A mulher: sacrário da vida e esperança de um mundo novo 

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

 

O Dia Internacional da Mulher não é apenas uma data de homenagens efêmeras ou de gestos simbólicos. Para nós, cristãos, e para todos aqueles que buscam a construção de uma civilização do amor, este dia é um chamado ao exame de consciência e à renovação de um compromisso inadiável: o reconhecimento pleno da dignidade feminina como alicerce sobre o qual se ergue a família, a Igreja e a própria sociedade. 

Ao percorrermos as páginas sagradas, percebemos que Deus frequentemente escolheu o coração feminino para manifestar Suas maiores delicadezas. No Antigo Testamento, vemos a figura de Rute, cuja fidelidade e resiliência nos ensinam que o amor vai além dos laços de sangue. Contemplamos Ana, que com suas lágrimas e orações insistentes, mostrou que a fé da mulher é capaz de mover o coração do Altíssimo. 

No Evangelho, encontramos o encontro transformador de Jesus com a Samaritana. Naquele diálogo junto ao poço, Cristo não apenas ofereceu a “água viva”, mas devolveu àquela mulher a sua dignidade roubada pelos julgamentos sociais. Jesus nunca viu na mulher um objeto ou um ser secundário; Ele a viu como interlocutora da Verdade. Recordamos também as irmãs de Betânia, Marta e Maria, que representam as duas faces da alma feminina: o serviço generoso e a escuta atenta. É essa síntese entre o “fazer” e o “ser” que torna a presença feminina indispensável em nossas comunidades. 

A estratégia de Deus para salvar a humanidade passou, necessariamente, pelo consentimento de uma mulher. Maria Santíssima é o nosso maior referencial. Ela não é apenas um ícone de pureza, mas uma mulher de fibra, que enfrentou a pobreza de Belém, o exílio no Egito e a dor indescritível do Calvário. 

Em Nossa Senhora, celebramos a força do silêncio que gera vida. Ela é a “Mãe das Dores”, mas também a “Causa da Nossa Alegria”. Ao olharmos para Maria, entendemos que a missão da mulher é ser esse sacrário vivo, onde a esperança é gestada e protegida. Exaltar a Virgem Maria é, portanto, um compromisso de lutar para que nenhuma mulher seja desamparada em sua maternidade, para que nenhuma mãe chore a perda de seus filhos para a violência ou para o abandono. 

É preciso falar com clareza aos homens: o respeito às mulheres não é um mérito, é uma obrigação intrínseca à nossa condição humana e cristã. Não há espaço para o autoritarismo ou para a opressão no plano de Deus. A masculinidade autêntica se manifesta na capacidade de proteger, honrar e caminhar lado a lado, nunca à frente ou acima. 

Infelizmente, ainda testemunhamos estatísticas alarmantes de violência e desigualdade. Como homens de fé, somos convocados a ser os primeiros a denunciar essas injustiças. O respeito deve começar nos pequenos gestos: na divisão das tarefas domésticas, no apoio à carreira profissional da esposa, no incentivo ao estudo das filhas e no combate a qualquer comentário ou atitude que reduza a mulher a uma condição inferior. A verdadeira força do homem está em sua capacidade de reconhecer e reverenciar a grandeza feminina. 

A Igreja Católica no Brasil respira através do trabalho incansável das mulheres. Se hoje temos paróquias vivas, é porque existem milhares de mulheres que, como Santa Dulce dos Pobres, não medem esforços para servir. Irmã Dulce não pedia licença para fazer o bem; ela simplesmente o fazia, movida por uma caridade que não conhece cansaço. Ela nos ensinou que a fragilidade física, quando unida à força do espírito feminino, é capaz de realizar milagres sociais. 

Não podemos esquecer de Santa Gianna Beretta Molla, que deu a vida por sua filha, ou de Santa Josefina Bakhita, que transformou o trauma da escravidão em um testemunho de liberdade em Deus. Mas quero aqui render uma homenagem especial às mulheres anônimas: as catequistas, as ministras da Eucaristia, as líderes da Pastoral da Criança e, especialmente, as mães e avós. São elas que guardam as chaves da fé. São elas que, com paciência infinita, ensinam o caminho da oração e mantêm acesa a chama da caridade em um mundo que muitas vezes parece mergulhado na indiferença. 

Neste Dia Internacional da Mulher, minha palavra é de profunda gratidão. Obrigado a você, mulher, por ser o reflexo da ternura de Deus na terra. Que o seu protagonismo cresça cada vez mais, não apenas por conquista política, mas por reconhecimento de sua essência vital. 

Rezamos para que as políticas públicas sejam mais justas, para que o mercado de trabalho seja mais humano e para que cada lar seja um santuário de paz e respeito mútuo. Que a bênção de Deus, por intercessão de Maria, acompanhe cada passo, cada luta e cada vitória de vocês. 

Com minha bênção e estima paterna. 

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