Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)
O quinto domingo da Quaresma coloca a liturgia, pelo Evangelho de São João, o relato da ressurreição de Lázaro (cfr. Jo 11,1-45), merecendo um destaque pelo Evangelista, porque foi um grande milagre do Senhor Jesus Cristo manifestando todo o seu poder diante da morte de uma pessoa e de um amigo de Jesus, Lázaro, cujo significado é: “Deus ajuda” sendo irmão de Marta e de Maria, pessoas próximas e amigas de Jesus. No tempo da Quaresma a Igreja vislumbra a ressurreição de Lázaro como uma prefiguração da ressurreição de Jesus Cristo, vencedor do pecado e da morte. É importante perceber este relato de São João em Santo Agostinho, Bispo nos séculos IV e V em Hipona, no Norte Africano.
A realização celebrativa do milagre do Senhor
Santo Agostinho disse que entre todos os milagres que fez Nosso Senhor Jesus Cristo, é celebrado de uma forma grandiosa, celebrativa, a ressurreição de Lázaro. Na verdade Jesus ressuscitou uma pessoa humana, Aquele que fez o ser humano, pois é Ele o Único do Pai, por meio do qual tudo foi feito (cfr.Jo 1,3), pelo fato de que por meio d´Ele muitas pessoas nascem e também partem deste mundo. Desta forma a criação é dada para todos os seres vivos, ressuscitá-los é também obra divina. Tendo presente que Jesus fez muitas coisas, mas que nem todas foram escritas pelo evangelista João, este escolheu aquelas que são suficientes à salvação dos que crêem (cfr. Jo 20,30).
A ressurreição de um morto
O bispo de Hipona falou que Jesus ressuscitou um morto. Se Ele quisesse, o Salvador ressuscitaria a todos os mortos, porque Ele tem este poder, mas o Senhor reservou esta verdade de fé para o final dos tempos, do mundo. Lázaro estava morto a quatro dias e o Senhor ressuscitou a uma pessoa que já cheirava mal. A palavra de Jesus era realizada no qual virá a hora em que todas as pessoas que se acharem nos sepulcros à voz do Senhor, sairão dos sepulcros (cfr. Jo 5,28).
A ressurreição de Lázaro é um sinal
São João colocou a ressurreição de Lázaro como um grande sinal do Senhor manifestando toda a sua glória de Filho de Deus, enviado do Pai em comunhão com o Espírito Santo. O sinal é o milagre da qual a vida é retomada de novo, pelo poder de Jesus, porque Ele tem o poder sobre a morte na vida das outras pessoas mas também em sua morte. O Pai o ressuscitará. Jesus é a vida verdadeira.
As três ressurreições feitas pelo Senhor
Santo Agostinho afirmou que Jesus ressuscitou três pessoas na sua missão evangelizadora e salvadora neste mundo. Ele ressuscitou a filha do chefe da sinagoga (cfr. Mc 5,41-42); Ele ressuscitou o jovem filho da viúva que era trazido para fora das portas da cidade (cfr. Lc 7,14-15) e Ele ressuscitou Lázaro, sepultado a quatro dias (cfr. Jo 11, 1-54).
Ele caiu doente
O Evangelho afirmou que Lázaro caiu doente tendo como irmãs Marta e Maria (cfr. Jo 11,1) que mandaram dizer a Jesus que o seu irmão estava doente. Jesus estava ausente, para além do Jordão. Elas desejavam que Jesus fosse até lá para libertá-lo da doença. Elas não disseram que onde Ele estivesse, pudesse curá-lo, uma vez que tinha este poder. Elas simplesmente disseram; “Senhor, aquele que tu amas está enfermo” (Jo 11,1)4. A resposta de Jesus ressaltou que aquela enfermidade não era para morte, mas para a glória de Deus, na qual Ele seria glorificado como o Filho de Deus (cfr. Jo 11,4). As pessoas iriam acreditar que Jesus era o Filho de Deus. O Filho seria glorificado, tendo como finalidade a glória de Deus.
O amor de Jesus para aquela família
Jesus amava Marta, Maria, sua irmã e Lázaro (Jo 11,5). Era a demonstração de sua humanidade e de seu amor para com aquelas pessoas jovens, adultas. Se antes aquele local na Judéia poderia ser apedrejado pelos judeus (cfr. Jo 11,8-9), agora voltaria para manifestar a sua potestade6, o seu poder como Filho de Deus diante da morte. Jesus disse para os seus discípulos que quem caminha de dia não tropeça, porque vê a luz deste mundo, porque Ele era a luz do mundo (cfr. Jo 9,5). No entanto quem caminha de noite tropeça, porque a luz não está nele (Jo 11, 9-10). É preciso invocar o Dia, o Senhor, para que expulse a noite e faça iluminar com a sua luz os corações das pessoas. Jesus quis dizer que era para os discípulos o seguirem porque assim como a luz ilumina o dia, fazendo a pessoas não tropeçar, assim Ele é a luz das pessoas e naquele caso, a morte do amigo, Ele seria a ressurreição de todas as pessoas.
A morte como um sono
Jesus disse que Ele iria despertar Lázaro, o seu amigo, pois ele estava dormindo (cfr. Jo 11,11). No entanto para as irmãs, ele estava morto, mas para o Senhor estava dormindo. O fato era que ele estava morto para os seres humanos, os quais não o podiam ressuscitar Lázaro dos mortos, mas não para o Senhor que o faria logo mais com o seu poder de Deus na terra8. Os seus discípulos disseram que se ele estava dormindo, há de salvar-se (cfr. Jo 11,11-12), pois o sono costuma ser indício de saúde dos doentes. Era claro que Jesus estava falando da sua morte, como um sono9.
Quatro dias da morte
Jesus chegou a casa das irmãs após quatro dias da morte de Lázaro, que ele estava no sepulcro (cfr. Jo 11,15-17). Enquanto Maria estava em casa, Marta ficou sabendo que Jesus chegara e foi-lhe ao seu encontro não pedindo que o ressuscitasse, ainda que Ele o soubesse e faria este grande acontecimento, mas ela tinha consciência de que tudo o que Jesus pediria a Deus, Deus iria lhe conceder (cfr. Jo 11, 19-22). Jesus lhe garantiu que o seu irmão ressuscitaria dos mortos (cfr. Jo 11,24), porque Ele é a ressurreição e a vida (cfr. Jo 11, 25)10. É a ressurreição por ser a vida11. Aquele que crê no Senhor, ainda que esteja morto, viverá e toda pessoa que vive e crê em Jesus, jamais morrerá (cfr. Jo 11,25-26).
O choro de Jesus
O evangelista São João colocou um dado importante que foi o choro de Jesus. Este fato ocorreu quando Marta chamou a sua irmã Maria que foi ao encontro de Jesus e ela prostrou-se diante dele e ao vê-la chorar, Jesus também chorou a morte de seu amigo Lázaro. Por isso Ele perguntou onde o puseram? (cfr. Jo 11,32-34)13. Nós vemos neste episódio segundo o Bispo de Hipona que o Verbo assumiu a alma e a carne, sujeitando a si, em unidade de Pessoa, a natureza do ser humano inteiro. Foram realizadas as palavras do evangelista: “O Verbo se fez carne”(Jo 1,14). Assim a alma e a carne de Jesus Cristo conformam uma única Pessoa com o Verbo de Deus, um único Cristo14. Na voz de quem freme, se perturba, no caso naquela de Jesus, aparece a esperança de quem ressuscita15. No caso Jesus chorou a morte de seu amigo, Lázaro, tendo presente a sua humanidade para com todos os sofredores16. Jesus perguntou: Onde o pusestes? Tal é a voz de Deus no paraíso, após o ser humano ter pecado: Onde está? (cfr. Gn 3,9). As pessoas responderam a Jesus: Senhor, vem e vê (Jo 11,34).
Jesus foi junto ao sepulcro
Jesus mandou tirar a pedra (cfr. Jo 11,39). Para o Bispo de Hipona tratava-se de tirar o peso da Lei e agora se abre o tempo da graça no caso, Jesus, para todas as pessoas que aderem a sua Vontade17. As pessoas tiraram a pedra e Jesus levantando os olhos ao alto fez uma prece de louvor ao Pai que estava rendendo graças porque o ouviu, de modo que Jesus falou aquelas coisas em vista do povo para que creiam que Ele o enviou ao mundo (cfr. Jo 11,40-43) 18. Em seguida Jesus disse em alta voz: “Lázaro, vem para fora, O morto veio para fora tendo as mãos e os pés atados com faixas e rosto coberto por um sudário” (cfr. Jo 43-44)19. Jesus manifestou todo o seu poder diante da morte, porque Ele vence a morte e o pecado. Jesus mandou desligá-lo e deixá-lo ir (cfr. Jo 11,44).
O evangelista disse que muitos dos judeus que foram à casa de Maria, e visto que Jesus fizera, creram n`Ele e outros foram aos fariseus e lhes contaram o que Jesus fizera (cfr. Jo 11,45-46)21. O grande milagre da ressurreição de Lázaro pelo Senhor que o fez dando um dom para as pessoas, resultando que muitas cressem em Jesus como o Ressuscitador dos mortos, no entanto, outros quiseram decretar a sua morte, na pergunta: O que faremos (Jo 11,48). Eles ficaram agarrados às realidades terrestres e não tanto à realidade do Salvador, porque aquele local seria destruído pelos romanos, por não acolherem o Salvador da Humanidade (cfr. Jo 11,47-8)22. Mas Jesus ressuscitou o seu amigo, Lázaro dando-lhe novamente a vida, porque Ele é a ressurreição e a vida. A morte não é o fim de nossa existência, mas ela é uma passagem para a outra vida, a vida divina, para uma vida fundamentada no amor a Deus, ao próximo como a si mesmo.
