Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Irmãos e irmãs, a Oitava da Páscoa não é apenas um prolongamento festivo, mas uma verdadeira chave de leitura para compreender o mistério central da fé cristã. Durante esses oito dias, a Igreja não “recorda” a Páscoa como algo passado; ela a vive como realidade presente. É como se o tempo fosse suspenso para que possamos permanecer diante do túmulo vazio e deixar que essa verdade transforme profundamente a nossa existência.
Há, porém, um risco: reduzir a Páscoa a uma emoção momentânea ou a um simples simbolismo religioso. A Oitava nos confronta com algo muito mais exigente. Se Cristo ressuscitou, então toda a lógica da nossa vida precisa mudar. Não faz sentido continuar vivendo como se a morte tivesse a última palavra, como se o pecado fosse inevitável ou como se Deus estivesse distante.
A liturgia desses dias insiste nas aparições do Ressuscitado. Ele não aparece a pessoas perfeitas, mas a discípulos frágeis, medrosos e até incrédulos. Isso revela algo essencial: a ressurreição não é prêmio para os bons, mas ponto de partida para os que se deixam transformar. Tomé duvida, Pedro carrega o peso da negação, os discípulos se escondem — e é justamente a eles que Jesus se manifesta. A Oitava da Páscoa, portanto, é também um tempo de confronto com a nossa própria incredulidade.
Outro aspecto importante é que o Ressuscitado sempre toma a iniciativa. Ele vai ao encontro, entra onde as portas estão fechadas, oferece a paz antes mesmo de qualquer pedido de perdão. Isso desmonta a ideia de um Deus distante ou condicionado. A Páscoa revela um Deus que invade a história humana, não para condenar, mas para reconstruir.
Mas essa experiência não pode permanecer intimista. Toda aparição termina com envio. “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio.” A Oitava da Páscoa não é um refúgio espiritual; é um impulso missionário. Quem encontra o Ressuscitado não pode permanecer fechado em si mesmo. A fé pascal, quando autêntica, rompe o isolamento e gera testemunho.
Há ainda um elemento frequentemente ignorado: a insistência da Igreja em celebrar cada dia como solenidade. Isso não é mero detalhe litúrgico, mas uma pedagogia espiritual. Somos educados a sair da superficialidade, da pressa e da dispersão. O mundo passa rapidamente de uma coisa para outra; a Igreja, ao contrário, nos obriga a permanecer. Permanecer na alegria, permanecer na verdade, permanecer na presença de Cristo.
E aqui está talvez o ponto mais desafiador: permanecer. Porque é fácil celebrar um dia, difícil é sustentar uma vida nova. A Oitava da Páscoa nos ensina que a ressurreição não é um instante, mas um caminho. Não é um entusiasmo passageiro, mas uma transformação contínua.
Por fim, viver bem a Oitava é aceitar que a ressurreição de Cristo exige uma decisão concreta: ou vivemos como ressuscitados, ou continuamos presos à lógica do sepulcro. Não há neutralidade possível. A alegria pascal não é superficial; ela nasce da certeza de que o mal e a morte foram vencidos, mas exige de nós coerência de vida.
Assim, mais do que repetir “Feliz Páscoa”, somos chamados a nos tornar sinais vivos da Páscoa. E isso implica abandonar tudo aquilo que ainda pertence às trevas e caminhar, com firmeza, na luz do Ressuscitado.
