Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

 

 

A missão de Jesus foi assim anunciada pelo Quarto Evangelho: “para que todos tenham vida e vida em plenitude” (Jo 10,10). Eis aí o sonho de Deus para toda sua criação desde o princípio. A Revelação está repleta de referências a esse ideal. Tanto os escritos mais antigos como os mais recentes registram a intenção de Deus. “(…) soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7b). “(…) nunca mais haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor” (Ap 21,4b). 

Infelizmente, a ambição humana tornou-se mais fascinante do que o sonho de Deus. Já preconizava o filósofo: “O homem tornou-se um lobo para o próprio homem” (Thomas Hobbes, Do Cidadão e Leviatã). E ousamos acrescentar: “lobo também para a natureza”. O que vemos, acentuado na história, são os instrumentos de morte, em nome da prepotência e da ganância. Mata-se por motivos banais e incompreensíveis. Verdadeiros sacrifícios humanos são ofertados ao deus capital. Sangue inocente é derramado no altar da desigualdade social, do preconceito, da vida interrompida, decepada, anulada. 

Há um nefasto sistema social que oprime e mata para manter o bem-estar de uns poucos privilegiados. Constatamos mortes lentas geradas pela monocultura, pela mineração, pela invasão de territórios. Mortes deflagradas pela fome, pela desnutrição, pela miséria. Mortes encomendadas pelo incômodo da verdade. Mortes causadas pela violência das armas, em uma sociedade que carece de justiça social, educação, trabalho e lazer. Mortes geradas pelo descaso das leis de trânsito. Mortes espalhadas pela irracionalidade das guerras. Mortes que causam indignação! 

Como não nos indignarmos com a morte de inocentes, de seres humanos que ainda não viram a maravilha da luz da vida? A fé cristã e boa parte dos cientistas bem-intencionados nos asseguram que a vida se inicia na fecundação. A partir daí, tudo o que se fizer contra o ser em formação é um atentado à vida. Lembramo-nos dos verdadeiros infanticídios causados pelo aborto e pelo descompromisso científico da clonagem humana e da fecundação in vitro. A ciência deve continuar sua nobre colaboração na obra da criação, mas sem comprometer a vida de inocentes. 

Mortes são antecipadas, de forma inescrupulosa, pelo horror da eutanásia. Em um mundo de mentalidade descartável, vidas são interrompidas para aliviar não somente a dor e o sofrimento, mas também os gastos hospitalares. O ser humano também se tornou descartável. Quando já não é mais útil à sociedade, esta procura eliminá-lo para evitar despesas com a saúde pública e com a manutenção de casas de acolhida, segundo a mentalidade e a cultura do descarte, como se faz com uma garrafa PET quando perde o seu conteúdo. 

Assistimos, atônitos, à morte da natureza. O consumismo nos obriga a rasgar a terra, desmatar de forma inconsequente e poluir os rios e o ar desordenadamente. Corremos o sério risco de ficarmos privados de água potável. Nossa alimentação está comprometida pelos agrotóxicos. Nossa respiração nos traz moléculas de poeira e gazes nocivos à saúde. Toda a obra da criação está comprometida. Podemos até extinguir a vida dita inteligente no planeta; no entanto, a vida há de perdurar e vingar-se de nossa civilização. 

Mas nem tudo está perdido. Há sinais de reação: grande parcela da humanidade vem tomando consciência dessa realidade e apresentando propostas para um desenvolvimento sustentável, para além da destruição. Todo ser humano é chamado a comprometer-se com o respeito à vida. Tanto a vida humana quanto a vida animal e vegetal. Também a vida de nossos rios e mananciais deve ser preservada, se desejamos uma vida em plenitude, como é o sonho de Deus. Pequenos gestos podem significar grandes resultados. 

Morte e vida celebramos no Mistério Pascal. Morte e vida constatamos na realidade do ser humano. Morte e vida assistimos diante de nossos olhos, na natureza. A dor da morte das pessoas e do mundo criado não nos tolhe a esperança de ressurreição: de vida nova, intensa, na potência do Ressuscitado, que passou pela violenta morte na cruz. Também nós haveremos de ressuscitar. Já estamos em processo de ressurreição desde a graça do Batismo, experimentando a vida nova a cada dia. A natureza e todo o cosmos também já estão ressuscitando a cada primavera, a cada cuidado do ser humano e a cada luta pela preservação da obra da criação de Deus, confiada aos nossos cuidados. E, um dia, nós e o mundo criado faremos a experiência de um novo céu e uma nova terra (cf. Ap 21,1). 

“E não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica, vê-la brotar como há pouco em nova vida explodida; mesmo quando é assim pequena a explosão, como a ocorrida; como a de há pouco, franzina; mesmo quando é a explosão de uma vida Severina” (João Cabral de Mello Neto, Morte e Vida Severina). 

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