóstolo, não vamos com discursos persuasivos de sabedoria humana, mas com a demonstração do Espírito e de poder, que se manifesta no amor concreto.
Peçamos a intercessão de São Sebastião, nosso padroeiro, que foi luz em meio às trevas do império romano, e voltemos o nosso olhar para a Virgem Maria. Ela, que é a “Aurora” que anuncia o Sol da Justiça, nos ensine a não reter a luz para nós, mas a irradiá-la para todos os cantos desta cidade.
