A justiça de Deus e a missão do filho amado 

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

 

Com a celebração da Festa do Batismo do Senhor, a liturgia da Igreja encerra o sagrado tempo do Natal e nos introduz na primeira etapa do Tempo Comum. Estamos no início do ano civil de 2026, um tempo que se abre diante de nós como uma página em branco, pronta para ser escrita com a tinta da nossa fé e do nosso testemunho cristão. A cena que o Evangelho deste Ano A (Mateus 3, 13-17) nos apresenta é de suma importância para compreendermos quem é Jesus e, consequentemente, quem somos nós como seus discípulos. 

Ao contemplarmos Jesus descendo às águas do Rio Jordão, deparamo-nos com um mistério profundo de humildade e solidariedade. João Batista, o Precursor, que pregava um batismo de conversão para o perdão dos pecados, fica perplexo. Ele reconhece a santidade daquele que se aproxima. Por isso, tenta impedi-lo, dizendo: “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”. A reação de João é compreensível. Jesus é o Cordeiro de Deus, aquele que não tem pecado. Por que, então, submeter-se a um rito destinado aos pecadores? 

A resposta de Jesus é a chave de leitura para todo o seu ministério público que se inaugura naquele momento: “Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça”. No linguajar bíblico de Mateus, “cumprir toda a justiça” não se refere à justiça jurídica ou legalista dos homens, mas sim à total adesão à vontade salvífica do Pai. A “justiça” é o plano de Deus para salvar a humanidade. Ao entrar na fila dos pecadores, Jesus não o faz para ser purificado, mas para assumir sobre seus ombros a condição humana, santificando as águas e abrindo para nós o caminho do renascimento. Ele desce ao abismo da nossa humanidade para nos elevar à dignidade de filhos de Deus. 

Este gesto de Jesus cumpre perfeitamente a profecia de Isaías, que ouvimos na primeira leitura (Is 42, 1-4.6-7). O Profeta nos apresenta o “Servo do Senhor”, aquele em quem Deus põe o seu agrado. Diferente dos poderosos deste mundo, que impõem sua vontade pela força e pelo grito, o Servo age com mansidão: “não gritará, nem fará ouvir a sua voz nas praças”. Ele vem para restaurar, não para destruir. “Não quebrará a cana rachada, nem apagará o pavio que ainda fumega”. Esta imagem é belíssima e consoladora para nós. Quantas vezes nos sentimos como uma cana rachada pelas dificuldades da vida, ou como um pavio quase apagado pelo desânimo e pelo pecado? Jesus, o Filho Amado, vem para curar a cana e reacender a chama da fé e da esperança. 

O Batismo no Jordão é uma Epifania — uma manifestação gloriosa da Santíssima Trindade e o início da vida pública de Jesus. O céu, que estava fechado pelo pecado da humanidade, se abre. O Espírito Santo desce sobre Jesus em forma corpórea, como pomba, ungindo-O para a missão. E a voz do Pai ressoa: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”. Aqui, a identidade de Jesus é revelada publicamente. Ele não é apenas mais um profeta; Ele é o Filho, o Ungido, o Messias esperado. 

Na segunda leitura, extraída dos Atos dos Apóstolos (At 10, 34-38), Pedro toma a palavra para confirmar que “Deus não faz acepção de pessoas”. A unção que Jesus recebeu no Jordão não foi para benefício próprio, mas para que Ele “passasse fazendo o bem e curando a todos os oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com ele”. A missão de Cristo é libertadora e universal. Ele foi ungido com o Espírito Santo e com poder para instaurar o Reino de Deus, um reino de justiça, amor e paz. 

Mas, o que esta festa diz a nós, hoje, em 2026? Ela nos recorda, fundamentalmente, do nosso próprio batismo. No dia em que fomos batizados, céus também se abriram sobre nós. Fomos lavados do pecado original, inseridos na morte e ressurreição de Cristo e tornamo-nos templos do Espírito Santo. A mesma voz que proclamou Jesus como Filho Amado, nos adota como filhos e filhas no Filho. Esta é a nossa maior dignidade: somos filhos de Deus! Nada nem ninguém pode nos tirar essa marca indelével. 

Contudo, o batismo não é apenas uma honra ou um rito social; é um compromisso de vida. Assim como Jesus saiu das águas para iniciar sua missão pública, nós também somos enviados. O Papa Francisco sempre nos recorda que somos “discípulos missionários”. Não podemos guardar a alegria do Evangelho apenas para nós. O mundo precisa, mais do que nunca, de cristãos que, a exemplo do Mestre, “passem fazendo o bem”. 

Vivemos em tempos desafiadores, onde muitas vezes a violência, a indiferença e o egoísmo parecem prevalecer. Em nossas grandes cidades, vemos tantas “canas rachadas” — irmãos e irmãs excluídos, sofrendo nas periferias existenciais e geográficas. Como batizados, somos chamados a ser a presença consoladora de Cristo para essas pessoas. Somos chamados a cumprir a justiça de Deus, trabalhando pela dignidade humana, pela paz e pela fraternidade. 

A descida do Espírito Santo sobre Jesus nos lembra que não estamos sozinhos nesta missão. O mesmo Espírito que ungiu o Senhor nos foi dado no Batismo e na Crisma. É Ele quem nos dá força, coragem e sabedoria para testemunhar a verdade em meio às contradições do mundo. 

Ao iniciarmos este Tempo Comum, peçamos a graça de redescobrir a beleza do nosso batismo. Que possamos renovar as nossas promessas batismais, renunciando a tudo o que nos afasta de Deus e professando nossa fé com vigor renovado. Que a nossa vida seja um reflexo da luz de Cristo, para que o Pai possa olhar para nós e ver, em nossas ações, a imagem do seu Filho Amado. 

Que Maria Santíssima, que acompanhou seu Filho desde o nascimento até a cruz, e estava presente no nascimento da Igreja em Pentecostes, nos ajude a viver com fidelidade a nossa vocação batismal neste ano que se inicia. 

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