Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
A performatividade da Palavra: luz e sentença para o nosso tempo
A Igreja Católica, neste dia 25 de janeiro de 2026, celebra o VII Domingo da Palavra de Deus. A liturgia do III Domingo do Tempo Comum ganha, assim, uma nota distintiva de urgência e centralidade. Celebramos a Pessoa de Jesus Cristo, o Verbo encarnado, que continua a dialogar com sua Esposa, a Igreja. O Papa Francisco, de venerável memória, instituiu esta data em 2019 através da Carta Apostólica Aperuit Illis. Ele compreendeu, com profetismo, que a comunidade cristã necessitava de um momento litúrgico específico para realçar a supremacia da Escritura na vida e na missão eclesial. Hoje, sob o pontificado de Sua Santidade o Papa Leão XIV, a Igreja reafirma este compromisso. Pedro muda de nome, mas a rocha da Palavra permanece inalterada. Em nossa arquidiocese escolhemos essa data para a instituição dos novos catequistas, assim como um encontro com os grupos de círculos bíblicos, a pastoral com a Palavra de Deus e outros grupos.
A teologia católica afirma que a religião cristã é a religião da “Palavra de Deus”, não de uma palavra escrita, mas do Verbo encarnado e vivo. Entretanto, a Escritura Sagrada ocupa um lugar insubstituível. O Concílio Ecumênico Vaticano II, na Constituição Dogmática Dei Verbum, ensina que a Igreja sempre venerou as Divinas Escrituras da mesma forma que venera o próprio Corpo do Senhor. Nas celebrações litúrgicas, a Igreja distribui aos fiéis o pão da vida, que ela toma da mesa tanto da Palavra de Deus quanto do Corpo de Cristo.
Existe, portanto, uma quase-sacramentalidade na proclamação da Palavra. Quando o leitor proclama as Escrituras na Igreja, é o próprio Cristo quem fala. A palavra hebraica Dabar significa tanto “palavra” quanto “acontecimento” ou “ato”. A Palavra de Deus não apenas informa; ela realiza. Ela opera aquilo que enuncia. No “haja luz” do Gênesis, a luz existiu. Na absolvição sacramental, o pecado desaparece. A eficácia da Palavra independe da eloquência humana, pois carrega em si a potência do Espírito Santo.
Neste domingo, a Igreja recupera a consciência de que a Bíblia não serve apenas para instrução intelectual. Ela serve para a constituição do ser cristão. Sem a Palavra, o Sacramento corre o risco de cair no ritualismo mágico; sem o Sacramento, a Palavra corre o risco de cair no intelectualismo gnóstico. A unidade entre Bíblia e Liturgia garante a saúde espiritual do Povo de Deus.
O Papa Francisco instituiu este domingo com uma intenção pedagógica e mistagógica clara. Ele escolheu o III Domingo do Tempo Comum por sua proximidade com a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (no hemisfério norte) e com as comemorações do diálogo judaico-cristão e por estar no início do tempo comum. A data possui um valor ecumênico intrínseco. As Escrituras constituem o vínculo indelével que une os cristãos de diferentes confissões e nos liga ao povo da Antiga Aliança.
O atual Sumo Pontífice, ao manter e incentivar esta celebração, demonstra que a centralidade da Bíblia transcende estilos de governo ou preferências pessoais. A Igreja obedece ao Senhor. E o Senhor ordena: “Ide e ensinai”. O ensinamento brota da fonte bíblica. A continuidade entre os pontificados revela que a Palavra de Deus sustenta a Cátedra de Pedro, e não o contrário.
A Carta Aperuit Illis evoca o episódio dos discípulos de Emaús. Jesus, em pessoa, “abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras”. O verbo “abrir” é a chave. Muitos fiéis possuem a Bíblia fechada em suas estantes e fechada em seus entendimentos. A Igreja dedica este dia para “abrir” o livro e “abrir” os ouvidos. O analfabetismo bíblico constitui a maior fragilidade do catolicismo contemporâneo. Um católico que desconhece a Escritura desconhece a Cristo, conforme sentenciou São Jerônimo séculos atrás.
A leitura da Bíblia exige chaves de leitura adequadas. O fundamentalismo, que interpreta o texto ao pé da letra sem considerar o gênero literário, o contexto histórico e a tradição viva da Igreja, representa uma traição ao texto sagrado. A Igreja Católica propõe a leitura dentro da Comunidade e sob a guia do Magistério. O Espírito Santo, que inspirou os autores sagrados, também assiste a Igreja na interpretação.
O método privilegiado para a apropriação do texto bíblico é a Lectio Divina. Esta prática monástica, hoje patrimônio de todo o povo de Deus, consiste em degraus espirituais: leitura (lectio), meditação (meditatio), oração (oratio) e contemplação (contemplatio). O fiel lê o texto, rumina seu significado, dialoga com Deus a partir do texto e, finalmente, repousa em Deus além das palavras.
A celebração deste domingo propõe que as paróquias, as novas comunidades e os movimentos eclesiais formem seus membros nesta arte. A Bíblia precisa sair do ambão e chegar à mesa das famílias. O pai e a mãe devem abençoar os filhos com versículos bíblicos. Os jovens devem encontrar nas páginas sagradas as respostas para suas inquietações existenciais. A Palavra deve moldar a cultura, a arte e o pensamento.
Ao olharmos para o Brasil neste início de 2026, encontramos uma nação que busca rumos. A polarização ideológica e as desigualdades sociais ferem o tecido da nossa sociedade. Diante disso, a Palavra de Deus atua como espada de dois gumes (Hb 4,12), que penetra até a divisão da alma e do espírito. Ela julga os pensamentos e as intenções do coração.
A Bíblia não oferece receitas políticas prontas, mas oferece os critérios inegociáveis para a construção da Cidade de Deus no meio da cidade dos homens. Os profetas do Antigo Testamento, como Amós e Isaías, denunciaram a injustiça e a opressão com veemência. Jesus, no Evangelho, radicalizou o mandamento do amor e identificou-se com os pequeninos.
O cristão brasileiro de 2026 precisa ler a Bíblia com os pés no chão da realidade. A Palavra exige conversão. Ela denuncia a corrupção, a violência, o descarte da vida humana desde a concepção até o fim natural, e a indiferença para com os pobres. A leitura bíblica que não resulta em compromisso ético e caridade fraterna torna-se estéril. A Palavra impulsiona à missão. Uma Igreja que se debruça sobre a Escritura inevitavelmente se levanta para servir.
Este domingo também interpela diretamente os sacerdotes, diáconos e catequistas. A homilia possui um caráter “quase” sacramental. O pregador tem a obrigação grave de preparar a homilia com estudo e oração. O povo tem fome da Palavra, não de opiniões pessoais ou sociologismos vazios. A homilia deve expor o mistério de Cristo à luz das leituras proclamadas.
A qualidade da proclamação litúrgica também merece atenção. Os leitores devem preparar-se técnica e espiritualmente. A proclamação malfeita, inaudível ou inexpressiva, obscurece a beleza de Deus. O Ambão é o Trono da Palavra. Ele exige dignidade, nobreza e destaque no presbitério.
“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos a ele e faremos nele morada” (Jo 14, 23). A promessa de Jesus encerra o mistério deste domingo. Quem guarda a Palavra torna-se templo da Trindade. A Bíblia, portanto, não é um objeto externo, mas o material de construção da nossa vida interior.
Que estge domingo marque um novo início. Que cada católico assuma o compromisso solene de ler um capítulo do Evangelho por dia. Que os grupos de círculos bíblicos se multipliquem em nossa Arquidiocese. Que a ignorância da Escritura diminua e o amor por Cristo aumente.
O Papa Francisco plantou esta semente. O Papa Leão XIV a rega com sua autoridade apostólica. Cabe a nós, Povo de Deus, dar os frutos. A Palavra está perto de nós, em nossa boca e em nosso coração. Basta acolhê-la, vivê-la e anunciá-la.
