A oitava da Páscoa no cristianismo antigo

Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)

 

Os santos padres, os primeiros escritores cristãos tiveram presentes considerações importantes sobre a oitava da Páscoa na qual nós a estamos celebrando na comunidade com fé, com esperança e com caridade. A Páscoa é passagem da morte para a vida em Jesus Cristo. Ele é o eterno vivente, Aquele que não está mais no sepulcro (cf. Mt 28,5) está nas dimensões humana e divina, Jesus Cristo. Nós celebramos a eucaristia do Domingo de Páscoa, na qual a mensagem central é: Cristo ressuscitou dos mortos. Vejamos a seguir algumas afirmações fundamentais a respeito da oitava da Páscoa nos santos padres e ilumine a nossa realidade rumo à eternidade. 

O mistério pascal. 

Melitão de Sardes, Bispo no século II, Ásia Menor falou a respeito do mistério pascal que é ao mesmo tempo novo, segundo a Palavra de Deus que se fez carne (cfr. Jo 1, 14) e é antigo segundo a Lei; transitório, pela figura; eterno pela graça; corruptível pela imolação do cordeiro; incorruptível pela vida do Senhor; mortal pela sua sepultura e é também imortal pela sua ressurreição dentre os mortos1 

As descrições da Lei e da Palavra 

O Bispo de Sardes descreveu a Lei que na verdade é antiga, mas a Palavra é nova; a figura é transitória, mas a graça é eterna; se o cordeiro é corruptível, mas o Senhor é incorruptível. Ele foi imolado como cordeiro, mas Ele ressuscitou como Deus2. A Páscoa está em ligação profunda com o Senhor Jesus Ressuscitado dentre os mortos. 

Ovelha, Cordeiro: Deus, Cristo. 

A homilia tem presentes que Jesus era como ovelha levada ao matadouro, pela sua morte salvadora, e contudo não era ovelha; foi dito que era como cordeiro silencioso  (cfr. Is 53,7) e no entanto não era cordeiro. Na verdade a figura passou e apareceu a realidade perfeita, pois em lugar de um cordeiro, apareceu Deus; em vez de uma ovelha, apareceu Cristo que tudo contém3 

Deus-Homem. 

O Bispo de Sardes disse também que o Senhor, sendo Deus fez-se ser humano, homem, e sofreu por aquele que sofria, foi encarcerado em lugar do prisioneiro, condenado em vez do criminoso e sepultado em vez do que jazia no sepulcro, ressuscitou dentre os mortos. A ação do Senhor foi aquela de libertar o condenado, pois Ele deu a vida ao morto, ressuscitou o que estava sepultado. O Senhor Jesus Cristo que destruiu a morte, triunfou do inimigo, calcou aos pés o inferno, arrebatou o ser humano para as alturas dos céus4. 

Jesus se apresenta como o perdão, a Páscoa. 

Jesus Ressuscitado se apresenta como o perdão diante do pecado humano; Ele é a nossa Páscoa da salvação: o Cordeiro imolado para toda a humanidade, a água que purifica a todas as pessoas, a ressurreição, a luz, a nossa salvação5 

A sua missão salvadora passando por Jerusalém. 

Santo Anastácio, Bispo de Antioquia, século VI afirmou que Jesus Cristo, por suas palavras e ações sendo verdadeiro Deus e Senhor do Universo, disse que a sua missão salvadora deveria passar por Jerusalém: “Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos gentios, aos sumos sacerdotes e aos mestres da Lei, para ser escarnecido, flagelado e crucificado” (Mt 20,18.19). Jesus também estava em unidade com as predições dos profetas, que haviam anunciado a sua morte em Jerusalém6 

A salvação humana. 

O Bispo de Antioquia colocou o dado que a Sagrada Escritura havia predito a morte de Jesus com os sofrimentos que precederiam pelos julgamentos religioso e político dando as sentenças de morte de Jesus. O motivo essencial pelo qual o Verbo de Deus se submeteu à morte era a salvação humana7 na qual Jesus doou tudo de si para o bem e o amor a todas as pessoas da humanidade.   

O sofrimento de Jesus. 

Santo Anastácio disse que era preciso que Jesus Cristo padecesse pelo bem da humanidade pecadora. A sua paixão era necessária que acontecesse, porque foi o próprio Filho quem a declarou, pelo qual Ele chamou de insensatos e lentos de coração os que ignoravam que Cristo padecesse, para que assim Ele entrasse em sua glória (cfr. Lc 24,25-26). Desta forma Ele veio ao encontro de seu povo para salvá-lo, deixando aquela glória que tinha junto do Pai antes da criação do mundo. Por isso a salvação devia consumar-se por meio da morte do autor da vida em vista da vida da humanidade, tornando-se Ele desta forma, princípio da vida (cf. Hb 2,10)8. 

A glória divina dada por meio da cruz. 

A glória do Filho Unigênito, glória divina que por nossa causa Ele havia deixado por breve tempo, foi-lhe restituída por meio da cruz, pela encarnação do Verbo que Ele que tinha assumido. Desta forma a morte de Cruz era para Jesus no evangelho de São João, a glória: “Quando eu for elevado da terra atrairei todos a mim” (Jo 12,32). O Senhor orava antes de ser crucificado, pedindo ao Pai que o glorificasse com aquela glória que tinha junto dele, antes da criação do mundo (cfr. Jo 17, 5)9 

Os santos padres, os primeiros escritores cristãos escreveram homilias, textos maravilhosos a respeito da oitava da Páscoa, sendo um dia em oito dias e oitos dias num único dia, para especificar a importância do mistério pascal, de sua passagem da paixão, morte à ressurreição em vista da salvação humana e para a glória de Deus Uno e Trino.  

Tags:

leia também