Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
É com o coração cheio de gratidão que me dirijo a cada um, aqui do Rio de Janeiro, cidade que Deus habita e que tanto amo, para partilhar a Palavra que a Igreja nos oferece neste 16º Domingo do Tempo Comum. Que alegria poder, mais uma vez, se sentar à mesa da Palavra com o Povo de Deus disperso por tantos lugares!
A liturgia de hoje nos convida a contemplar dois mistérios centrais da nossa fé: a paciência misericordiosa de Deus e a força discreta, mas invencível, do seu Reino. São ensinamentos que tocam profundamente a vida de cada família, de cada comunidade, de cada pessoa que carrega em si a semente do bem, mas também as fragilidades próprias da nossa condição humana.
A misericórdia como marca da força de Deus. A primeira leitura – Sb 12,13.16-19 – apresenta-nos uma imagem belíssima da natureza de Deus. O texto afirma que a força divina é o princípio da sua justiça, e que justamente por ser onipotente, Deus pode se dar ao luxo de ser indulgente com todos nós. Isso é algo que precisamos meditar com atenção: não é a fraqueza que gera a misericórdia, mas a verdadeira força. Só quem tem domínio total pode escolher, livremente, exercer clemência.
Quantas vezes pensamos o contrário em nossa vida cotidiana! Julgamos que ser rigoroso, cortante, implacável é sinal de firmeza. Mas o livro da Sabedoria nos ensina exatamente o oposto: Deus, que tudo pode, prefere nos governar com grande misericórdia. E há uma frase que considero uma das mais
consoladoras de toda a Escritura, quando o texto afirma que Deus deu a seus filhos a confortadora esperança de que concede o perdão aos pecadores.
Isso não é permissividade com o mal. É, antes, um convite para que também nós sejamos humanos, misericordiosos, capazes de compreender as fragilidades do próximo antes de condenar. O salmo responsorial reforça essa mesma verdade quando canta, no Sl 85(86),5-6.9-10.15-16, que o Senhor é bom e clemente, cheio de amor, paciência e perdão. Que belo retrato do coração de Deus revelado a nós!
O Espírito que intercede pela nossa fraqueza: Na segunda leitura, extraída de Rm 8,26-27, São Paulo nos oferece um dos ensinamentos mais tocantes sobre a oração cristã. O apóstolo reconhece algo que todos nós já experimentamos: muitas vezes não sabemos o que pedir, nem como pedir a Deus. Diante das dores da vida, das incertezas do futuro, dos silêncios que às vezes parecem tão longos, a nossa oração fica travada, gemida, incompleta.
E é justamente aí que a fé cristã revela sua beleza mais profunda: não estamos sozinhos nessa luta. O próprio Espírito Santo intercede por nós, com gemidos inefáveis, diante do Pai que penetra o íntimo dos corações. Que consolo maior poderia haver do que saber que, mesmo quando não conseguimos formular nossas próprias súplicas, o Espírito de Deus já está trabalhando dentro de nós, transformando nossa fraqueza em oferenda agradável ao Pai?
Isso nos convida a uma vida de maior confiança e menor ansiedade na oração. Não precisamos ter sempre as palavras certas. Basta o coração aberto, disponível, disposto a escutar aquilo que São Paulo chama de gemidos inefáveis, que o Espírito conhece e transforma.
O joio e o trigo: a paciência divina diante do mistério do mal: O Evangelho segundo Mt 13,24-43 nos apresenta a parábola que talvez melhor sintetize toda a mensagem deste domingo. Jesus fala de um homem que semeou boa semente em seu campo, mas durante a noite, enquanto todos dormiam, o inimigo veio e semeou joio junto ao trigo. Quando os empregados percebem a mistura, querem arrancar imediatamente as plantas ruins. Mas o dono do campo responde com uma sabedoria que nos surpreende: deixai crescer um e outro até a colheita.
Essa parábola fala diretamente à realidade da nossa cidade e da nossa própria alma. Vivemos numa sociedade onde o bem e o mal convivem lado a lado, às vezes tão próximos que fica difícil discernir com clareza onde termina um e começa outro. E a tentação de muitos é sempre a mesma: arrancar imediatamente tudo o que parece joio, julgar, condenar, separar de forma apressada.
Jesus, porém, nos ensina outra lógica, a lógica da paciência divina. Deus sabe que o julgamento definitivo não é tarefa nossa, mas dele, e que ele o fará no tempo certo, com a justiça e a misericórdia que só a ele pertencem. Isso não significa indiferença ao mal, muito menos complacência com o pecado. Significa, sim, confiar que a colheita final está nas mãos de Deus, e que a nossa missão, enquanto isso, é continuar semeando o bem com perseverança.
A pequenez que gera grandeza: O mesmo capítulo do Evangelho nos oferece ainda duas outras parábolas belíssimas, a do grão de mostarda e a do fermento. Ambas revelam algo essencial sobre a natureza do Reino de Deus: ele começa pequeno, quase invisível, mas cresce com uma força silenciosa e transformadora. A menor de todas as sementes se torna árvore capaz de abrigar
os pássaros do céu. Um pouco de fermento é suficiente para fazer toda a massa crescer.
Quantas vezes olhamos para nossos gestos de fé, nossas pequenas obras de caridade, nossas orações discretas, e pensamos que são insignificantes diante dos grandes desafios do mundo! Mas Jesus nos assegura que é exatamente assim que o Reino de Deus se manifesta: através da fidelidade cotidiana, do amor que se doa em pequenos gestos, da esperança que resiste mesmo quando tudo parece pequeno demais para fazer diferença.
Aqui no Rio de Janeiro, tantas vezes vejo isso acontecer. Comunidades pequenas, catequistas dedicados, famílias simples que semeiam o bem sem alarde, e que, com o tempo, veem florescer frutos de conversão e de vida nova que jamais imaginariam possíveis. É a semente de mostarda se transformando em árvore. É o fermento fazendo crescer toda a massa.
Um convite à esperança e à missão: Diante dessa Palavra tão rica, quero deixar um convite simples, mas profundo, a cada um de vocês. Primeiro, que aprendamos a confiar mais na misericórdia de Deus, tanto para conosco mesmos quanto para com os outros, sabendo que ele julga com clemência e nos governa com grande consideração, como nos ensina o Livro da Sabedoria.
Segundo, que na oração encontremos alívio para as nossas fraquezas, confiando que o Espírito Santo intercede por nós mesmo quando não sabemos como orar, conforme nos recorda São Paulo aos Romanos.
Terceiro, que tenhamos paciência diante do mistério do mal presente no mundo e em nós mesmos, sem cair na tentação de julgamentos apressados, confiando o desfecho final à justiça amorosa de Deus.
E, por fim, que jamais desanimemos diante da pequenez de nossos gestos de fé, pois é justamente das pequenas sementes que nasce a grandeza do Reino de Deus.
Que Nossa Senhora, mestra na arte da confiança silenciosa, e São Bento, patriarca do monaquismo do qual sou filho pela vida cisterciense, nos ajudem a viver com fidelidade estas palavras. Que o Cristo Redentor, que do alto do nosso Corcovado abraça esta cidade e cada um de seus filhos, continue derramando sobre todos nós a graça da esperança que não decepciona.
Rezemos para que sejamos, cada dia mais, uma Igreja que semeia esperança onde quer que estejamos, para que todos sejam um, como nos recorda o profeta João no capítulo dezessete, versículo vinte e um.
Um abraço fraterno e uma bênção especial para cada um de vocês e suas famílias.
