Bispo de Frederico Westphalen (RS)
16º Domingo do Tempo Comum Ciclo A
No 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja nos convida a contemplar um Deus paciente, misericordioso e cheio de sabedoria. As leituras revelam um Senhor que não age com pressa ou vingança, mas com amor que espera, educa e transforma. Este domingo nos desafia a interiorizar essa lógica divina: em vez de julgar e excluir precipitadamente, aprendamos a ser humanos, tolerantes e cheios de esperança.
A Primeira Leitura, do Livro da Sabedoria (Sb 12,13.16-19), apresenta um Deus todo-poderoso que, apesar de sua força, é indulgente com todos. “Vós, o Senhor da força, julgais com bondade e governais-nos com muita indulgência”, afirma o texto. Deus ensina que o justo deve ser humano e dá aos pecadores espaço para o arrependimento. Essa mensagem é revolucionária: o Criador não destrói imediatamente os ímpios, mas oferece oportunidades de conversão. Ele nos convida a imitar sua misericórdia no trato com os irmãos.
O Salmo Responsorial (Sl 85) reforça esse tema: “Senhor, sois um Deus clemente e compassivo, paciente e cheio de misericórdia”. É um grito de confiança no Deus que acolhe a oração e se inclina sobre a fraqueza humana.
Na Segunda Leitura, São Paulo (Rm 8,26-27) nos fala do Espírito Santo que vem em auxílio da nossa fraqueza. Muitas vezes não sabemos orar como convém, mas o Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. Deus conhece o coração e acolhe nossas aspirações mais profundas. Essa presença do Espírito é sinal da bondade divina que nos acompanha na caminhada, mesmo quando tropeçamos.
O Evangelho (Mt 13,24-43) é o ponto alto desta celebração. Jesus propõe três parábolas sobre o Reino dos Céus. A primeira, a do trigo e do joio, é particularmente impactante. Um homem semeia boa semente, mas o inimigo planta joio durante a noite. Os servos querem arrancar o joio imediatamente, mas o dono responde: “Não! Não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo. Deixai-os crescer ambos até à ceifa”.
Jesus explica: o campo é o mundo, a boa semente são os filhos do Reino, o joio são os filhos do Maligno, a ceifa é o fim dos tempos e os ceifeiros são os anjos. A mensagem é clara: no mundo, bem e mal coexistem. Arrancar o mal prematuramente pode prejudicar o bem. Deus permite que ambos cresçam, dando tempo à conversão. No final, a justiça será feita com perfeição. Essa parábola nos liberta do desejo de pureza absoluta aqui e agora e nos chama à paciência e à confiança na ação de Deus.
As outras parábolas completam o quadro. O grão de mostarda, a menor das sementes, cresce e se torna uma grande árvore onde as aves se abrigam. O fermento, misturado na farinha, faz levedar toda a massa. O Reino de Deus começa pequeno, quase imperceptível, mas tem um poder transformador irresistível. Ele cresce silenciosamente, invade a realidade e produz frutos abundantes.
Essas imagens falam diretamente à nossa realidade. Vivemos num mundo marcado por contradições: bondade e maldade, justiça e injustiça, santidade e pecado. Muitas vezes, queremos soluções radicais e imediatas. Jesus nos ensina outra via: a do cultivo paciente, da oração confiante e da semeadura constante do bem. O Reino não é um clube de perfeitos, mas um espaço de crescimento onde a graça pode tocar até os mais afastados.
Na atualidade, essa liturgia tem enorme atualidade. Em tempos de polarização, cancelamento e julgamentos rápidos nas redes sociais, a Palavra nos chama à misericórdia. Não se trata de omissão diante do mal, mas de discernimento sábio: combater o erro sem destruir a pessoa, educar em vez de condenar, semear esperança onde parece reinar o desânimo.
A Igreja, como campo de Deus, é chamada a ser sinal desse Reino. Seus membros devem cultivar a paciência, o diálogo e a acolhida. Os pais, educadores e líderes são convidados a não desistir das “plantas fracas”, mas a cuidar com amor, sabendo que a ceifa final pertence a Deus.
Que este Domingo nos ajude a renovar a confiança no Deus misericordioso. Que o Espírito interceda por nós, que o fermento do Evangelho nos transforme e que o pequeno grão de mostarda da nossa fé cresça até abrigar muitos. Assim, tornamo-nos verdadeiramente filhos do Reino, humanos como o Pai celeste é humano. Amém.
