Dom Itacir Brassiani
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)
Vivemos tempos de frequentes eventos climáticos extremos. Todos sentimos isso na pele, mas nem todos querem abrir os olhos à realidade que nos cerca e atravessa. O negacionismo climático ainda seduz a muita gente. Sob o governo Trump, os EUA, responsáveis pela emissão de mais 25% dos gases que poluem a atmosfera do planeta, se recusam a assinar compromissos para reduzir a emissão destes venenos. O argumento é simplesmente simplório: não causar prejuízos à economia norte-americana.
Como cristãos, somos desafiados a compreender a gravidade da questão ambiental na encruzilhada histórica que vivemos. Passou o tempo em que se podia acusar meia dúzia de ambientalistas exagerados pela disseminação de inverdades acerca dos riscos ambientais. Entidades e academias reconhecidamente sérias acumulam informações e divulgam dados que não podem mais ser ignorados. Jesus curou os surdos para que ouvissem, e os cegos para que pudessem ver as coisas como são.
Como cristãos, precisamos também levar a sério o mandamento de amar o próximo. Este amor implica, certamente, o esforço inteligente, perseverante e organizado para garantir condições de vida, de liberdade e de justiça para os irmãos e irmãs que estão ao nosso lado, e para os 2/3 da humanidade que são “invisíveis” para as elites que “habitam os andares superiores” e só têm olhos para si mesmos e seus lucros.
Mas creio que o amor ao próximo hoje exige mais que isso. Ele pede de nós a capacidade de amar os próximos que ainda virão: preservar boas condições ambientais para que as próximas gerações possam viver. É ilusão pensar que fazemos nossa parte lutando e defendendo o direito dos pobres que hoje nos rodeiam e interpelam. Não podemos “salvar” os pobres de hoje colocando em risco aqueles que deverão viver amanhã.
Em nome da fé em Jesus de Nazaré, em nome dos milhares e milhões de homens e mulheres que lutaram para que pudéssemos viver com liberdade e dignidade, respirando oxigênio e não apenas fumaça, precisamos nos engajar, sem demora nem desculpas, neste mutirão de defesa e conservação da Casa Comum. E que ninguém venha me dizer que Jesus veio “salvar almas” e não as matas e os rios. Jesus não elogiou o sacerdote e o levita que priorizam a lei e o culto, mas o homem samaritano, que se aproxima para socorrer quem corre risco de vida (cf. Lucas 10,25-37).
