Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Antigamente o Segundo Domingo da Páscoa era conhecido como Domingo “in albis”. Foi o grande Papa São João Paulo II que, no ano da redenção de 2000, consagrou o segundo domingo do tempo pascal como o domingo da Divina Misericórdia. A liturgia deste domingo convida-nos a contemplar a comunidade de homens novos que nasce da cruz e da ressurreição de Jesus – a Igreja. Jesus ressuscitado, no próprio dia da ressurreição, confia à sua comunidade a missão de dar testemunho no mundo do amor e da misericórdia de Deus. A Ressurreição de Jesus representa uma ocasião privilegiada para o reavivamento da fé do seu povo, que agora caminha sob a luz e sob a graça do Senhor Ressuscitado.
O Evangelho – Jo 20,19-31 – apresenta a comunidade da Nova Aliança, nascida da atividade criadora e vivificadora de Jesus. É uma comunidade que se reúne à volta de Jesus ressuscitado, que recebe d’Ele Vida, que é animada pelo Seu Espírito e que dá testemunho no mundo da Vida nova de Deus. Quem quiser “ver” e “tocar” Jesus ressuscitado, deve procurá-l’O no meio dessa comunidade que d’Ele nasceu e que d’Ele vive. A comunidade primitiva recebe o dom do Espírito Santo e conta com a presença do Ressuscitado. As comunidades cristãs, fundamentadas no Evangelho, vivem e propaguem a paz e a reconciliação, superando uma sociedade ferida pela intolerância, pelo preconceito e pelo ódio. As atitudes de Tomé, chamado Dídimo, são sinais de que há incredulidade na comunidade, mas também bonitos testemunhos de fé.
O Evangelho destaca duas aparições do Senhor Ressuscitado e a postura do Apóstolo Tomé diante desses eventos. Na primeira aparição, no próprio dia da Ressurreição, Jesus se manifesta no meio da comunidade reunida, saudando-os com a paz e conferindo-lhe os dons do Espírito Santo. Esses dons pascais da paz e do Espírito Santo não apenas fortalecem a fé dos discípulos, mas também os capacitam para a missão confiada pelo Mestre. A ausência de Tomé nessa ocasião leva-o à dúvida, revelando a necessidade do encontro pessoal com Cristo para a fé verdadeira. Oito dias depois, o Senhor reaparece, dirigindo-se diretamente a Tomé e convidando-o a superar a incredubilidade e abraçar a fé viva. Em resposta, Tomé professa uma das mais profundas e eloquentes confissões cristológicas: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28b). Esse momento ressalta o dom da fé como fundamento do discipulado e o início da missão de testemunhar a vida nova, que emana do Ressuscitado!
A primeira leitura – At 2,42-47 – é uma “fotografia retocada” da primitiva comunidade cristã de Jerusalém. Lucas, o autor dos Atos dos Apóstolos, imprime nela os traços da comunidade ideal: é uma comunidade unida e fraterna, onde os bens são partilhados e onde cada um está atento às necessidades dos outros irmãos; é, também, uma comunidade empenhada em escutar a Boa Notícia de Jesus, em reunir-se para a “fração do pão” e para a oração comunitária. O estilo de vida desta “família” é contagiante e faz com que muitos outros homens e mulheres sintam vontade de integrar a Igreja de Jesus. A comunidade nascente estava fundamentada no ensinamento dos apóstolos: na solidariedade e partilha para com os necessitados e nas ações litúrgicas. É um bom exemplo para nossas comunidades cristãs, pois, vivendo assim, elas podem despertar a simpatia do povo e atrair novos participantes.
Na segunda leitura – 1Pd 1,3-9 – lembra a todos os batizados em Cristo a sua condição de homens novos, felizes beneficiários da misericórdia de Deus. Cristo, o vencedor da morte, salvou-os e abriu-lhes as portas da vida definitiva. Certos da vida nova que os espera, os cristãos devem encarar a sua caminhada pela terra com uma “esperança viva”, com uma “alegria inefável e gloriosa”, com um otimismo contagiante. A ressurreição de Jesus nos fez renascer para uma esperança viva. A fé nos sustenta diante das provações do tempo presente para brilharmos com Cristo em sua glória. O amor torna-nos capazes de olhar para além das aparências. A Segunda Leitura manifesta uma profunda ação de graças ao Pai: “Bendito seja Deus (…)Em sua grande misericórdia, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, ele nos fez nascer de novo, para uma esperança viva” (1Pd 1,3). É pela fé que nos aproximamos deste Mistério salvador, que nos conduz à plenitude da vida em Deus.
A ressurreição de Jesus nos faz renascer para uma vida de fraternidade, de esperança, de perdão e de paz.
Neste Domingo da Divina Misericórdia, em que lembramos os que foram batizados na Vigília Pascal, exercitemos a misericórdia, a compaixão e a paz que o Cristo Ressuscitado nos oferece e professemos com fé: “Meu Senhor e meu Deus eu Creio, mas aumentai a minha fé!”. Que nossa fé seja portadora da paz que só o Ressuscitado pode nos oferecer e, evidentemente, nós devemos compartilhar e testemunhar no mundo que precisa de paz e de compaixão!
